

Educao para o (des)emprego  

Bernardete Wrublevski Aued (org.).  -
Petrpolis, RJ: Vozes,         1999.         Vrios autores.  **
Digitalizado por Lourival Ferreira do Nascimento.  A numerao das
pginas desse livro se encontra abaixo das folhas.  Belm, Jan/2004. **
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)         (Cmara
Brasileira do Livro, SP, Brasil) Educao para o (des)emprego /
Bernardete Wrublevski Aued (org.). - Petrpolis, RJ : Vozes,
1999.         Vrios autores.         ISBN 85.326.2211-9 -. Educao -
Finalidades e objetivos 2. Educao profissional 3. Trabalho e classes
trabalhadoras I. Aued, Bernardete Wrublevski. 99-1346
CDD-370.113 ndices para catlogo sistemtico: 1. Educao e trabalho
370.113 Organizadora: Bernardete Wrublevski Aued Autores: Gaudncio
Frigotto Bernardete Wrublevski Aued Kari Polanyi Levitt Clarilton C.
Ribas Edna Garcia Maciel Fiod Idaleto Malvezzi Aued Lucdio Bianchetti
Nise Jinkings Roberto Moraes Cruz EDUCAO PARA O(DES)EMPREGO (ou quando
estar liberto da necessidade do emprego  um tormento)      EDITORA
VOZES Petrpolis 1999  1999, Editora Vozes Ltda. Rua Frei Lus, 100
25689-900 Petrpolis, RJ Internet: http://www.vozes.com.br Brasil Todos
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ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrnico ou
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TCNICA GERENTE EDITORIAL Avelino Grassi EDITOR Ldio Peretti Edgar Orth
GERENTE INDUSTRIAL Jos Luiz Castro EDITOR DE ARTE Omar Santos
EDITORAO Editorao e organizao literria: Orlando dos Reis Reviso
grfica: Revitec S/C Paginao: Rosngela Loureno e Sheila Roque
Superviso grfica: Valderes e Monique Rodrigues ISBN 85.326.221 I -9
Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda. - Rua Frei
Lus, 100. Petrpolis, RJ - Brasil CEP 25689-900 - Tel.: (024) 237-5112
- Fax: (024) 237-4676 - Caixa Postal 90023.   Sumrio PREFCIO, 7
Gaudncio Frigotto INTRODUO, 15         Bernardete Wrublevski Aued DE
VOLTA AO FUTURO: KARL POLANYI SOBRE A CRISE ECONMICA MUNDIAL DOS ANOS
30: LIES PARA A IMINENTE RECESSO GLOBAL, 19         Kari Polanyi
Levitt SOBRE A EXTINO DAS PROFISSES: IMPLICAES TERICAS, 43
Bernardete Wrublevski Aued EDUCAO, TICA E GNERO NO TOYOTISMO, 65
Clarilton Cardoso Ribas POLITECNIA: A EDUCAO DO MOLUSCO QUE VIRA
HOMEM, 83         Edna Garcia Maciel Fiod CAPITAL E EMANCIPAO HUMANA:
O SER SOCIAL, 109         Idaleto Malvezzi Aued AS NOVAS TECNOLOGIAS E O
DEVASSAMENTO DO ESPAO-TEMPO DO SABER TCITO DOS TRABALHADORES, 133
Lucdio Bianchetti TRABALHADORES BANCRIOS: ENTRE O FETICHISMO DO
DINHEIRO E O CULTO DA EXCELNCIA, 151        Nise Jinkings
FORMAO PROFISSIONAL E FORMAO HUMANA: OS (DES)CAMINHOS DA RELAO
HOMEM-TRABALHO NA MODERNIDADE, 175         Roberto Moraes Cruz  Prefcio
Vivemos, neste final de sculo, um tempo em que h uma espcie de culto
ao "novo". As idias dominantes, que definem o que acabou e plasmam o
que denominam de novo, so conservadoras no plano tico-poltico,
social, econmico e positivistas no mbito epistemolgico. A queda do
muro de Berlim e o colapso do socialismo real passaram a servir, tanto
no mbito poltico quanto no pseudocientfico, para alardear as teses do
fim da histria, ou seja, fim do sentido de lutar-se por uma utopia
socialista, fim do trabalho e o fim das classes sociais, paradoxalmente,
afirmando-se como "eterno" o modo de produo capitalista. As noes de
ps-moderno, ps-industrial e ps-fordista, em nveis diversos, afirmam
o senso comum de uma nova era e os cenrios mistificadores de um mundo
unipolar, globalizado e reestruturado qualitativamente pela "terceira
revoluo industrial". Forma-se uma sociedade supostamente harmnica sob
a gide de uma "nova era do mercado", centrada no mais nas relaes de
poder e, portanto, de classe, mas numa "sociedade do conhecimento" onde
o cognitariado substitui o proletariado.         Neste cenrio de
presente-futuro neoconservador, os sistemas educacionais e de formao
tcnico-profissional passam a assumir um duplo papel: substituem ou
eliminam a luta de classes e habilitam as naes e os indivduos a se
integrarem s economias globalizadas e aos mercados competitivos.
Trata-se, todavia, de processos educacionais e de formao
tcnico-profissional tambm de tipo novo. Tanto no plano da organizao
quanto no plano das concepes, o que os define so as leis do mercado.
 dentro desta redefinio que assistimos, no campo educacional, ao
surgimento de noes, aparentemente novas, mas que de novo, muitas
vezes, engendram fundamentalmente a nfase ideolgica: competncias,
habilidades, qualidade total, empregabilidade, etc. Trata-se de noes,
pois no se constituem, em termos epistemolgicos, em conceitos.
Falta-lhes, para tanto, materialidade histrica.         Uma leitura
radicalmente diversa, no plano tico-poltico, econmico, social e
epistemolgico, nos  oferecida por um reduzido nmero de intelectuais
espalhados pelo mudo.  uma leitura que tem como suporte epistemolgico
uma viso histrica da realidade e como convico tico-poltica a
necessidade de superao do modo de produo capitalista, por tratar-se
de uma forma societria anti-social e, portanto, incapaz estruturalmente
de desenvolver processos efetivamente equalitrios e solidrios entre os
seres humanos. Centrada num tempo de longa durao, numa perspectiva de
totalidade histrica, no separa os movimentos estruturais da realidade
dos movimentos conjunturais. A realidade do presente e os cenrios do
futuro no se constituem em escolhas arbitrrias, mas opes
historicamente entrelaadas e condicionadas. Assim tambm, velho e novo,
no plano histrico, no so processos separveis. Por isso h processos
anunciados como novos que, na realidade, reeditam o passado anacrnico,
tanto no plano societrio mais amplo, quanto especificamente no mbito
da educao e formao profissional.         No plano societrio mais
amplo, a forma histrica que assume o processo de globalizao neste
final de sculo, subordinada  ideologia neoliberal e, portanto,  "nova
era do mercado", exemplifica emblematicamente o que  apresentado como
novo, mas que carrega o sinal do anacrnico. Com efeito, o processo de
globalizao no  um fenmeno novo e, igualmente, no  algo negativo
em si mesmo. A positividade ou negatividade dos processos de
globalizao e de universalizao so definidos pelas relaes sociais.
Romper as barreiras das cavernas, dos guetos e da provncia tem sido uma
busca constante na construo histrica do ser humano. Sua negatividade
reside na forma de relaes sociais at hoje vigentes - relaes de
classe - que tipificam, na expresso de Marx, a pr-histria do gnero
humano.         Num dos mais divulgados e discutidos textos escritos por
Marx e Engels, o Manifesto Comunista, que completou 150 anos em maro de
1998, a positividade e negatividade da globalizao  descrita de forma
emblemtica.         Onde quer que tenha assumido o poder, a burguesia
ps fim a todas as relaes feudais, patriarcais e idlicas. Destruiu
impiedosamente os vrios laos feudais que ligavam o homem a seus
"superiores naturais", deixando como nica forma de relao homem a
homem o lao do frio interesse, o insensvel "pagamento  vista" [...] A
burguesia no pode existir sem revolucionar constantemente os meios de
produo e, por conseguinte, as relaes de produo e, com elas, as
relaes sociais. [...] A revoluo contnua da produo, o abalo
constante de todas as condies sociais, a eterna agitao e incerteza
distinguem a poca burguesa de todas as precedentes. Suprimiram-se todas
as relaes fixas, cristalizadas, com seu cortejo de preconceitos e
idias antigas e veneradas; todas as novas relaes se tornam antigas,
antes mesmo de se consolidar. Tudo o que  slido se evapora no ar, tudo
o que era sagrado  profano, e por fim o homem  obrigado a encarar com
serenidade suas verdadeiras condies de vida e suas relaes como
espcie. A necessidade de um mercado constantemente em expanso impele a
burguesia a invadir todo o globo. Necessita estabelecer-se em toda a
parte, explorar em toda a parte, criar vnculos em toda a parte.
Neste texto, como em outros, Marx e Engels expem o carter
contraditrio das relaes sociais capitalistas que engendram, ao mesmo
tempo, elementos civilizatrios e progressistas e elementos de
destruio, violncia e excluso. Trata-se de um processo que enfrenta,
por isso mesmo, crises cclicas cada vez mais profundas. A 8 forma que
assume a globalizao neste fim de sculo , em sua essncia, a busca de
recompor perdas do capital. , tambm, neste sentido, uma revanche
contra as conquistas sociais da classe trabalhadora. O iderio da
globalizao, em sua aparente neutralidade, cumpre um papel ideolgico
de encobrir os processos de dominao, as relaes imperialistas do
capital e a extraordinria ampliao do desemprego estrutural, trabalho
precrio e aumento da excluso social.         Explicita-se, assim,
neste fim de sculo, o que o filsofo Istvan Mszros,1 define como o
esgotamento da capacidade civilizatria do capital. O mpeto de
destruio, at mesmo nos pases que atingiram grande estabilidade
social, tende a aumentar. Os problemas enfrentados atualmente pela
Frana, Alemanha, Itlia, entre outros pases europeus que tiveram
enormes conquistas sociais neste sculo, elucidam a tese de Mszros.
Numa densa resenha do livro de Mszros, Daniel Singer2 sintetiza a
referida tese. Na verdade, j h algum tempo o capitalismo perdeu a sua
funo "civilizatria" enquanto organizador impiedoso mas eficiente do
trabalho. [...] Simplesmente para prosseguir existindo o sistema
funda-se cada vez mais no desperdcio, na "obsolescncia planejada", na
produo de armas e no desenvolvimento do complexo militar. Ao mesmo
tempo, o seu impulso incontrolvel para a expanso j produziu efeitos
catastrficos para os recursos naturais e o meio ambiente. Nada disso
impede o sistema de produzir "trabalho suprfluo", vale dizer desemprego
em massa. Alm disso, como para frisar a gravidade de sua crise atual,
nos ltimos vinte anos o capitalismo vem abolindo todas aquelas
concesses que, sob o genrico nome de Estado de Bem-Estar, supostamente
justificavam a sua existncia.         Seriam os processos as reformas
educacionais que buscam "enquadrar", no plano da gesto, organizao, e
nos contedos, os processos formativos e de qualificao e
requalificao, dentro da perspectiva das competncias definidas pelo
mercado, uma resposta efetiva  crise do processo civilizatrio, crise
do trabalho assalariado, e  insero dos nossos pases na
competitividade globalizada? Qual  o efetivo poder dos processos
educativos e de qualificao para produzirem a composio adequada de
competncias e sua permanente atualizao para conferir aos milhes de
desempregados "empregabilidade"?         Por certo, neste particular,
explicita-se mais uma faceta daquilo que  apresentado como novo real,
mas que  anacrnico e ideolgico. O que efetivamente vem a ser a
promessa da empregabilidade para alm de repetio de mximas cnicas
como a seguinte: "Empregabilidade  como a segurana agora se chama".
---   1. MSZROS, I. Be ymd capital. Towards theory of transition.
Londres: M. Review, Merlin Press, 1996. 2. SINGER, D. Para alm da
alienao. Nova York, Jornal The Nation, 10 jun. 1996. 9 [...] uma bela
palavra soa nova e parece prometida a um belo futuro: "empregabilidade:
que se revela como um parente muito prximo da flexibilidade, e at como
uma de suas formas. Trata-se, para o assalariado, de estar disponvel
para todas as mudanas, todos os caprichos do destino, no caso, dos
empregadores. Ele dever estar pronto para trocar constantemente de
trabalho (como se troca de camisa, diria a ama Beppa). Mas contra a
certeza de ser jogado "de um emprego a outro", ele ter uma "garantia
razovel", quer dizer, nenhuma garantia de encontrar emprego diferente
do anterior que foi perdido, mas que paga igual. 3         A coletnea
Crise, Educao profissionalizante e Metamorfoses, organizada por
Bernardete Wrublevski Aued, rene oito densos textos cujo contedo de
anlise, no recorte que se propem, est no centro do debate acima
assinalado. O que os une na diversidade e os articula  uma mesma
perspectiva histrica, epistemolgica e tico-poltica. Seus
interlocutores explcitos ou implcitos so pensadores que se negam a
aceitar como inevitvel a "nova era do mercado" e suas conseqncias em
termos humanos e que postulam formas societrias e de prticas
formativas e educativas que concorram para a superao das relaes
sociais capitalistas.         O texto de abertura da coletnea De volta
ao futuro: Kari Polanyi sobre a crise econmica mundial dos anos 30  a
traduo de uma anlise de Kari Polanyi Levitt, na qual estabelece uma
relao entre a crise dos anos 30 e a crise atual. Tendo como base o
livro abrande transformao de Polanyi, o qual desenvolve a idia
central de que um mercado auto-ajustvel no poderia perdurar por muito
tempo sem "aniquilar a substncia humana e material da sociedade", a
autora nos mostra que a crise dos anos 90 engendra os elementos
estruturais dos anos 30, agora, porm, numa magnitude sem precedentes e
com novos complicadores, mormente a hegemonia do capital financeiro e
especulativo.         No plano ideolgico, no por mera coincidncia,
dentro do esprito deste primeiro texto, nos anos 40, Hayek produzia as
bases da ideologia neoliberal adotada neste final de sculo, em sua obra
O caminho da servido. A tese central desta obra, diametralmente oposta
 de Polanyi,  a de que as polticas sociais equalitrias e os
mecanismos de planejamento e controle do Estado levam  servido e o
"livre mercado" leva  prosperidade. Os efeitos de aniquilamento da
"substncia humana e material da sociedade" assumem uma escala
exponencialmente maior na atualidade. Da mesma forma, os perdedores,
como num eterno castigo de Ssifo, so novamente os trabalhadores dos
diferentes pases do mundo, tambm numa magnitude extraordinariamente
maior. ---  3. Forrester, V. O horror econmico. So Paulo: UNESP, 1997.
10         Os dois textos seguintes abordam, em nveis diversos de
abrangncia e de recorte analtico, formas de subordinao do
trabalhador  sociabilidade capitalista. No primeiro, Bernardete
Wrublevski Aued analisa a extino das profisses e as implicaes
tericas de sua apreenso histrica. Relacionando passado e presente,
numa perspectiva de compreenso histrica de longa durao, a autora
mostra-nos que a extino de postos de trabalho e profisses ganha
compreenso efetiva quando situada no contexto das relaes sociais e
relaes de produo capitalistas, mormente em momentos de
transformaes e metamorfoses do capital. Trata-se de um processo no
linear e, portanto, contraditrio que assume no presente uma realidade
explosiva mediante o desemprego estrutural. No segundo, Clarilton
Cardoso Ribas analisa a educao, a tica e o gnero no toyotismo. A
anlise que o autor nos ofetece evidencia as razes histricas e
culturais e as conseqncias humanas e sociais do toyotismo. Esta forma
particular de regulao social capitalista, para o autor, somente ser
entendida se atentar, de um lado, para as particularidades milenares da
cultura japonesa e, de outro, para os processos violentos de represso
da luta operria que ocorreu no Japo, particularmente aps a Segunda
Guerra Mundial. Nos traos culturais que moldam o trabalhador para
torn-lo propenso a uma "servido voluntria", tm um papel fundamental
os processos formativos e educativos que se desenvolvem na famlia, se
afirmam e se reproduzem na escola e no cho da fbrica.         A
coletnea prossegue com uma anlise, certamente polmica, de Edna Garcia
Maciel Fiod sobre a concepo de ensino politcnico amplamente debatida
no campo da esquerda nos anos 80, no Brasil. Tomando o fio da
reconstituio histrica, analisa as transformaes nas relaes de
produo, mediadas pela revoluo industrial, que demandam o trabalhador
coletivo e a incorporao do conhecimento cientfico e tecnolgico no
processo de trabalho. Os limites da perspectiva do ensino politcnico,
afirmado enquanto demanda contraditria da nova base cientfica e
tecnolgica de natureza micro-eletrnica e informacional, situam-se,
para a autora, no fato de que o trabalho est subordinado a relaes
sociais de explorao. A proposta do ensino politcnico ganha
complexidade, por outro lado, quando se considera que milhes de
trabalhadores tm seu trabalho precarizado ou simplesmente so
desempregados.         O quinto texto, Capital e emancipao humana: o
ser social, de Idaleto Malvezzi Aued, constitui-se, sem propor-se
enquanto tal, numa espcie de base ou fundamentao mais geral da
coletnea. O autor segue o tomo primeiro do livro 1 de O capital de K.
Marx para explicitar a problemtica do ser social e emancipao humana.
O capital, como relao social historicamente delimitada, constitui-se,
ao mesmo tempo e contraditoriamente, num marco de avano do processo
civilizatrio e numa poderosa fora destrutiva. Com efeito, trata-se de
uma fora que impulsiona o avano das foras produtivas, mas que, por
estar subordinada  propriedade privada, cinde a humanidade e exclui ou
precariza milhes de seres humanos da satisfao 11 das necessidades
elementares. Uma fora, portanto, que limita o desenvolvimento do ser
social j no mbito do trabalho humano, como reino de necessidade, e
obstaculiza o avano para a dilatao do trabalho, como reino de
liberdade. O efetivo desenvolvimento do ser social, num horizonte
humano, pressupe, pois, a superao das relaes sociais capitalistas.
A coletnea se completa com trs artigos que abordam aspectos
especficos das relaes de produo no Brasil e da formao
profissional. Nise Jinkings analisa as novas exigncias de formao e de
conformao dos trabalhadores bancrios face  reestruturao produtiva.
A hegemonia do capital financeiro, na sua face de capital bancrio,
suprime de forma acelerada postos de trabalho e privilegia profissionais
de informtica e da rea do mercado financeiro. Do "novo" trabalhador
bancrio exige-se tanto uma maior formao geral, que o torne
polivalente, quanto, sobretudo, um comportamento passivo de adeso s
polticas dos bancos.         Lucdio Bianchetti, num denso texto, tendo
como recorte histrico-emprico os processos de conhecimento e de
formao no mbito das telecomunicaes, mostranos como o capital, sob
as novas tecnologias informticas, apropria-se do saber tcito dos
trabalhadores. Trata-se de um processo de expropriao-apropriao do
saber-fazer dos trabalhadores elaborado terica e praticamente ao longo
de suas vidas, que, no contexto do fordismo, representou um elemento
favorvel aos seus embates com o capital. O capital, diante das novas
tecnologias informacionais, objetiva e padroniza este saber em
conhecimentos teletcitos. Face a esta realidade, o autor pergunta-se
sobre qual o espao de manobra e de resistncia que ainda resta ao
trabalhador na defsa dos seus interesses. Embora no haja resposta
fcil a essa questo - e o que se vislumbra, at onde a vista alcana, 
uma verdadeira "vingana" do capital contra a classe trabalhadora - o
horizonte que os textos desta coletnea nos indicam mostra, uma
inequvoca necessidade de democratizar ou socializar os meios de
produo, mormente a tecnologia.         No ltimo texto, Roberto Moraes
Cruz retoma, num contexto amplo, o debate sobre os descaminhos da
formao profissional e humana no contexto da modernidade. Explicita-nos
que a formao profissional tem sido subordinada ao carter ideolgico e
instrumental do trabalho ao capital. Tal perspectiva vem orientando as
atuais polticas de formao profissional e, portanto,  fundamental que
se prossiga desvelando seu carter ideolgico e os seus (des)caminhos.
Uma formao profissional alternativa, assinala-nos o autor, pressupe
um redimensionamento da relao homem-trabalho, tendo como base as
necessidades humanas.         As anlises desta coletnea somam-se, de
forma vigorosa, ao acmulo de reflexo terica e histrica da rea e nos
indicam que  uma inverso falseadora da realidade, produto do
pensamento conservador, atribuir  educao, em geral, e  formao
profissional, em particular, o papel definidor das relaes de poder no
plano econmico e poltico. Ao contrrio, os processos educativos so
dominantemente 12 condicionados pelas relaes de poder poltico e
econmico. Por conseqncia,  falsa tambm a tese, transformada em
senso comum pelo atual governo conservador e pelas classes dominantes no
Brasil, de que sistemas educacionais e de formao profissional que
desenvolvem competncias exigidas pelo "mercado" definem o mecanismo
fundamental que permite s pessoas "empregabilidade". Isso significa,
num plano societrio mais amplo, o deslocamento da responsabilidade
coletiva e pblica diante do desemprego, acidentes de trabalho, doenas
e misria para o plano individual. "O retorno ao indivduo  tambm o
que permite acusar a vtima, nica responsvel por sua infelicidade, e
lhe pregar auto-ajuda, tudo isso sob o pretexto da necessidade
incansavelmente reiterada de diminuir os encargos das empresas". 4
Afirmativamente, ainda que no seja o eixo especfico de anlise da
maior parte dos textos, a coletnea refora a idia da educao bsica,
unitria, universal, pblica e laica, amplamente debatida nos anos 80,
no imediatamente atrelada ao desenvolvimento econmico e ao mercado de
trabalho (por isso, bsica), como um direito subjetivo de qualificao
humana para todos. Tcnica, cientfica e politicamente, esta educao 
pressuposto para a formao tcnico-profissional e, no mdio e longo
prazo, pode vir a desempenhar um papel fundamental na democracia
econmica, social e cultural em nosso pas e a promover uma relao
aberta, necessria e indispensvel, mas soberana, com o cenrio
internacional. Aponta-se para uma educao tecnolgica e tico-poltica
que capacite as pessoas ao exerccio ativo na construo de novas
relaes sociais efetivamente democrticas e socialistas - e um novo
sentido para o trabalho e para o tempo livre. Este no pode ser
confundido com tempo de desemprego ou trabalho precarizado. Trata-se de
um tempo de liberdade, de fruio e de dilatao da vida humana.
Pela clareza de posies e pela proposta direta e didtica de abordagem
dos temas,  uma coletnea que inova, leitura obrigatria para
professores do sistema de educao fundamental e bsica, professores e
alunos de graduao e ps-graduao, tcnicos que atuam nos sistemas
educacionais e lideranas de movimentos sociais. Rio de Janeiro, maro
de 1999 Gaudncio Frigotto ---  4. Bourdieu, P.Contryfogos: tticas para
enfrentar a invaso neoliberal. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 16. 13
Introduo Nossa poca , como dizem, o sculo do trabalho; na verdade,
 o sculo da dor, da misria e da corrupo. Paul Lafargue, 1880
Utilizamos o termo trabalho para designar as mais variadas situaes: o
trabalho das abelhas operrias na colmia, do beija-flor, do pintor
Leonardo da Vinci, do aluno, do varredor de ruas, da mquina, como se
tudo na vida pudesse ser resumido a trabalho. O lugar e o sentido do
trabalho encontram-se ocultados por enfoques tecnocrticos,
economicistas e polticos.         O estatuto do trabalho  um assunto
crucial nas sociedades industrializadas e ps-industrializadas.  a
dimenso fundamental da organizao social. Se reconhecemos que est
caracterstica  essencial s nossas vidas,  igualmente necessrio
admitirmos que no faz muito tempo que as sociedades baseiam-se no
trabalho. Faz apenas dois sculos que o trabalho instituiu-se tal comovo
conhecemos na atualidade: remunerado, principal meio de sobrevivncia
individual, relao de carter fundamental. Na atualidade, tambm
correlacionamos o termo trabalho com crise. Estar em crise parece ser a
marca de nossos dias. H crise em quase tudo: no trabalho dos bancrios,
no fordismo, na educao e nas profisses. Hoje, mais do que ontem,
fala-se em crise de emprego e de trabalho como se fossem sinnimos.
Melhor seria que fizssemos meno  crise do pleno emprego, se  que
algum dia este existiu.         Rompendo a aparncia enganadora de que
tudo se realiza num cenrio em que a obrigao de trabalhar  to
natural como respirar ou alimentar-se, esta coletnea ensaia uma crtica
s atuais tentativas de igualar termos e expresses que caracterizam o
trabalho. Produtos de construes histricas, esses termos contm tambm
um arcabouo terico-poltico que pode estar explcito ou no.
Vivemos numa sociedade paradoxal: produz-se mais com menos emprego de
trabalhadores, isto , com menor emprego de trabalho vivo. A
produtividade do trabalho, neste final de sculo, eleva-se a ndices
inusitados. O fascnio das milhares de quinquilharias eletrnicas e
telefnicas, produtos das ditas novas tecnologias, engendram
consideraes de puro encantamento, turvando os olhos da crtica. Ento,
o que permitiria pensarmos estar diminuindo o trabalho em nossas vidas
transforma no estar ocupado em um tormento. Diante da elevao da
produtividade, a crescente prescindibilidade do trabalho vira uma
saraivada de lamentos. Os sindicatos, os 15 profissionais e as pessoas
reclamam por mais emprego, reclamam por empregos mais rentveis.
 cada vez mais visvel o tormento de quem est desocupado, pois, nos
anos 90 do sculo XX, rima com estar desempregado. Estar nesta condio
no  ter o tempo livre para o lazer,  tenso diante de um futuro
incerto,  medo, sentimento de fracasso e sensao de ser descartvel.
H medidas poltico-governamentais que tentam estancar a hemorragia do
desemprego. Reativam-se estratgias macroeconmicas de postos de
trabalho e de melhorias na qualificao profissional. Ainda assim,
expande-se a precarizao das condies gerais de trabalho e cresce o
subemprego em suas variadas formas.         E no h quase nada sobre a
crtica ao trabalho, o que nos faz acreditar que vivemos o retorno ao
tempo das fbricas satnicas e das idias de legitimao do trabalho.
A crtica direcionada s manifestaes elogiosas ao trabalho e  sua
excessiva valorizao existe h muito tempo. A luta pela jornada de oito
horas de trabalho, uma entre outras tantas, lembra um passo recente em
que os pobres eram muito bravos, inconformados e insurgentes, o
contrrio do que se v hoje, que os ricos  que esto muito bravos, como
diz Domnico de Masi (1998)'.         No presente momento h preferncia
ao termo trabalho, ao invs de emprego, que predomina no perodo aps a
Segunda Guerra Mundial. Esta alterao lxica no  mera casualidade e
sintetiza o esforo legitimador do trabalho, ou algo assim: para alm do
emprego  importante preservar o trabalho, porque este  uma categoria
natural, invariante (categoria antropolgica). Est em todo tempo e
lugar, assegura a realizao pessoal e  o centro de todo vnculo
social. O emprego assalariado confunde-se com o trabalho. Trabalho 
tudo,  vida, assim como o ar que respiramos. Tudo  visto como se as
revoltas dos trabalhadores fossem formas de conspirao, de idias
contrrias e interesses descabidos.         Qual , ento, o significado
do trabalho? Como chegamos a considerar o trabalho e a produo como o
centro de nossa vida social e individual? Quem so os derrotados quando
o trabalho ascende e torna-se o vnculo com o ncleo social? Quais foram
as motivaes da "inveno do trabalho"? A que veio? H sociedades sem
trabalho?         Os autores desta coletnea esto ligados ao "trabalho
de ensino", numa universidade pblica brasileira. Inseridos em diversos
departamentos, tm em comum o inconformismo com as formas de subjugao
a que esto sendo submetidos os trabalhadores. Nesta coletnea, de forma
diversa e controversa, os autores apresentam algumas luzes ao debate
sobre o tema trabalho.  preciso aprofundar o conhecimento ---   1.
Segundo entrevista no Programa Roda Viva da TV Cultura, realizado em So
Paulo, em dezembro de 1998. 16 das diversas formas de representao do
trabalho e encetar uma radical crtica a ele. Ele  o "sentimento" geral
que une estes pesquisadores de reas diversas, como sociologia,
educao, administrao, economia e psicologia. Os textos refletem
distintas maneiras de interpretar o trabalho, seja em seus aspectos
singulares ou nas manifestaes mais genricas.  necessrio compreender
o que  o trabalho hoje (esta categoria homognea), e isto exige
aprofundamento terico e histrico que vai muito alm das abordagens
aqui anunciadas.         Os textos apresentados a seguir expressam a
unidade do pensamento dentro de uma matriz analtica que, entretanto,
no significa ausncia de diversidade. Ao contrrio, por reconhecer que
a "verdade" no  exclusiva de um ou de outro iluminado, a coletnea foi
constituindo-se  medida que o grupo discutia os diversos enfoques da
realidade a partir dos textos sugeridos pelos autores. Para isto, foi
necessria uma dose elevada de fraternidade, de total despojamento de
competio e de aposta num coletivo que no nasce pronto, mas vai-se
construindo  medida que as questes polmicas so visualizadas como
parte do imenso fazer humano. O embate foi, muitas vezes, dificultado
por uma linguagem peculiar a um campo do conhecimento ou, simplesmente,
por questes externas; ainda assim, o grupo no fez disto uma guerra.
Ampliou, conseqentemente, as trocas e cresceu em envolvimento emotivo,
alm de fortalecer o senso de unio por pertencer a um grupo. Em nossos
encontros de trabalho e de sociabilidade, na prtica, quebraram-se
algumas partes do muro engendrado na segmentao do conhecimento imposto
pela constituio de departamentos na vida acadmica.         Por meio
desta experincia reafirma-se a tese do trabalho criativo desenvolvido
de forma coletiva, a constituio de ncleos interdisciplinares,
possivelmente a condio necessria de sobrevivncia da universidade
pblica e gratuita brasileira.         Abre a coletnea um texto indito
de Kari Polanyi Levitt, com questes sobre a crise da economia atual,
retomando alguns dos ensinamentos de seu pai, o autor de A grande
transformao. Se este livro, traduzido h algum tempo no Brasil, 
leitura obrigatria para todo aquele que quer estudar as transformaes
do mundo do trabalho, o texto apresentado por sua filha atualiza o
debate e sugere interessantes lies para compreender a iminente
recesso global. As conseqncias das polticas que aoitam os pases
asiticos mal comeam a desdobrar-se. O "fogo" que se alastra, e agora
alcana tambm o Brasil, tem razes em uma crise no resolvida bem mais
ampla, que remonta ao incio do sculo e que teve sua soluo adiada
muitas vezes. A autora prossegue em suas provocativas reflexes: teriam
os EUA permitido que os Tigres Asiticos cassem no pntano de
desemprego, recesso e misria se a ameaa comunista ainda persistisse
na atualidade?         Alm das questes de Levitt, outros temas compem
a coletnea: a construo histrica e contraditria da manifestao da
materialidade (I. Aued); a complexa polmica do trabalho rarefeito e a
singularidade das profisses ameaadas (B. 17 Aued); o toyotismo, esta
"cruz salvadora" da crise de produtividade de muitas empresas
capitalistas (Ribas); as idias sobre a formao profissional (Moraes);
a requalificao profissional num contexto de grande complexidade
(Fiod); o trabalho bancrio marcado pela tecnologia informacional
(Jinkings). Os autores proporcionam ao leitor enfoques mltiplos de
grande importncia para a ampliao do problema do trabalho na
atualidade, que se conecta  tecnologia, e poucas categorias despertam
dose to elevada de fetichismo quanto esta. Da mesma maneira que
aconteceu no passado, quando quase todos os males eram atribudos ao
poder dos espritos, hoje a tecnologia desencadeia manifestaes de
xtase, de endeusamento e de freio  crtica. O "lugar dos motores da
histria  ocupado pela histria dos motores". H pelo menos 150 anos,
Marx lembra que uma sociedade pode ser medida pela reduo da quantidade
de trabalho necessria  sobrevivncia. A emancipao do ser social
iniciar-se- no momento em que desaparecer o trabalho necessrio e,
ento, poder-se- viver uma outra condio social. A as profisses
tornar-se-o passatempo e, finalmente, as pessoas podero ocupar parte
de seu tempo com a arte, com a pescaria e, ainda, com a pesquisa
cientfica. Se este reino da liberdade est muito distante, podemos,
alimentando a chama da critica, dar continuidade  luta de tantos
"sonhadores" e, quem sabe, trabalhar menos para trabalharem todos, como
pretendem os trabalhadores europeus. Bernardete Wrublevski Aued 18 De
volta ao futuro: Karl Polanyi sobre a Crise Econmica Mundial dos Anos
30: lies para a Iminente Recesso Global Kari Polanyi Levitt Traduo
de Amlcar D'Avila de Mello         Nos ltimos anos, a Grande
transformao de Karl Polanyi tem sido citada cada vez mais. Escrito h
cinqenta anos, o livro provocou um impacto mnimo quando foi publicado
nos Estados Unidos pela primeira vez, em 1944, e nenhuma repercusso na
Inglaterra, onde apareceu um ano depois, sob o ttulo A origem de nossa
era. Embora muitas pessoas que leram a Grande transformao digam que a
leitura deixou uma impresso duradoura, e que o livro tenha se
transformado num clssico de mendr envergadura, reimpresso e traduzido
para vrias lnguas, e classificado entre os maiores livros do sculo
XX,' foi somente h pouco tempo que Karl Polanyi surgiu como um
importante pensador cuja obra  citada cada vez mais freqentemente nas
bibliografias de poltica econmica internacional, sociologia econmica,
estudos sobre desenvolvimento, ecologia e at por alguns economistas.
No  difcil encontrar a explicao: a Grande transformao  uma
poderosa crtica  "utopia" liberal da universalizao do princpio de
mercado, popularmente conhecida como "globalizao". "Nossa tese",
escreveu Polanyi, " que a idia de um mercado auto-ajustvel implica
uma dura utopia. Tal instituio no poderia existir por muito tempo sem
aniquilar a substncia humana e material da sociedade; teria destrudo o
homem fisicamente e transformado o seu entorno em selvageria" (p. 3).
Cinqenta anos atrs, o linguajar pode ter parecido excessivo. Hoje,
esta passagem  citada rotineiramente e apareceu, mais recentemente, em
um artigo sobre a Crise Asitica, na edio do Le Monde Diplomatique de
julho de 1998.         A referncia  apropriada porque o livro, cujo
subttulo  "As origens polticoeconmicas da nossa era", tratava das
razes da "grande transformao" que se seguiu ao colapso da ordem
econmica internacional no crash de 1929-33. Neste trabalho,
examinaremos o relato jornalstico que Polanyi fez dos desdobramentos da
crise econmica mundial entre 1932 e 1933 e tentaremos extrair algumas
reflexes ---  1. Time, 17 mar. 1977. 19 sobre a iminncia de uma
recesso global que vem no rastro da Crise Asitica de 1997/8. Sugerimos
que a sua condio de editor-snior de um semanrio econmico-financeiro
de ponta em Viena, responsvel por questes internacionais, tenha
situado Polanyi no olho do furaco poltico e econmico da Europa
Continental do ps-1920 2. Desse posto de observao, ele acompanhou as
tentativas, por parte das potncias ocidentais, de restaurar a ordem
econmica pr-1914 e o seu colapso em 1931, quando uma crise financeira
que comeou com a queda de um grande banco em Viena espalhou-se ao
Ocidente, para a Inglaterra e os Estados Unidos.         Na dcada de
1920, grandes crditos norte-americanos (de curto prazo) possibilitaram
 Alemanha e aos Estados sucessrios europeus pagar o servio
(insustentvel) das dvidas de guerra. Aps a libra ter voltado a ser
lastreada com ouro (gold convertibility) na paridade (supervalorizada)
do perodo pr-guerra, ela foi efetivamente supervalorizada pelos
crditos norte-americanos. Em 1931, o "fio de ouro" que amarrava os
pases deficitrios rebentou. Segundo Polanyi, foi nesse momento que o
longo sculo XIX acabou.         No segundo captulo da Grande
transformao: "Os conservadores anos 20, os revolucionrios anos 30",
Polanyi resumiu a transformao revolucionria do incio dos anos 30:
"Seus marcos foram o abandono do padro-ouro pela GrBretanha; os Planos
Qinqenais na Rssia; o lanamento do New Deal; a Revoluo
Nacional-Socialista na Alemanha, e o colapso da Liga das Naes, em
favor dos imprios autrquicos. Embora no final da Grande Guerra os
ideais do sculo XIX fossem extremamente importantes e a sua influncia
tenha dominado a dcada seguinte, por volta de 1940, todo e qualquer
vestgio do sistema internacional tinha desaparecido e, salvo alguns
enclaves, as naes viviam em um ambiente totalmente novo" (p. 23).
A experincia dos anos 30 foi cataclsmica. Comparem, por exemplo, as
opinies de Keynes sobre o mundo pr-Primeira Guerra Mundial e as suas
ltimas opinies sobre o mundo ps-Segunda Guerra. Em seu Conseqncias
econmicas da paz (1919), Keynes descreve a vida idlica da Inglaterra
pr-Primeira Guerra Mundial, em que "a internacionalizao era quase
completa na prtica", o "paraso" onde "os londrinos podiam, bebendo seu
ch matinal na cama, pedir pelo telefone produtos do mundo inteiro... da
mesma forma arriscar suas riquezas nos recursos naturais e novos
empreendimentos em qualquer parte do mundo, e compartilhar, sem esforo
ou incmodo, seus possveis frutos. Por volta de 1944, ele concluiu que
"a experincia do perodo entre-guerras claramente demonstrou o dano e a
maldade dos movimentos de capital". "Tem-se afirmado amplamente",
escreveu, "que o controle ---   2. De 1924 a 1933 Karl Polanyi trabalhou
como editor-snior do Der Oesterreichische Volkwrirt, especializado em
questes internacionais. Ver Karl Polanyi in Vienna, de McRobbie e
Polanyi-Levitt, Black Rose, no prelo. 20 de movimentao de capital
entrando e saindo deve ser uma caracterstica permanente do liberalismo
econmico do sculo XIX como o estrutural do FMI/Banco Mundial no final
da dcada de 80. Os pases eram julgados pelos seus xitos na
implementao de reformas voltadas ao mercado, pouco importando as suas
conseqncias. O paciente era considerado em melhor estado, contanto que
o remdio fosse administrado conforme a receita. Os meios tornaram-se os
fins. A economia tornou-se ideologia. A acelerada liberalizao do fluxo
de capital atravs das fronteiras era exigida dos pases em
desenvolvimento como uma forma de atrair capitais e manter o crescimento
econmico. Nos anos 90, o Mxico e a Coria do Sul foram recompensados
pela liberalizao financeira, sendo includos na Organizao para a
Cooperao e o Desenvolvimento Econmico (OECD), o clube dos ricos e
bem-sucedidos. O preo da jia, porm, resultou ser muito alto para
esses pases.         Os portadores de bens financeiros tm sido
favorecidos, em detrimento dos devedores e tomadores de emprstimos,
atravs de polticas monetrias restritivas e de altas taxas de juro
real. Aqueles que fazem as polticas, de olho nas cotaes do mercado de
ttulos, e no perigo imposto  moeda pelos especuladores, so
tendenciosos com relao  deflao. Srias polticas antiinflacionrias
protegem o valor de converso dos ttulos em capital, fazendo padecer os
setores produtivos. As finanas agem agora como um mecanismo de
transferncia do poder de compra dos assalariados e contribuintes aos
detentores desses ttulos. O crescimento da economia real  lento, as
taxas de desemprego so elevadas e os lucros das empresas tm diminudo.
A crise na sia ameaa inundar os mercados da Amrica do Norte e da
Europa com produtos manufaturados cada vez mais baratos, fazendo abaixar
ainda mais os preos e os salrios. O modelo do "mercado-amigvel" dos
ganhadores e perdedores no apenas  desigual na distribuio dos ganhos
do crescimento - ele tambm  econmica, poltica, social e
ecologicamente instvel e, em ltima anlise, insustentvel. A
globalizao da crise financeira         Um grande furaco financeiro do
porte daquele dos anos 30 est se formando, ganhando velocidade e fora
com a massa hipertrfica das finanas de curto prazo que circulam pelo
mundo em busca de lucros e proteo contra o risco, saltando de um pas
a outro. A grande onda de fluxos de capital de curto prazo, encorajada
pela liberalizao financeira e apoiada pelo Grupo dos Sete, Fundo
Monetrio Internacional e Banco Mundial, levou o mundo  beira de uma
crise econmica global. Os conselhos polticos apontam em sentidos
diametralmente opostos: o FMI - e o Tesouro Americano, que agora dita as
polticas do Fundo - est pressionando a acelerao da liberalizao
financeira e a sua incluso em cdigos, sob a forma de novos Artigos de
Acordo sobre liberalizao de contas de capital. Os mais prudentes
recomendam medidas para conter a movimentao de capitais em escala
mundial, sejam elas atravs de uma variao da taxa Tobin ou pelo acordo
internacional para legitimar 22 os controles nacionais de capital. Este
 apenas o comeo de um grande repensar das doutrinas e polticas que
tm, at recentemente, gozado do monoplio virtual dos crculos
nacionais e internacionais de governo.         O acmulo de poupana
financeira em bancos comerciais e nos fundos mtuos de penso desde a
metade da dcada de 90, buscando grandes retornos e ganhos de capital,
constituiu a oferta dessa grande onda de capital que entrou nas
economias do Leste Asitico, em rpido crescimento. Sob a presso das
potncias ocidentais, a liberalizao financeira domstica abriu essas
economias aos grandes fluxos de crdito, a maioria deles de curto prazo.
Os tomadores de emprstimo eram os bancos privados e outras empresas - e
no os governos. Altas taxas de crescimento, baixa inflao e pequenos
dficits do setor pblico atraram os grandes fluxos de capital, muito
alm das necessidades dessas economias, com altas taxas de juros de
poupana. Em 1996, as entradas de capital aos cinco pases problemticos
da sia (Coria do Sul, Indonsia, Malsia, Tailndia e Filipinas)
somaram quase US$ 100 bilhes - uma tera parte do capital mundial que
ingressou nos pases emergentes; esse aumento foi cinco vezes superior
ao da mdia de 1990-93. Ele reverteu, em 1997, a uma sada recorde de
US$ 12 bilhes. Essa virada foi equivalente a mais de 10 por cento dos
PIBs desses pases somados. Em 1997, o Bank of International Settlement
emitiu um alerta aos bancos comerciais que estavam estendendo-se demais
aos mercados emergentes (sobretudo asiticos) de alto risco. O aviso foi
ignorado.         Mal tinha secado a tinta do relatrio do FMI elogiando
o desempenho do alto crescimento da Tailndia, quando a especulao
imobiliria inflacionada e as falncias de bancos fizeram com que essa
instituio viesse s pressas para a regio com um pacote de socorro e
um conjunto poltico de medidas restritivas que propagandearam - e
agravaram - uma crise na balana de pagamentos em um pequeno pas. Esta
crise deveria ter sido tratada discretamente, atravs de negociaes
entre credores e devedores privados. Como Jeffrey Sachs coloca: "Ao
invs de apagar o fogo, eles gritaram "fogo no teatro!" e todos
correram". O contgio espalhouse aos pases vizinhos como fogo na moita.
O fechamento de bancos e as altas taxas de juros quebraram empresas
viveis, ao invs de restaurar a confiana nas moedas, que continuaram a
perder valor. No vero de 1998, a Crise Asitica tinha devastado
economias que haviam mantido altas taxas de crescimento econmico
durante dcadas. Os fatores domsticos que explicavam o seu sucesso
anterior - inclusive a relao de trabalho prxima entre as empresas e o
governo - agora recebiam a culpa pela crise.         A reviso das metas
macroeconmicas da primeira rodada de programas do FMI para a Tailndia,
Indonsia e Coria demonstra que a crise econmica nesses pases tem
sido bem mais grave do que se esperava. Estima-se que a Tailndia sofra
agora uma retrao de produo entre 5 e 11 por cento em 1998; a Coria
do Sul, - que cresceu 5,8 por cento em 1997, dever experimentar uma
taxa de crescimento 23 negativo de 5 a 7,5 por cento. O pas est nas
garras de uma severa recesso: no primeiro trimestre de 1998, o consumo
caiu 10 por cento; os investimentos, 40 por cento. O desemprego atingiu
8 por cento, e espera-se que aumente,  medida que a reestruturao
empresarial leve a mais falncias e demisses em massa: esse  um pas
que h trs dcadas no sabia o que era o desemprego. A perspectiva para
1999  sombria. A Indonsia, o quarto pas mais populoso do mundo,
continua escorregando para dentro do abismo do caos e da pobreza: 30
milhes de pessoas a mais do que antes da crise esto agora vivendo com
menos de um dlar por dia; 120 milhes da populao total de 200 milhes
vivem agora com menos de dois dlares por dia. A moeda perdeu 80 por
cento ou mais de seu valor. A economia continua em grave crise; as
estimativas para 1998 apontam uma queda do PIB de 10 para 25 por cento.
Estima-se que a Malsia, que no solicitou ajuda ao FMI, ter a sua taxa
de crescimento diminuda a 3,8 por cento, comparada ao crescimento de
7,8 por cento de 1997. At mesmo a economia de Hong-Kong sofreu uma
queda de 2 por cento no primeiro trimestre de 1998, o primeiro
crescimento negativo em 13 anos. Somente as Filipinas no sofreram
contraes, ao passo que a economia de Taiwan continua a todo vapor,
como antes. A queda das economias de alto crescimento do Leste Asitico
afetaram o Japo, onde uma montanha de emprstimos bancrios no
vinculados a resultados (non performing) e vrios anos de estagnao
econmica fizeram despencar o iene. H receio de que a pior recesso dos
ltimos cinqenta anos na segunda maior economia do mundo possa
desencadear uma recesso mundial em grande escala. O poupador japons,
desconfiado dos bancos e de seus escndalos escancarados, est guardando
seu dinheiro em casa, ou investindo em locais mais seguros, nos Estados
Unidos. Uma maior deteriorao regional est sendo contida pela China,
que resiste s presses de uma desvalorizao do iuane - que
desencadearia mais uma rodada de desvalorizaes debilitadoras de
conseqncias funestas para o crescimento e o emprego no mundo inteiro.
As empresas asiticas j esto inundando o mercado com os chips de
computador a "preos suicidas". Os portos norte-americanos esto
asfixiados de contineres cheios de produtos manufaturados asiticos
baratos que voltam vazios! A competio asitica ameaa provocar uma
perda comercial de US$ 6 bilhes nos mercados mexicano e
norte-americano.         As conseqncias polticas do furaco econmico
que aoitou a sia mal comearam a se desdobrar. Gigantescas passeatas
derrubaram os dirigentes da Tailndia, Coria e Indonsia, e o
primeiro-ministro japons foi afastado pela fora dos votos. A mudana
na retrica popular  para o povo. Acredita-se amplamente que o remdio
financeiro ortodoxo ocidental tenha piorado a crise - uma viso
compartilhada por muitos economistas ocidentais. Uma viso mais extrema
 aquela que afirma que as economias asiticas foram deliberadamente
destrudas e empurradas de volta ao colonialismo pelos capitalistas e
pelos governos ocidentais. Os desafios  globalizao econmica esto
aumentando. Embora as exportaes tenham crescido, 24 a competio pelos
mercados nos Estados Unidos e na Europa fez despencar os preos e rapou
as margens de lucro. Est cada vez mais difcil ver como essas economias
podem exportar a si mesmas para fora da recesso. O desemprego cresce
no apenas nas economias dos antigos "Tigres", como tambm na China.
Constatase uma crescente onda de sentimento antiocidental que ameaa os
acordos comerciais liberalizantes e cria uma "barreira mental".
Enquanto isso, em Washington, o Fundo Monetrio Internacional est
ficando sem dinheiro. Os 35 bilhes de dlares prometidos  Tailndia
(4), Coria (21) e Indonsia (10), exauriram os recursos do FMI a tal
ponto que pem em risco a sua capacidade de estender emprstimos
importantes  prxima vtima da crise financeira mundial. Embora os
manda-chuvas do Fundo Monetrio Internacional faam declaraes
confortantes de que a ameaa de moratria por parte da Rssia no foral
de maio de 1998 no seja motivo de pnico, essa  a nica palavra para
descrever o medo que agora reina nos corredores do poder em Washington.
O medo das conseqncias polticas do fracasso de Yeltsin em proteger o
rublo contra a desintegrao fez com que os republicanos se unissem aos
democratas no levantamento das barreiras que o Senado impunha ao
reabastecimento dos recursos do FMI, solicitado h meses. A insatisfao
popular em um grande pas com um imenso arsenal nuclear era
suficientemente ameaadora como para pr de lado a poltica interna
norte-americana e as crticas bem fundadas do FMI - durante uma ou duas
semanas! At o momento de assinarem a liberao de US$ 4,8bilhes em
crditos para a Rssia, ainda no havia sido interrompida a fuga de
capital.         A instabilidade financeira, econmica e poltica na
Rssia no  o nico fogo que arde na moita. Em julho de 1998, era
revelado que o Paquisto estava prestes a declarar moratria. O FMI foi
impedido de liberar fundos por um embargo norteamericano ao auxlio a
pases que realizam exploses nucleares. Mais uma vez bateu o pnico. Em
poucos dias, a poltica norte-americana voltou atrs e enviou uma
mensagem ao FMI dizendo que se deveria levantar o embargo contra o
Paquisto 4 A ndia, contudo, menos dependente de capital estrangeiro e,
conseqentemente, menos endividada, no ficou isenta desse embargo. Uma
crise financeira ardente na frica do Sul - um pas h tempos na lista
de observao do FMI -  manchete dos jornais. Ainda em julho de 1998, o
rand tinha perdido 25 por cento de seu valor desde  ---   4. Com o
servio da dvida de US$ 800 milhes vencendo dia 31 de julho de 1998, e
somente US$ 500 milhes de reserva, os EUA bloquearam a liberao de US$
200 milhes do FMI devidos ao Paquisto, conforme um acordo do FMI
existente. Seguindo um apelo pessoal do primeiro-ministro ao presidente
Clinton, e pelas notcias dos funcionrios oficiais dos EUA de que o
Paquisto est  beira do "caos econmico" e pode ser forado a
considerar uma moratria parcial de sua dvida de US$ 30 bilhes, os EUA
voltaram atrs: "O envolvimento do FMI  o mnimo necessrio para
impedir o colapso da confiana na economia paquistanesa" (Robin, UPI, 21
jul.). A suspenso do embargo norte-americano no se aplica, contudo,
aos emprstimos do Banco Mundial ou do Banco de Desenvolvimento da sia.
25 que a moeda sul-africana fora atacada pela primeira vez no final de
maio; existe o perigo de outros ataques especulativos,  medida que
aumenta a evaso de capital do Pas. Uma grande crise na frica do Sul
poderia levar de roldo toda a frica Meridional  recesso. No Ir,
onde as manifestaes estudantis apiam o presidente que est preso no
conflito com as foras religiosas ultraconservadoras, a estabilidade
econmica e financeira  agora ameaada pela queda dos preos do
petrleo. At mesmo as moedas mais fortes de pases como a Austrlia e o
Canad sentem o impacto da crise asitica, enquanto o capital busca
refgios mais seguros nos Estados Unidos; as exportaes de commodities
para a sia diminuem e os tubares cambiais esto ativos em guas
revoltas. Na Austrlia, os especuladores internacionais tm reduzido o
valor da moeda ao seu nvel mais baixo dos ltimos 12 anos, apesar das
grandes intervenes do Banco Central. O perigo de futuros ataques 
moeda persiste. Acredita-se que a grande meta dos especuladores
financeiros seja o iuane chins. Um governador interino do Reserve Bank
da Austrlia atribuiu a crise asitica  entrada de capital de curto
prazo demasiadamente volumosa e voltil. Ele criticou as polticas do
FMI que impem altas taxas de juros e indiretamente sugere que, na
ausncia de regulamentao sobre fluxo internacional de capital, as
frgeis economias emergentes devem proteger-se contra o vrus dos
emprstimos a curto prazo, especialmente dos bancos e para os bancos.
Uma forte reao eleitoral por parte das vtimas de uma dcada de
liberalizao radical est virando as polticas para reconstruir setores
industriais produtivos, sacrificados com as importaes baratas, e
considerando aes para diminuir o ritmo da liberalizao comercial.
Em seu relatrio anual publicado em junho de 1998, o Bank of
International Settlements alertou que a crescente institucionalizao
dos mercados financeiros poderia prejudicar a estabilidade financeira.
Os investidores institucionais da Amrica do Norte, Europa e do Japo -
companhias de investimentos, de seguro, fundos de penso e gestores
financeiros - detm aproximadamente US$ 21 trilhes: mais do que os PIBs
somados dos 18 pases envolvidos.' O desvio de um por cento dos capitais
prprios (equity) dos investidores institucionais dos sete maiores
pases industrializados do mundo corresponderia a uma fatia de 27 por
cento do mercado" de  ---   5. Um economista na Standard Chartered em
Londres comentou: "No creio que ns vamos ver algo no nvel da
Indonsia, mas boas comparaes podem ser feitas com moedas tais como o
Thai baht e o ringgit da Malsia, que foi depreciado entre 30 e 40 por
cento" (Reuters, 3 jul. 1998).   6. Stephen Grenville: "The Asia Crisis,
Capital Flow and the International Financial Architecture" (Melbourne,
21 mai. 1998).   7. O total de recursos de fundos de proteo
(hedge,funds) disponveis no mundo inteiro  de apenas [sic] aprox. US$
300 bilhes - dez vezes superior s reservas de pases como Austrlia,
Gr-Bretanha ou Canad - mas longe dos US$ 21.000 bilhes dos fundos
institucionais estimados. 26 total das capitalizaes nas economias
asiticas emergentes, e 66 por cento dos mercados de equity
latino-americanos. Um ajuste marginal de portfolio por parte dos
investidores pode ser um grande evento para quem o recebe. Os
investidores institucionais foram culpados pela crise asitica, mas o
BIS considerou que a crescente importncia dos investidores
profissionais e seus mtodos de fazer negcios se presta a um
comportamento do tipo rebanho e representa um dano em potencial. Os
bancos comerciais que eram, de longe, os que mais emprestavam fundos de
curto prazo aos mercados emergentes da sia, e continuaram a se expor
cada vez mais at o outono de 1997, parecem ter sido os principais
responsveisQ pelo "mau casamento", fatal para os tomadores de
emprstimo quando a crise se abateu.         Onde atingir a prxima
crise? No sabemos, mas podemos supor, com relativa certeza, que
existiro crises mais graves, at que um grande pas em desenvolvimento
ou em transio seja empurrado  beira da moratria - que poderia
desencadear uma cascata de outras inadimplncias. Foi declarando uma
moratria unilateral sobre o repagamento da dvida que os pases
latino-americanos e outros pases devedores evitaram o colapso econmico
na dcada de 30. A crise financeira mundial que descrevemos sugere que a
grande iminncia de reivindicaes financeiras inflacionadas ir entrar
em colapso, ou ser reduzida mediante uma combinao de iseno da
dvida, ajustes no mercado acionrio e redues negociadas de valores
nominais de capital.         H muitos anos, o eleitorado da Europa
Ocidental tem endossado - ou pelo menos tolerado - as polticas fiscais
restritivas de seus governos. Mas as conseqncias sociais das polticas
voltadas  competio externa s custas do padro de vida domstica est
levantando tempestades polticas. As recentes eleies de governos
social-democratas em quase todos os pases da Europa Ocidental - ainda
que as suas polticas no sejam muito diferentes das dos governos que
eles substituram no deixam de ser significativas.9 A democracia vem
para administrar uma reviso de polticas que privilegiam a ganncia, ao
invs da igualdade e segurana. A hegemonia ideolgica do neoliberalismo
est perdendo fora. Na linguagem de Polanyi, a sociedade est se
mobilizando para se proteger do aoite das foras de mercado. A
"democracia" est revidando na "economia". ---   8. O maior conjunto de
bancos credores da sia eram europeus e japoneses. Somente 19 por cento
deles eram norteamericanos.  9. Nem so relatadas tentativas de
negociao entre Clinton e Blair para a criao de uma formao poltica
internacional centrista que constitua a "terceira forma"  direita da
internacional socialista e  esquerda da Unio Democrtica
Internacional. O presidente brasileiro F.H. Cardoso e o
primeiro-ministro italiano Prodi tambm foram consultados (Washington
Post Sewice, 29 jun. 1998). 27 Economia e democracia Em um artigo
escrito em 1932 para o Volkswin sobre "Economia e democracia", Polanyi
descreveu o impasse na poltica da Europa Continental do perodo
entre-guerras: a direita e a esquerda esto brigando em nome da economia
e da democracia. A esquerda baseia-se na democracia; a direita, na
economia. A desunio resultante entre economia e democracia est se
estendendo s tenses de uma catastrfica polarizao. O mundo da
democracia poltica faz surgir foras que intervm na economia,
perturbando e limitando o processo econmico. Em resposta, a economia
prepara um ataque geral  democracia, como se esta fosse a
personificao da hostilidade irresponsvel e irreal contra o mundo dos
negcios.         O relato de Polanyi sobre a "acusao da economia
contra a democracia (e freqentemente contra os polticos) inclui a
responsabilidade pela inflao, subsdios, protecionismo,
sindicalizao, malversao financeira, apoio dispendioso e insensato s
empresas individuais, assistncia pblica e reabilitao de setores
industriais especficos, salrios excessivamente elevados e gastos com
questes sociais". Isto se assemelha a uma lista de erros de polticas
macroeconmicas e "distores de preos" atribudas pelo FMI aos
governos "populistas" que carecem de "vontade poltica" para implementar
reformas estruturais. Que mudana! Nos pases vitoriosos, observou
Polanyi, os governos esquerdistas foram derrotados na questo monetria.
Nos pases derrotados, a democracia  que foi derrotada sob as presses
conjuntas do trauma de guerra, uma crise econmica "cuja gravidade
ultrapassou tudo aquilo que j tinha sido vivenciado" e as crises
governamentais e constitucionais aparentemente no-relacionadas, alm da
degenerao das polticas partidrias, as quais diminuram a autoridade
da democracia. Tudo isso, bem como a "implacvel queda dos preos,
produo e consumo, e a crescente misria do desemprego em massa estavam
s portas da democracia [...] A poltica, os partidos polticos e os
parlamentos perderam a credibilidade. A democracia caiu em descrdito.
Amplas camadas populares, tanto da direita quanto da esquerda,
viraram-se contra a democracia". "Em muitos pases onde o
parlamentarismo e a democracia eram relativamente recentes, como na
Alemanha, Itlia, Polnia e na maior parte da Europa Oriental, os
interesses econmicos abandonaram a democracia e os direitos civis. No
perodo ps-guerra, as classes trabalhadoras manifestaram uma maior
resistncia intelectual e moral s ditaduras que a burguesia".
Temos aqui uma das primeiras constataes do "duplo movimento" - que no
deve ser interpretado como um mecanismo "autocorrigvel", atravs do
qual as polticas democrticas necessariamente moderam os excessos do
livre capital, mas, de 28 forma mais sbria, a constante luta de classes
entre o capital e as foras populares -, cujo resultado em qualquer
ponto do tempo  indefinido. Uma cuidadosa leitura da continuao da
passagem da Grande transformao citada no incio deste trabalho sugere
que, em ltima anlise, a democracia e o sistema de mercado so
incompatveis: inevitavelmente, a sociedade tomou medidas para se
proteger, mas, sejam quais forem as medidas que tomou, elas prejudicaram
a auto-regulao do mercado, desorganizando a vida industrial e, dessa
forma, pondo em perigo a sociedade de forma diferente. Foi esse dilema
que forou o desenvolvimento do sistema de mercado a entrar em um sulco
definido e finalmente rompeu com a organizao social baseada nele (p.
3).         Este, obviamente, foi o ponto da histria sobre Speenhamland
na Grande transformao: os nobres terratenentes (Red Tones), que
queriam comprar a paz social mediante o alvio externo dos pobres,
puseram areia nos trabalhos do incio do capitalismo industrial. Podemos
concluir que esta foi a viso de Polanyi, de que o sistema de mercado (a
"economia") est necessariamente em permanente conflito com as foras
populares (a "democracia") e, na sua forma mais pura, no pode tolerar a
interveno democrtica. Na sua forma mais pura,  fascismo. 10 Os
mecanismos da crise econmica mundial         A absorvente retrica que
permeia A grande transformao originou-se da experincia
centro-europia de Polanyi. A Primeira Guerra Mundial foi um terremoto
histrico que inutilizou a Alemanha Imperial e espedaou trs imprios
multinacionais cambaleantes, transformando-os em diversos Estados
sucessrios fracos: o Imprio Austro-Hngaro, a Rssia Czarista e o
resto do Imprio Otomano implodiram sob a presso inflacionria, da
revoluo e dos nacionalismos revolucionrios. A Europa Central e
Oriental foram bem mais afetadas pela Primeira Guerra Mundial do que as
potncias ocidentais vitoriosas, Inglaterra e Frana, onde o brilho da
"belle poque" pr-1914 desbotou, mas a vida burguesa continuava como
antes conforme descrito por Keynes na passagem j citada. Os abastados
da classe ociosa inglesa que viviam de rendas* continuaram a investir no
exterior, como se nada tivesse acontecido. Em 1925, os juros financeiros
devolveram a libra ao seu pedestal dourado nos valores do pr-guerra,
desafiando a diminuio produtiva da Inglaterra, --- 10. Esta questo 
desenvolvida na "The Essence of Fascism" de Polanyi. --- * N. do T.: A
expresso usada pela autora foi coupon clipping rentiers. Conforme
definio do dicionrio Rcmdom House, a expresso coupon clipper
refere-se a "pessoa abastada cuja maior renda provm do ato de destacar
e trocar por dinheiro vivo os coupon bonds" (um ttulo, tipo debnture,
que paga juros ao seu portador segundo um valor estipulado). Render 
palavra francesa para designar uma pessoa que tem renda fixa, advinda de
terras ou papis financeiros. 29 o primeiro pas exportador do mundo, e
o nus insustentvel de reparaes de guerra imposto s potncias
centrais derrotadas.         Na Europa Central e Oriental, o mundo tinha
acabado. Viena, a ex-capital de um imprio de mais de 50 milhes de
pessoas, com uma populao de dois milhes, tornou-se a capital da
Repblica da ustria, com uma populao de seis milhes muito pequena e
pobre para ser considerada um Estado vivel. Milhares de ex-soldados de
todo o antigo imprio acudiram a Viena para exigir o seu soldo de
desmobilizao. O primeiro governo da Repblica foi formado pelo partido
social-democrata; o primeiro-ministro de finanas foi Schumpeter (que
logo partiu para a Alemanha); o caos e a inflao reinavam. As
provncias eram rurais, catlicas e conservadoras; Viena era cosmopolita
e socialista. As reformas de ensino e os projetos habitacionais-modelo
da administrao socialista da Viena "Vermelha" dos anos 20 causaram uma
profunda impresso em Polanyi - um triunfo das foras sociais e
polticas sobre as circunstncias econmicas desfavorveis.         Para
enfatizar a nossa insistncia sobre a importncia da localizao de
Polanyi, um importante artigo, Os mecanismos da crise econmica mundial,
escrito em 1933, comea com as palavras: "De uma perspectiva
centro-europia..." A tese de Polanyi era que todo o perodo ps-guerra,
inclusive oito anos de prosperidade milagrosa nos Estados Unidos, o
crescimento econmico sustentado em diversos pases e as aventuras
multifacetadas das polticas tcnicas, econmicas, monetrias e
comerciais desta poca histrica sombria, at o crash de 1929 e a
depresso mundial de 1933,  uma nica crise econmica que se manifesta
sob diversas formas  medida que ela percorre e transforma o mundo. A
crise econmica dos primeiros anos do ps-guerra no foram resolvidas -
somente adiadas. O equilbrio' em um ponto era obtido deslocando o nus
do ajuste, deliberadamente ou no, a outros setores ou regies
econmicas. Quando chegou o inexorvel dia do clculo, ele no somente
reacendeu os antigos fogos como tambm fez com que toda a crise ganhasse
propores que faziam todas as outras experincias parecerem plidas
comparadas a ela.         Polanyi situou as origens da crise no contexto
histrico especfico da Primeira Guerra Mundial. Os custos econmicos da
Guerra foram enormes. A nica razo pela qual ela pde durar quatro anos
foram os gigantescos custos sociais impostos s sociedades pelas
presses coercitivas das avassaladoras foras poltico-sociais. As
propores da destruio humana e social foram tais que o tecido social
no pde agentar as foras do ajuste para atingir o equilbrio
ps-guerra. A julgar pelas taxas de crescimento do pr-guerra, a
produo industrial deveria ter quase dobrado nos vinte anos seguintes,
a partir da ecloso da guerra. Ao invs disso, ela aumentou somente 60
por cento, e em 1933 caiu para nveis inferiores aos de 1914. 30
O choque poltico-social da guerra implicava que a restaurao de um
novo equilbrio econmico levaria muitos anos. Mas a estrutura social
no poderia ser mantida a menos que as lideranas polticas atendessem
s expectativas - e evitassem os desapontamentos - dos trs maiores
reivindicadores: os portadores de ttulos (rentiers), que haviam
financiado a guerra, sem a confiana dos quais (nas moedas e nos
crditos) as economias capitalistas no poderiam ser reconstrudas; os
operrios, que tinham carregado o nus moral e poltico da guerra e a
quem havia sido prometida uma recompensa de mais direitos e mais po; e
o campesinato, que parecia ser o nico baluarte contra a ameaa
bolchevista.         Nos pases vitoriosos, os interesses dos portadores
de ttulos tinham prioridade. Os seus sacrifcios financeiros tinham
vencido a guerra; a sua f na estabilidade monetria e creditcia era a
base da reconstruo da sociedade do ps-guerra. A democratizao da
vida pblica na Inglaterra aumentou o nmero de eleitores aptos de 8
milhes do pr-guerra para 28 milhes. Quando a guerra acabou, no havia
excusas para a quebra da promessa de entregar "lares dignos de heris".
Ningum na Gr-Bretanha acreditava na necessidade de restringir o padro
de vida depois da guerra. Quando as realidades da capacidade econmica
diminuda da Inglaterra comearam a surgir, o nus total do ajuste para
defender - e aumentar - o valor das rendas dos rentiers caiu sobre as
classes trabalhadoras.         Nos pases derrotados, as classes que
viviam de renda (rentiers) foram devastadas pela inflao; da mesma
forma, os trabalhadores no estavam a salvo dos "respingos" da crise,
mas tinham prioridade. Instalado na sede do governo poltico, o operrio
(e ex-soldado), que tinha carregado nas costas o maior nus da guerra,
exigia os direitos e o po que lhe haviam sido prometidos. A terceira
parte da trilogia era o campesinato, cujo "Weltanschauung" geral aliou-o
s foras do conservadorismo. Uma estrutura social vivel exigia a
proteo dos interesses dos rentiers atravs da defesa da moeda;
proteo das rendas dos trabalhadores mediante a estabilizao dos
salrios reais; e proteo da renda do setor agrcola, pela
estabilizao dos preos das commodities. Nas economias da Europa
Continental, empobrecidas pela guerra e descapitalizadas, era impossvel
atender a todas essas reivindicaes. Mas quando a viabilidade da
sociedade entra em conflito com aquilo que  economicamente exeqvel,
as possibilidades econmicas so ampliadas, de uma forma ou de outra. As
intervenes foram o meio atravs do qual estas puderam ser ampliadas,
inclusive os emprstimos estrangeiros politicamente negociados. Embora
um colapso fosse inevitvel, ele poderia ser - e foi - retardado pelas
intervenes feitas  base de sacrifcios."  ---   11. Ao observar que
as reparaes e as dvidas de guerra contriburam para as presses
econmicas, Polanyi foi explcito em enfatizar principalmente as
polticas que buscavam estabilizar as rendas domsticas dos rentiers,
operrios e camponeses. 31         A me de todas as intervenes foi a
prpria Guerra. Todas as intervenes do ps-guerra foram tentativas
caras de proteger a sociedade contra o choque da brutal destruio do
equilbrio socioeconmico. Elas no foram a causa (nfase original) da
crise. O efeito das intervenes - s vezes mal concebidas e mopes na
sua implementao - era protelar a soluo da crise. Mas elas geraram
novos desequilbrios que exacerbaram as conseqncias da principal
interveno original que foi a guerra. O excesso de exigncias das trs
maiores categorias dos que recebiam rendas poderia ser atendido a partir
de apenas trs fontes:         Primeiramente, atravs da redistribuio
domstica, em favor das classes privilegiadas. Quando os operrios e os
camponeses eram favorecidos, o nus pesava para a classe mdia e para o
capital industrial, pelos impostos sobre a propriedade e o imposto mais
injusto de todos: a liquidao das economias pela inflao. As rendas
reais dos produtores agrcolas eram mantidas atravs de tarifas
protetoras, s custas dos consumidores urbanos.         A segunda, pelo
consumo de capital: O capital domstico era devorado pela inflao e
pela sua venda aos estrangeiros.         Em terceiro lugar vinham o
emprstimo externo e o crescente endividamento que acontecia em grande
escala.         Os pases financiavam os seus dficits mediante uma
perptua tomada de emprstimos.  As economias nacionais mais fracas
buscavam o auxlio das mais         fortes. Anos de aparente
estabilidade, um lance de crescimento mais vigoroso,         uma
aparncia enganadora de equilbrio era pontuada por novas dificuldades
econmicas e financeiras, at que, de repente, na altura do boom
norte-americano, o elstico estourou. As economias deficitrias
interdependentes comearam a escorregar irreversivelmente e toda a
estrutura de estabilizao entrou em colapso.         O deslocamento
geogrfico e o conseqente adiamento da crise foram facilitados pelos
mecanismos creditcios de singular capacidade e flexibilidade. "Enquanto
a economia mundial foi destruda pela guerra, ressuscitou no ps-guerra
e escorregou ininterruptamente para o declnio no final de 1928, o
sistema de crdito no parou de se desenvolver desde as inovaes
financeiras introduzidas durante a         guerra". Uma surpreendente
mobilidade e magnitude do crdito internacional era         acompanhada
pela intermitente constrio e mau funcionamento da economia real.
A fonte deste sistema de crdito era a cooperao entre as potncias
vitoriosas na         mobilizao de crdito para financiar a guerra:
"Nunca na histria do capitalismo         moderno o crdito estivera to
politizado". Uma ntima relao desenvolveu-se entre os bancos
comerciais e as autoridades emissoras de moeda (bancos centrais) em
Londres, Nova York e Paris.         32 A fonte desse duto ultramoderno
de distribuio de crdito para toda a Europa, que trouxe ouro para
irrigar as secas plancies da Europa Central, era a infindvel riqueza
dos Estados Unidos da Amrica. Os imensos lucros que os EUA ganharam na
guerra estavam  cata de investimentos. A reconstruo da Europa surgia
como um excelente negcio - que tampouco poderia ressuscitar as
exportaes dos EUA. De riqueza inigualvel - e inexperientes -, os
investidores que agora entravam em cena solicitavam apenas que esse
mecanismo de crdito fosse alimentado pelos seus recursos.         Se
agora nos parece incrvel que o mundo estivesse to enganado sobre o
verdadeiro balano da guerra, a explicao est em parte nas
reivindicaes financeiras que eram consideradas "boas". A quantia total
das dvidas de guerra dos aliados era estimada em 25.000 milhes de
dlares (US$ 25 bilhes). Acreditava-se que as reivindicaes dos
devedores da Guerra Russa e do pr-guerra, num valor estimado em 35.000
milhes de francos de ouro, eram boas. Em 1925, depois de a Gr-Bretanha
e a Alemanha terem retornado ao padro-ouro, falou-se de uma reparao
de 16 milhes de marcos de ouro, como se fosse um acordo comercial
normal. "Todas essas reivindicaes tiveram seus valores nominais
depreciados por escrito. O notvel  que antes desse abaixamento os
proprietrios desses papis pensavam que estavam ricos". Os mecanismos
de crdito, dotados pelos contemporneos com virtuais poderes mticos,
eram os principais atores no adiamento de dez anos da crise. Polanyi
rastreou a trajetria geogrfica da crise: de Leste a Oeste. Os atores
eram os Estados derrotados,12 os Estados vitoriosos (Inglaterra, Frana,
Blgica e Itlia) e, em uma classe  parte, os supervitoriosos EUA.
1918-1924. O processo se inicia no Leste com a reconstruo dos Estados
derrotados - com o auxlio dos vencedores e dos EUA. 13 O ponto alto foi
a volta do padro-ouro na Alemanha, financiada pelos emprstimos do
Plano Dawes, quase a metade deles de procedncia norte-americana. A
reinstaurao do padro-ouro despojou as reservas secretas das finanas
inflacionrias dos Estados derrotados. Seus dficits estruturais eram
cada vez mais cobertos pelos emprstimos estrangeiros e o nus dessas
dvidas era assim transferido aos Estados vencedores, cujas moedas, na
poca, no eram nada seguras.  ---   12. Rssia, ustria, Hungria e
Bulgria e os Estados sucessrios "esculpidos" das regies orientais da
guerra, tais como a Romnia, Iugoslvia, Tchecoslovquia, Polnia e
Grcia. Por ltimo, mas no menos importante, a Alemanha.   13. As
moedas austraca (1930) e hngara (1924) foram estabilizadas com o
auxilio da Liga das Naes; ao mesmo tempo, Grcia, Bulgria, Finlndia
e Estnia sofreram ajustes estruturais ("saniert"). Romnia, Polnia,
Tchecoslovquia e Iugoslvia receberam crditos da Frana; at mesmo a
Rssia era candidata a receber auxlio financeiro. 33         1925-1928.
Alm dos dficits dos Estados derrotados, os Estados vencedores tinham
os seus prprios problemas. Desde a poca do restabelecimento do padro-
ouro, a defesa da moeda passou a ser prioridade mxima. Graas 
cooperao do banco central, a Inglaterra passou o nus de manter o
valor externo da libra aos EUA (atravs de crditos norte-americanos de
curto prazo). "Desse momento em diante, o propsito secreto da poltica
creditcia norte-americana no era mais  prestar auxlio  Europa, mas
apoio  Inglaterra". O ponto alto eram as negociaes, em maio de 1927,
entre Norman (diretor-geral do Banco da Inglaterra) e Strong (diretor-
geral do Federal Reserve). Em agosto daquele ano, os EUA adotaram uma
"poltica de Crdito Barato", que durou at fevereiro de 1928 e preparou
o caminho para o crash de Wall Street, em outubro de 1929. A
cripto-inflao norte-americana significou o apoio efetivo s moedas
europias que tinham voltado ao padro-ouro pela disponibilidade de
crdito barato.         1929-1933. O dficits dos Estados europeus
derrotados e vencedores foram efetivamente passados para os EUA e
cobertos pelo crescimento estvel dos crditos norte-americanos nos
ltimos dez anos. Os EUA financiaram o Plano Dawes; renegociaram as
dvidas de guerra britnicas e francesas e o servio de seus prprios
emprstimos, alm dos esforos inteis de apoiar a estabilizao
inglesa, os maus investimentos alemes e a acumulao dos dficits do
setor privado do Leste Europeu em instituies financeiras em Viena. O
Creditanstalt dessa cidade entrou em colapso dia 12 de maio de 1931, o
Reichsmark caiu e a libra inglesa foi desvalorizada. Em 19 de abril de
1933, o dlar foi "flutuado". "A contrao da economia mundial e a
catica instabilidade das moedas assemelha-se s condies dominantes no
perodo imediatamente ps-guerra".         Os crticos que atriburam a
crise econmica aos erros polticos, tais como o do exemplo do livro
sobre  volta da libra  paridade do pr-guerra, ou a crena da Europa
Central de que a taxa dos bancos ingleses estava demasiadamente baixa
para sustentar o valor da libra, eram reprovados. Polticas
alternativas, dizia Polanyi, "eram apenas caminhos alternativos para o
mesmo resultado indesejvel". As exportaes inglesas perderam a
competitividade quando a Frana e a Blgica desvalorizaram as suas
moedas em 80 por cento.         A Inglaterra preferiu privilegiar a sua
classe de rentiers, enquanto a Frana e a Blgica desvalorizavam os bens
(estrangeiros) de seus rentiers. Se a Inglaterra tivesse seguido por
esse caminho, teria havido uma reduo na exportao de capital
considerado essencial para a manuteno das exportaes inglesas. Se a
Inglaterra tivesse elevado os juros bancrios, que nunca caram abaixo
dos 4,5 por cento - muito acima dos juros historicamente reinantes -,
isso teria agravado a crise econmica que o Pas vivia. O fato de que os
ganhos dos rentiers ingleses estivessem protegidos (pelas taxas de
cmbio supervalorizadas) assegurava o fluxo contnuo dos 34
investimentos britnicos de longo prazo  Europa Continental, auxiliado
pelo fluxo de dinheiro barato de Nova York para Londres. 14
Desde o comeo, o banco elstico que amarrava os equilbrios cada vez
mais frgeis das economias deficitrias eram os crditos dos EUA. Mas a
correia de transmisso que carregava os dficits at mesmo das economias
europias mais vigorosas aos registros de crdito das instituies
financeiras norte-americanas era o padro-ouro restabelecido. As
economias nacionais europias foram foradas a ajustar as suas fracas
condies econmicas aderindo s regras rgidas do padro-ouro. O seu
crescente endividamento com os credores norte-americanos ocorreu
silenciosamente, mas no menos efetivamente do que os emprstimos
negociados. Enquanto a estabilizao da Europa Central era sustentada
pelo crdito fcil disponvel nos mercados de dinheiro londrinos, o
retorno da libra esterlina  paridade do pr-guerra era sustentada por
nada menos do que a silenciosa inflao de 1926-1929.         De agosto
de 1927 a fevereiro de 1928, a taxa de desconto do Federal Reserve Bank
(FRB) de Nova York era de apenas 3,5 por cento. O resultado foi um
grande crescimento econmico nos EUA e na Europa,  medida que o fluxo
de crditos norte-americanos apoiava as moedas europias. Os
investimentos estrangeiros na Alemanha em 1927/28 foram superiores a 2
bilhes de dlares. Em julho de 1928, a taxa de Nova York subiu 5 por
cento para deter a especulao na bolsa de valores. O fornecimento de
capital de longo prazo para a Europa secou. Na primeira metade de 1929,
o montante dos ttulos europeus colocados no mercado de valores (emisso
de ttulos) de Nova York era de apenas 101 milhes de dlares,
comparados aos 449 milhes da primeira metade de 1928.         At 1925,
as polticas protecionistas e creditcias norte-americanas mantinham o
padro de vida dos EUA e da Europa ao aceitar o ouro como pagamento de
importaes e pela extenso de linhas de crdito. Aps a restaurao do
padro-ouro na Europa, os Estados devedores podiam agentar a presso de
suas moedas somente porque as polticas inflacionrias do dinheiro
barato nos EUA eram instrumentais ao enorme aumento dos emprstimos
estrangeiros  Europa. Quando as polticas inflacionrias
norte-americanas reverteram, a presso financeira sobre os estados
devedores desencadeou uma crise mundial. Nem o ouro nem o dinheiro novo
estavam disponveis para financiar os dficits de pagamento. 15 Os
Estados devedores agora no tinham alternativa ao aumento da exportao
de bens. Desde 1928/29 a Europa e os pases estrangeiros exportadores de
matria-prima haviam inundado os mercados com os produtos exportados a
qualquer preo. A tendncia de uma queda nos  ---   14. A emisso de
papis estrangeiros em Londres totalizou a soma de US$ 651 milhes em
1927; foi reduzida para US$ 525 milhes em 1928 e para apenas US$ 228
milhes em 1929.   15. Em meados de 1929, os EUA e a Frana detinham 50
por cento do ouro monetrio do mundo. 35 preos mundiais, manifestada em
1929, era o preldio de uma crise mundial. Depois veio a crise do
crdito de 1931, o declnio do comrcio mundial em 1932 e o colapso das
moedas em 1933. O deslocamento geogrfico e o adiamento dos dficits
econmicos haviam seguido o seu curso. Se, por um lado, a inflao foi
bemsucedida em salvar o tecido social, por outro, ela no pde salvar a
humanidade de um longo e doloroso processo de ajuste. Em apoio  sua
anlise, Polanyi citou o Prof. J.B. Condliffe, o principal autor do
Economic Yearbook of the League of Nations para 1932/3: As reais
dificuldades no se manifestaram enquanto as moedas da maioria dos
Estados devedores eram independentes umas das outras, as taxas de cmbio
flexveis e as dvidas intergovernamentais desregulamentadas. Mas as
moedas retornaram ao padro-ouro, as taxas de cmbio foram fixadas e os
pagamentos das dvidas foram oficialmente negociados; as tenses em um
mecanismo financeiro internacional novamente reconstrudo aumentaram.
Durante alguns anos, de 1925 a 1929, o servio da dvida foi efetuado
sem um ajuste radical das economias nacionais mediante grandes fluxos de
capital aos Estados devedores, principalmente dos EUA. A partir de 1928
e continuando em 1929, os fluxos de capital diminuram.  medida que as
presses sobre os Estados devedores aumentavam, os preos caam e os
crditos secavam, as dificuldades de ajuste internacional precipitaram o
colapso de toda a estrutura de pagamentos internacionais (Situation
conomtque Mondiale 1932/33, p. 277). RESUMO E ALGUMAS CONCLUSES
De muitas formas, o resumo que Polanyi faz da crise econmica mundial da
dcada de 30 est de acordo com a sabedoria convencional que recebemos.
O que , ento, interessante sobre o seu artigo, alm do fato de ter
sido escrito em 1933, sem o benefcio da viso de algo que j aconteceu?
Que relao isso tem com o segundo captulo de a Grande transformao? O
que podemos aprender sobre o nosso presente - e sobre o nosso futuro -
com base no relato que Polanyi faz do passado?         A primeira coisa
que percebemos  o papel desempenhado pela Primeira Guerra Mundial no
relato de Pauline sobre a crise econmica de 1929-1933: "A crise
conjuntural de 1929-1933 foi apenas a fase mais dramtica de uma crise
geral que teve as suas origens na guerra. Convencionalmente, a guerra de
1914-18 marca o trmino do "longo sculo XIX". Para Polanyi a ruptura
histrica - "a Grande transformao" - instalou-se abruptamente no
incio dos anos 30".16 (GT, p. 23). A crise econmica mundial de 1929-33
foi o captulo final do sculo XIX. ---   16. Nas regies
latino-americanas exportadoras de commodities, a crise econmica mundial
de 1929-1931 marcou o fim de dcadas de crescimento baseado nas
exportaes. As polticas de substituio de importaes de 36         A
seguir percebemos o papel dos EUA de "supervitorioso" da Primeira Guerra
Mundial e a ntima relao entre os banqueiros centrais e os banqueiros
comerciais em Nova York, Londres e Paris. Embora a fonte dos fundos
norte-americanos que sustentavam a complexa estrutura de crdito
estendida aos Estados europeus fosse privada, tais crditos foram
transferncias de recursos politicamente negociadas. " a maldio das
intervenes politicamente motivadas", escreveu, "que eventuais ajustes
tragam novas e mais dolorosas intervenes".         A crise foi adiada
durante dez anos por uma complexa estrutura de emprstimos
internacionais, financiada pelo supervit das poupanas de
(inexperientes) investidores norte-americanos, cuja f na capacidade que
os tomadores de emprstimos estrangeiros tinham de pagar suas dvidas
repousava em um sistema de taxas de cmbio fixas e de conversibilidade
garantida (o padro-ouro internacional). O valor dos passivos a pagar
dos devedores era muito superior  capacidade que suas economias tinham
de saldar tais dvidas e toda essa estrutura acabou ruindo. Os pases
devedores declararam uma moratria unilateral e os ttulos da dvida
tiveram seus valores nominais abaixados.         Pauline notou que a
"fuga de capitais" era um novo fenmeno, nunca registrado nos pdicos
financeiros de 1866 ou 1871. Ele observou que isso desempenhou um papel
vital na derrocada do governo francs em 1925. Os governos esquerdistas
caram em questes monetrias. "Praticamente no houve uma crise interna
na Europa que no tenha atingido o seu clmax sobe a questo da economia
exterior" (p. 23). "A moeda tinha se tornado o piv daspolticas
nacionais" (p. 24). "Quase ningum entendeu o funcionamento poltico do
sistema monetrio internacional. Para os economistas liberais, o
padro-ouro era uma instituio puramente econmica: eles se recusavam,
inclusive, a consider-lo um mecanismo social" (p. 20) (grifos
acrescentados).         No front domstico, percebemos uma nfase na
prioridade poltica de assegurar a "viabilidade da sociedade" - o que
agora chama-se a preservao do capital social ou preocupao com o
social em transformaes estressantes da ordem econmica e a grave
insuficincia de recursos econmicos para atender s expectativas de
melhoria das condies de vida.         Isso levantou questes de renda
domstica e de distribuio de capital. Aqui notamos a ateno que
Polanyi d ao impacto poltico dos mecanismos econmicos. Por exemplo,
as classes que viviam de rendas (rentiers) na Inglaterra foram
privilegiadas pelas taxas de cmbio supervalorizadas, enquanto na
Rssia, Alemanha, --- industrializao, combinadas aos meios no
ortodoxos de mobilizao financeira e cambial, sustentaram o crescimento
econmico, pontuado pelas crises econmicas e polticas, at o final da
dcada de 70. 37 ustria e Hungria, estas classes eram empobrecidas pela
hiperinflao: "a classe mdia intelectual foi literalmente depauperada;
os tubares financeiros empilhavam fortunas revoltantes" (GT, p. 24).
Nesse contexto, ele observou que  errado considerar apenas aquelas
polticas que pretendem beneficiar os operrios ou os camponeses como
sendo "intervencionistas". "A implicao conveniente aqui  que [...] a
proteo da moeda, no importa quo artificial ou draconiana ela seja,
no  considerada intervencionista; o efeito distributivo sobre a renda
dos rentiers no  explicitamente levado em conta. Uma abordagem para a
estabilizao econmica que dependa exclusivamente da inviolabilidade do
contrato tem pouco valor como ferramenta prtica da poltica
econmico-financeira".         A abordagem de Polanyi  anlise da crise
mundial dos anos 30 convida s seguintes questes relativas ao
desdobramento da crise econmica e financeira global dos anos 90.
QUESTES PARA DISCUSSO         Questo n 1: A vitria das potncias
ocidentais na "guerra fria" sobre a exUnio Sovitica resultou na
destruio de uma ordem poltica internacional que: 1) forneceu, durante
quatro dcadas, uma estrutura de crescimento econmico nas economias
mistas do mundo desenvolvido e da maior parte do mundo em
desenvolvimento; 2) respeitou a autoridade das Naes Unidas e os
direitos soberanos de seus Estados-membros; e 3) deteve os EUA - agora a
nica superpotncia mundial - nas suas tentativas de impor seu sistema
econmico e sua ideologia ao resto do mundo. Aps a sua derrota em
1914-18, a Alemanha ergueu-se para desencadear a terrvel Segunda Guerra
na Europa, na qual a Rssia derrotou os exrcitos de Hitler e perdeu 20
milhes de pessoas. Quais so as possveis conseqncias polticas da
humilhao de uma grande potncia - com um arsenal de armas nucleares -
cujo povo tem sido submetido a uma forma de mfia capitalista que
enriqueceu, talvez, um milho e empobreceu a grande maioria?"
Questo n 2: A "Crise Asitica" de 1997/8 tem sido saudada como a prova
da superioridade do modelo anglo-americano da "livre iniciativa" sobre o
fracassado "capitalismo camarada" dos "Tigres" asiticos cujas faanhas
de dcadas de forte crescimento com uma relativa igualdade de renda e
altas realizaes educativas eram, at bem pouco tempo, descritas como
sendo "milagrosas".  ---  17. Quando Chubais foi a Washington para
implorar ao FMI auxlio emergencial para evitar a iminente moratria ao
servio da dvida e para proteger o rublo contra a desvalorizao, ele
teve que aguardar sentado fora da sala de reunies durante cinco horas
enquanto a sua solicitao era considerada. 38         Uma vez sucateada
a Rssia, agora a inteno dos EUA  usar a alavancagem
econmico-financeira para destruir a coeso das sociedades asiticas
para reestruturar formas de capitalismo que eles no consideram
suficientemente "abertas" ou desregulamentadas? H uma agenda oculta
para bloquear a formao de uma economia regional sob controle asitico?
Durante a guerra fria, os EUA encorajaram e auxiliaram - os pases do
Leste Asitico a se engajar em polticas "desenvolvimentistas"
bem-sucedidas de interveno estatal, sob regime autoritrio. Teriam os
EUA permitido que o quarto maior pas do mundo (a Indonsia) casse num
buraco negro de caos e pobreza se ainda houvesse a ameaa do
"comunismo"? Que reao antiocidental deve-se esperar dos pases
asiticos que, at recentemente, estavam orgulhosos de suas realizaes
econmicas graas ao seu rduo trabalho e sacrificadas taxas altas de
poupana domstica?         Questo n 3: Passando das polticas s
finanas internacionais, as lies dos sombrios anos do perodo
entre-guerras foram esquecidas? O sistema de Bretton Woods foi
construdo para evitar que pases com balanas de pagamento deficitrias
fossem forados  recesso e ao desemprego. Mas as intervenes do FMI
no Leste Asitico fizeram exatamente o contrrio: bancos foram fechados,
empresas viveis: foram foradas  falncia e altas taxas de juros foram
impostas para proteger o valor das moedas locais denominadas capitais de
credores estrangeiros.         Tais polticas no eram apenas
equivocadas e prejudiciais: elas tambm eram ineficientes. Uma crise da
balana de pagamentos em um pas pequeno desencadeou uma crise global de
confiana e uma gigantesca fuga de capital, na seqncia das
intervenes do Fundo Monetrio Internacional. O FMI no  apenas
carente de recursos financeiros: faltam-lhe, tambm, recursos
intelectuais. As suas anlises econmica e poltica tm sido desafiadas
por diversos eminentes economistas, sobretudo por Joseph Stiglitz,
economista-chefe e vice-presidente do Banco Mundial; ex-membro do
conselho da presidncia para assuntos econmicos e respeitvel
acadmico, perito em mercados financeiros. A questo aqui : quem toma
as decises no FMI? No interesse de quem? E por quanto tempo mais o
mundo pode se equilibrar  beira do precipcio antes de cair no
redemoinho de uma crise econmica generalizada?         Questo n 4:
voltando  globalizao da crise financeira, nada mais e nada menos que
uma autoridade do porte de Alan Greenspan alertou que "os mercados
financeiros mundiais, engendrados pela rpida proliferao de fluxos
financeiros e de produtos atravs das fronteiras, desenvolveram a
capacidade de transmitir erros atravs do sistema financeiro de formas
at ento desconhecidas h uma gerao". Ele sugeriu que "as economias
asiticas no podiam oferecer oportunidades lucrativas adequadas, com
risco razovel, nos anos 90, para absorver a onda de entrada de capitais
[...] que refletia [...] a diversificao dos imensos ganhos de capital
dos mercados ocidentais de equity para um setor mundial que era
percebido como oferecendo taxas de retorno superiores  mdia". 39
Greenspan considerou os "financiamentos interbancrios atravs das
fronteiras o calcanhar-de-aquiles em potencial do sistema financeiro
internacional. Os bancos credores esperam que os direitos a resgates e
pagamentos, especialmente nos bancos das economias emergentes, sejam
protegidos por uma rede de segurana e, conseqentemente, considera-os
direitos soberanos. A menos que tais expectativas sejam substancialmente
alteradas - como quando os bancos realmente incorrem em perdas
significativas -, os governos podem enfrentar a alternativa de validar
tais expectativas ou arriscar uma grave ruptura nos sistemas de
pagamentos e mercados financeiros em geral" (Palestra proferida no
Federal Reserve Bank de Chicago, maio de 1998).         A ameaa 
estabilidade da economia mundial  real, grave e iminente. O
primeiro-ministro Tony Blair declarou que a vacilante economia do Japo
 a ameaa mais grave  economia mundial dos ltimos vinte anos. George
Soros, financista e grande especulador monetrio, expressou o receio de
que o "Japo est sofrendo condies que lembram as dos anos 30 [...]
Estamos  beira...  beira de uma parada  medida que a crise se
intensifica na sia. Ele criticou o FMI por impor condies aos pases
tomadores de emprstimos, mas no aos bancos internacionais que
emprestaram". 18 Ele previu que a atual corrida ascendente aos mercados
de aes seria seguida por um enorme colapso: "Se os investidores
experientes entram em pnico e saem do mercado ao mesmo tempo, haver um
crash" (8 de julho, 1998). Debochado pelos economistas acadmicos, Soros
tem demonstrado a sua compreenso da instabilidade dos mercados
financeiros no mundo real das especulaes monetrias bem-sucedidas.
Questo n 5: Polanyi viu as regras rgidas do padro-ouro como sendo o
importante mecanismo de transmisso que sustentava o capital
internacional e adiava os ajustes aos desequilbrios subjacentes - at
que toda a estrutura de crdito entrasse em colapso sob a presso das
foras sociais e polticas na Europa. Hoje, temos um sistema de taxas
cambiais flexveis. Do ponto de vista estritamente tcnico da poltica
cambiria, esta  diametralmente oposta  poltica das taxas de cmbio
fixas. Na verdade, ns agora olhamos para trs e vemos a estabilidade
cambial da ordem de Bretton Woods pr-1971 como uma "Era Dourada"
perdida. Como, ento, podemos dizer que h semelhanas entre os anos 30
e os 90?         Julgamos que as polticas "globalizadoras" da
desregulamentao, privatizao e liberalizao do comrcio e das
finanas exercem presses deflacionrias nas economias reais dos
principais pases industrializados. As altas taxas de juros e a
disciplina fiscal e monetria impostas pelos mercados financeiros
liberalizados aos ---  18. Reuters, 11 jun. 1998. 40
legisladores - que vem a "credibilidade" dos mercados financeiros
internacionais         como a principal meta poltica - tm diminudo o
crescimento econmico, reduzido         o poder aquisitivo dos
assalariados e intensificado a competio - em escala mundial.
Os investimentos em capital real so canalizados aos mercados
exportadores, onde         a capacidade excedente das commodities
internacionalmente comercializadas, inclusive os produtos manufaturados,
est pressionando os preos e os lucros mundiais para baixo.
Diferentemente dos anos 30, quando os pases se engajaram nas
desvalorizaes         para ganhar vantagens comerciais, agora eles so
forados a realizar (indesejveis)         desvalorizaes atravs da
fuga de capital e especulao contra as moedas fracas.         Se os
pases mais fracos tentam defender as suas moedas, seus bancos centrais
tero         as suas reservas logo exauridas. Os pases caem ento nas
garras dos credores internacionais, cujos interesses so protegidos
pelas instituies financeiras internacionais baseadas no princpio da
"inviolabilidade do contrato". O "laissez faire" ,         conforme
Polanyi sugere, institudo, mantido e policiado pelas regras e
regulamentos impostos pelos mercados. Uma elaborada estrutura de acertos
polticos e econmicos internacionais criou uma ordem econmica
"liberal" que privilegia mais os         credores que os devedores; as
finanas, mais que a produo; aos ricos, mais que         aos pobres.
No h pases ganhadores neste sistema totalmente desordenado. Os
"ganhadores" so os bancos e, sobretudo, os portadores de ttulos
reivindicando valores que esto muito alm das condies que as
economias reais tm de honr-los.         Os perdedores so a grande
maioria dos trabalhadores de todos os pases. Como nos anos 30, a crise
est avanando de Leste a Oeste. Mas a proporo  imensamente maior. O
Leste no  mais a Europa Oriental -  a sia com os seus dois bilhes
de habitantes. O "mundo" no  mais a Europa e as suas extenses
ultramarinas na Amrica do Norte e do Sul. A escala da crise iminente 
verdadeiramente global. Mas as respostas oficiais no esto  altura do
desafio. H muitas vozes prudentes, bom senso e bons conselhos. Este
trabalho trouxe a voz de Karl Polanyi, atravs do tempo e do espao, na
esperana de que os seus sinais de alerta sobre os perigos dos ganhos
desenfreados como princpio que governa a vida das pessoas e das naes
possam contribuir para uma soluo. Sobre a extino das profisses:
implicaes tericas Bernardete Wrublevski Aued Temas A poca social e
as mudanas profissionais Metamorfoses sociais e extino de profisses
Introduo MOS DADAS                 No serei o poeta de um mundo
caduco.                 Tambm no cantarei um mundo futuro.
Estou preso  vida e olho meus companheiros. Esto taciturnos, mas
nutrem grandes esperanas.                 Entre eles, considero a
enorme realidade.         O presente  to grande, no nos afastemos.
No nos afastemos muito, vamos de mos dadas.         No serei o cantor
de uma mulher, de uma histria,         no distribuirei entorpecentes
ou cartas de suicida,         no fugirei para as ilhas nem serei
raptado por serafins.         O tempo  a minha matria, o tempo
presente,         os homens presentes, a vida presente. Drummond de
Andrade1         H algum tempo tenho manifestado interesse pelas idias
que giram em torno da extino das profisses, decididamente um problema
para as pessoas que vivem do trabalho assalariado. Mas por que este
tema, se de antemo sabia que ele no est entre aqueles que atraem
grandes pblicos? Ao invs de profisses em extino poderia eleger
outro, qui de maior atualidade.  primeira vista, este tema tem um qu
de antigidade, pois, segundo um renomado consultor de rgo de
pesquisa, foi amplamente estudado nos anos 70 deste sculo. Deveria ter
dito: pelo menos desde 1848. ---  1. Drummond de Andrade, C. Reunio.
10 ed. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 1980, p. 55. 43         Optei pelo
tema com base em alguns critrios: apesar de toda discusso
relativizando a centralidade do trabalho na atualidade, o trabalho ainda
 aquele... A explorao do trabalho, em suas mais diversificadas
formas, assim como a precarizao social, est estampada nas legies de
trabalhadores que esto sendo retirados do mercado de trabalho no
Brasil, na Espanha ou na frica. De acordo com as formulaes otimistas,
nada indica reverso deste quadro de horror econmico. 2 Segundo alguns
economistas, a tendncia ao desemprego  de aumento considervel. A
extino das profisses, objeto da presente anlise, espelha esta
situao social paradoxal: de aumento da precarizao do tecido social e
incomensurvel produo de riquezas na atualidade. Sobre esta ltima no
 preciso arrolar muitos dados para dimensionar a sua importncia neste
final do sculo XX. A necessidade de produo destrutiva  a sua feio
mais evidente. 3 No entanto, a precarizao social ainda  um aspecto
insuficientemente analisado. Os trabalhos e as pessoas - que so a sua
encarnao (sobretudo os profissionais) - escapam ao interesse dos
pesquisadores. 4 Tempos de transio social         Sobre as mudanas
profissionais, os fatos so abundantes, espelham metamorfoses sociais
das quais jorram cenas dantescas: desemprego e misrias, sob todas as
formas, 5 morte do campesinato, 6 trabalho infantil, trabalho escravo,
retorno  fbrica satnica.7 Este inferno singular brasileiro, que tanto
envergonhou Saramago quando esteve no Brasil, em maio de 1997,  o pano
de fundo, a justificativa desta reflexo. No se pode assumir uma
atitude contemplativa e indiferente s mudanas do nosso tmpo, 8 o que
significa, de antemo, reconhecer que nossa proposio  --- 2.
Forrester, V. O horror econmico. So Paulo: Ed. Universidade Estadual
Paulista, 1997. 3. Mszros, I. Beyond capital. London: Merlin Press,
1996.  4. Como exemplo, veja-se o livro que historiciza a construo da
Ponte Hercnio Luz, em Florianpolis, SC. Nele h minuciosa pesquisa que
ilustra a construo da ponte, da licitao, da empresa que realizou o
contrato de construo, dos gastos governamentais, da figura poltica
Hercffio Luz, mas no h meno sobre os trabalhadores que construram a
ponte. In: Andrade, I. A construo da Ponte Herclio Luz.
Florianpolis: Ed. da UFSC, 1981. 5. Forrester, V. O horror econmico.
So Paulo: Ed. Universidade Estadual Paulista, 1997. 6. Hobsbawm, E. A
era dos extremos. So Paulo: Brasiliense, 1995. 7. Chomsky, N. Lucha de
clases. Barcelona: Crtica, 1997.  8. "A queda do muro dos pases do
leste nos obriga a olhar para o outro lado; Lnin passou da era do
bronze para a era poeira. De repente tudo o que  slido se desmancha no
ar." Arthur Young, um autor francs do sculo XVIII (Vaages eu France en
1787-88-89-90, 1930, p. 144), "diz que os materiais (pedra, ferro,
vidro) com que tinham sido construdos os castelos da nobreza feudal
eram, agora, vendidos por especuladores, que demoliam os castelos a fim
de obter lucros na venda dos materiais. Com isto, com certeza estes
especuladores no seguiram seno seus interesses os mais imediatos, mas
no lhes ocorreu que o que estava sendo demolido, pedra a pedra, era uma
sociedade. E ns, ao demolirmos os muros que dividiam o mundo,
acreditaremos em mera coincidncia?" (Young, A. apud Figueira, F.
Cadernos de estudos histricos. 1991, p. 19. Mimeo.). 44 uma tarefa
muito difcil, porque se trata do reconhecimento do novo, da luta que o
novo trava para se instituir. O objetivo geral  caracterizar os
personagens sociais em tempos de transformaes, insistir naquilo que
parece imvel, mas cujas transformaes so inegveis.         Estaria,
com isto, pretendendo-se refazer abordagens clebres j escritas? Ao
empreender uma reflexo sobre a histria das metamorfoses das
profisses,  estabelecido algo bem mais modesto: pr em evidncia o
alcance dos acontecimentos da atualidade. A descrio no , portanto, a
meta principal, mas apenas a base slida e contnua sobre a qual as
idias deveriam estar apoiadas. As profisses no tm existncia em si
mesmas, expressam uma totalidade, o que significa dizer que no so
apenas as profisses que esto em turbulncia.         Hoje, com certa
facilidade, localizam-se afirmaes que sustentam que a profisso
encontra-se navegando em guas tempestuosas e que, na dcada final do
sculo XX, esta situao acelera-se, mudando cidades, pessoas e
instituies. No ABC paulista, em cidades como Osasco e So Bernardo, h
muito tempo tradicionais produtoras de autopeas, do ramo metalmecnico,
experimentam uma redefinio. O plo metalrgico se desfaz e, como num
labirinto de pedras de domin, desmonta atividades profissionais
correlatas nos quatro cantos do Brasil. A tempestade no resultaria em
maiores implicaes se, nela, pessoas, metalrgicos, ferramenteiros,
soldadores, desenhistas, costureiras no estivessem sendo ceifados,
sendo sbita e inadvertidamente privados da condio de sobrevivncia. A
lista dos profissionais extintos poderia prolongar-se infinitamente. No
 apenas a profisso que est em turbulncia. Uma poca social pode
estar cedendo lugar a outra. Machado de Assis lembra que quando a poca
social da escravido foi extinta levou consigo instituies sociais,
ofcios e instrumentos.         A acelerao do processo de extermnio
de profisses marca com ferro em brasa os profissionais do sculo em
questo. A profisso do perfurador de cartes, em alta nos anos 70 do
sculo XX, no encontra nos anos 90 - e, portanto, dentro de uma gerao
- guarida no mercado de trabalho. Ferramenteiros, temporariamente
afastados para exercer mandato sindical, ao retornarem, encontram a
fbrica metamorfoseada. A ferramentaria deste foral de milnio  uma
sala ocupada por engenheiros e seus computadores. Em quase nada lembra o
tempo social em que os ferramenteiros tinham importncia decisiva na
fbrica. Quebrou-se a espinha dorsal da ferramentaria, que no Brasil,
desde os anos 30 at os 50, decidia os rumos polticos dos trabalhadores
da fbrica.         Atualmente, certas instituies sociais, como os
sindicatos e vilas operrias, no tm mais contornos precisos. As
fbricas, despedaadas no territrio, so conectadas apenas pelos laos
invisveis e virtuais da Internet, do fax e do correio eletrnico. Em
quase nada lembram as fotografias de operrios enfileirados dentro de 45
uma grande fbrica, caricaturados por Chaplin no incio do sculo XX. A
fbrica multifacetou-se e metamorfoseou-se, mas, no essencial, continua
tendo a mesma vocao: produzir mercadorias e explorar trabalho alheio.
O trabalho em domiclio  reinventado. Subjetivamente, ningum mais sabe
exatamente onde comea e termina a fbrica: os dois ambientes
confundem-se. Diante desta mudana, o trabalhador no sabe mais se, de
fato,  um trabalhador ou patro, ou as duas figuras ao mesmo tempo:
cabea de patro e ps de assalariado. Estranhado, alienado, o "trabalho
impregna a subjetividade do profissional.  como se nada daquilo que ele
produz fosse dispndio do crebro, dos nervos, msculos e sentidos. 
como se os produtos do crebro fossem dotados de vida prpria. Aquilo
que  produto da mo humana e, portanto, desprendimento de energia pura,
aparece misteriosamente como objeto estranho at mesmo quele que o
produziu. Entre milhares de carros que o metalrgico fez fica
dissimulado o produto da ao humana, e este  o grande problema: o
metalrgico no se reconhece no produto do seu trabalho.  preciso dizer
tambm que esse trabalho tem data e local de realizao, isto ,
efetuou-se com base em determinadas relaes sociais. Ento, aquilo que
 produzido somente sob determinadas relaes sociais ( coisa de
determinados homens) assume a forma, falsamente aparente, de relao
entre coisas. Tambm as relaes sociais foram inventadas pelos homens.
No mbito das profisses, mais do que em outros, parece que vivemos sob
a marca predominante de incertezas e instabilidade. Esquecendo que
existe passado, referimo-nos ao futuro como algo incerto. A profisso,
outrora legado do pai ou da me, no possibilita mais que o filho
sobreviva da mesma maneira. Alguma vez na histria as pessoas precisaram
enfrentar situao semelhante?  um "mal" temporrio e passageiro?
Os ltimos anos foram relevantes e decisivos no sentido de perceber
quanto a decadncia vem fantasiada de novidade e, o que  mais srio, de
constatar que muitos a tomam por tal, manifestando uma grande euforia,
da qual nem se lembram, em geral, nos dias subseqentes, quando j se
apegaram a outra fantasia. Para apreender a sociedade  fundamental no
se iludir com as mscaras que ela produz e adentrar naquilo que ela tem
de mais profundo, contemplando, inclusive, perodos de transio. As
profisses no passado ou no futuro retratam e configuram as ondas largas
de desenvolvimento capitalista. 46 Ondas de larga durao         Essa
conceituao, baseada no esquema interpretativo de Braudel, "longue
dure", 9 foi aprimorada por Arrighi," 10que sustenta a caracterizao
acerca do contexto histrico no qual as profisses so objeto de estudo.
Segundo este autor, a ascenso e plena expanso do capitalismo mundial 
interpretada a partir da tese de competio entre foras do costume e da
inovao." Propositadamente, no me alongarei nas formulaes que este
autor faz: tomo-as como o arcabouo terico/temporal. O processo de
extino das profisses reflete no tempo a presena de foras em
movimento, evidenciando uma transio histrica. Nela destacam-se as
metamorfoses sociais. Nem tudo  inovao, h costume. Alm disso,
inovao e costume no se apresentam imediatamente excludentes, mas h
superposio, descontinuidade e bifurcaes.  um processo que em nada
se assemelha ao desenrolar de uma histria linear.         As inovaes
econmicas vm desencadeando uma ruptura na cadeia de muitos sculos,
que vai dos ofcios s profisses e, mais recentemente, destas para as
ocupaes. Essas inovaes tm de vencer a resistncia dos costumes
enraizados nas tradies familiares, no Estado, nas empresas e em tudo
aquilo que socialmente representa a estabilidade e a segurana.
A tendncia para engendrar ordens costumeiras, de certa maneira, iguala
o capitalismo aos demais sistemas que o antecederam. Empresa e Estado
estabelecem acordos costumeiros e criam redes para assegurar
estabilidade e segurana ao sistema no qual operam. Num primeiro
momento, instalaram-se relaes de relativa prosperidade, em decorrncia
da implantao destes costumes estabilizadores. As relaes sociais
tornam-se mais estveis, h cooperao e complementariedade. No entanto,
a competio, que  intrnseca ao prprio sistema capitalista, institui
a ascenso de uns e a queda de outros. Os ganhos desiguais impelem
empresas e Estado a lutarem em busca de novos espaos de atuao, novos
ancoradouros para seu capital. As inovaes so uma decorrncia dessa
luta e podem ser tanto defensivas quanto ofensivas. A depresso, que
historicamente tem acompanhado estes momentos ---  9. Braudel, F.
Civilisation matrielle, conomie et capitalisme. Paris: Gallimard,
1982. 10. Arrighi, G. O longo sculo XX. Rio de Janeiro: Contraponto,
1996; Arrighi, G. A iluso do desenvolvimentismo. Petrbpolis: Vozes,
1997.  11. "Ondas largas so primordialmente um reflexo temporal dos
processos competitivos da economia capitalista mundial. [...] Como todos
os sistemas sociais anteriores, o capitalismo se assenta em um certo
tipo de ordem costumeira, na qual os atores polticos, econmicos e
sociais se desenvolvem e se comportam de acordo com as regras e normas
que asseguram a continuidade [...]. Mas, diferentemente de todos os
sistemas anteriores, o capitalismo tende a gerar inovaes que rompem
qualquer ordem costumeira que tenha sido ou esteja sendo estabelecida em
um momento dado. Esta tendncia aumenta as presses competitivas que,
por sua vez suscitam novas ordens costumeiras. A alternncia entre
presses competitivas mais intensas e mais refreadas  o que entendemos
por ondas largas de "prosperidade" e de "depresso" (Arrighi, G. A
iluso do desenvolvimentismo. Petrpolis: Vozes, 1997, p. 19). 47
transitrios, advm da necessidade de economizar foras na luta. A luta
entre o velho e o novo impele os primeiros a serem quebrados, e ela
encontra arrefecimento quando novos costumes so institudos. Mas at
que isto se efetive, impe-se uma significativa transio histrica.
Para sobreviverem, os personagens sociais reinventam formas artesanais,
disseminam prticas prprias de outros tempos histricos, que so
expresses de busca de solues para sobreviverem no sistema em
transio. Quando a luta acirrada impe novas ordens costumeiras,
cria-se uma nova base de cooperao. Este processo adquire visibilidade
somente atravs da identificao das ondas largas, nas quais a mudana 
descontinuidade e adaptao. Arrighi defende a idia de que a histria
do capitalismo est atravessando momentos decisivos de mudanas, mas
estas no so algo inusitado, sem precedentes. Longos perodos de crise,
reestruturao e reorganizao - ou seja, mudanas com descontinuidade -
tm sido muito mais tpicos da histria da economia capitalista mundial
do que os breves momentos de expanso generalizada por uma via de
desenvolvimento definida, como a que ocorreu nas dcadas de 1950 e 1960.
No passado, estes longos perodos de mudana com descontinuidade
terminaram em reorganizaes da economia capitalista mundial sobre novas
bases e mais amplas. 12         Desta formulao, nasceu a idia de
aprofundar o significado das mudanas. A nfase primordial se concentra
na mudana do perfil profissional, espelho de uma sociedade em movimento
e de um tecido social metamorfoseado. Metamorfoses sociais         Do
meu pai, que foi um similar de aprendiz de ofcio e depois um oficial de
fundio mecnica, herdei, provavelmente, a paixo pelas metamorfoses do
ferro e da vida. Na fundio artesanal em que ele trabalhava, nenhum
espetculo era mais atraente do que a transformao do ferro slido em
lquido incandescente, disforme, condio necessria para cristalizar-se
depois em outras formas. Hoje, a fundio artesanal est desativada. A
lembrana surge na memria simplesmente para evidenciar algo parecido
que ocorre na vida quando uma poca social cede lugar a outra. A vida
das pessoas, similar ao ferro em fundio, est permeada de
metamorfoses, mas estas nem sempre so imediatamente visveis e nem
sempre se evidenciam de forma espetacular. A fim de tornar mais claro o
argumento da presena da metamorfose, toma-se uma das inmeras
evidncias atuais, as profisses, e aqui se estabelecem alguns nexos da
trama na qual elas se inserem. ---  12. Atrighi, G. A iluso do
desenvolvimentismo. Petrpolis: Vozes, 1997, p. 1. Fim da Nota 48
Que so metamorfoses sociais? O termo metamorfoses evoca sempre muitas
associaes. Todos aqueles que leram A metamorfose de Kafka lembram a
fora do recurso metodolgico utilizado por este autor. Metamorfose  a
inveno de situaes intolerveis. Dela no escapa o personagem social
caixeiro-viajante e tambm a sua famlia. Ambos precisam conviver com a
metamorfose, independentemente de vontade e de aceitao. 13
Para alm da metfora literria, metamorfose social inclui a dialtica
do mesmo e do diferente, explicitas transformaes histricas, insiste
na demarcao das principais cristalizaes deste tempo histrico e,
portanto, insiste naquilo que  novo e no que  permanente, mesmo que
estes assumam formas estranhas, no imediatamente reconhecveis. 14
Ainda mais, torna manifesto que alguns contedos concretos de categorias
como trabalho, assalariamento e regulamentao social so, hoje,
distintos do que eram, por exemplo, nas sociedades pr-industriais.
 luz desta descoberta, ampliou-se a conceituao de mudana, que serve
de elemento terico para apreender o significado do movimento na
histria das profisses. Nela no h apenas desaparecimento de uma em
decorrncia do surgimento de outra, h metamorfoses, mas metamorfose no
 simplesmente uma analogia para sugerir perenidade da substncia e
mudana dos atributos. Como afirma Castel, Ao contrrio, uma metamorfose
faz as certezas tremerem e recompe toda paisagem social. Entretanto,
ainda que fundamentais, as grandes mudanas no representam inovaes
absolutas quando se inserem no quadro de uma mesma problematizao.
Entendo por problematizao feixe unificado de questes (cujas
caractersticas comuns devem ser definidas) que emergiram num dado
momento (que  preciso datar), que se reformulam vrias vezes atravs
das crises, integrando dados novos ( necessrio periodizar essas
transformaes) e que hoje ainda esto vivas.  por ser vivo o
questionamento que impe o retorno sobre sua histria a fim de
constituir a histria do presente.         A extino das profisses
est historicamente circunscrita ao movimento da acumulao capitalista,
isto , reflexo temporal das ondas de longa durao. E h ainda mais,
espelha um momento peculiar da sociedade, melhor seria dizer, uma
transio histrica. Nela, chamam ateno especial determinadas
transformaes, as metamorfoses sociais. Elas manifestam aspectos da
trama do igual e do diferente, do novo e do permanente. Retroceder aos
idos de 1500 no , portanto, mero exerccio de retrica, mas
simplesmente dar coerncia  opo terica. Retroceder   ---  13.
Kafka, F. A metamorfose. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998.   14. Cartel, R.
As metamorfoses da questo social. Petrpolis: Vozes, 1998, p. 27. 15.
Cartel, R. As metamorfoses da questo social. Petrpolis: Vozes, 1998,
p. 27-29. 49 buscar o nexo do processo que institui o costume e a
inovao.  no bojo do embate destas foras que se inventam e extinguem
profissionais. Na trama deste processo que extingue profissionais
tm-se, por exemplo, os inimpregveis. Quem so eles hoje? Outrora eram
denominados de inteis para o mundo, um conjunto de pessoas designadas
de vagabundos, antes da Revoluo Industrial. Hoje, estes personagens
so denominados pela categoria inimpregveis. H homologia de posio
entre eles. O termo, portanto, no  nada novo, mas os processos que
produzem essas situaes so homlogos, se comparados e diferentes em
suas manifestaes.         Isto posto, avana-se naquilo que, 
primeira vista, parece simples. H profisses extintas? Quais so as
profisses extintas? Para tanto, separa-se o trigo do joio com o apoio
da literatura e da histria, indispensveis aliadas de uma determinada
abordagem sociolgica. Uma profisso pode ser considerada extinta quando
a poca social que a funda tambm se extingue. 16 Para facilitar o
raciocnio, considere-se o caador de escravos, uma instituio
profissional necessria ao escravismo, ou seja, engendrada somente
porque havia escravos fujes. Profisso: caador de escravos         Em
plena vigncia do escravismo colonial," a forma necessria da sociedade
nascente, alguns personagens sociais foram to relevantes quanto o
senhor e o escravo: o traficante, o capataz e, especialmente, o
profissional caador de escravos. Deles nutria-se a relao social que,
por sua vez, criava a necessidade imperiosa de valorizar o territrio
virgem do Brasil, implantar o monoplio da terra, impedir o surgimento
de outras formas de propriedade concorrentes e instaurar um mercado de
trabalho. Todavia, no Brasil, no havia "tradio" de trabalho moderno.
Havia que cri-lo, o que foi feito pela via da escravido. O tronco, a
chibata, os mais atrozes castigos, as torturas, a fome permanente, a
misria e a doena faziam parte do cotidiano da criao do trabalho
escravo. O carter violento era como um estado normal. 18 ---  16.
Percebendo o "esprito da poca", eis como Michelle Perrot prope que
seja feita a apreenso da histria de um determinado momento. O
personagem social age  de acordo com as marcas de sua poca.  por isto
que, quando queremos apreender certos momentos, ouvimos dizer: na minha
poca era diferente... ou seja, os elementos sociais que configuram o
personagem possuem feies prprias expressas, como tempo de guerra, de
resistncia, tempo de encontros, etc. Ver mais a respeito em Perrot, M.
O esprito da poca. Ensaios de ego-histria. Lisboa: Edies 70, 1987.
17. Lembremos que o escravismo, no Brasil,  a forma capitalista
particular de produzir mercadoria. Neste sentido, a questo fundamental
no  deter-se na forma particular (explic-la pela sua particularidade)
enquanto tal, mas apreender por que esta relao somente pode acontecer
desta maneira no Brasil. Para aprofundar a discusso acerca do carter
da relao escravista, ver: Gorender, J. O escravismo colonial. So
Paulo: tica, 1978; Benci, J. SJ. Economia crist dos senhores no
governo dos escravos. So Paulo: Grijalbo, 1977.  18.  assim que se
expressa o jesuta Jorge Benci, em 1700, em relao ao trabalho escravo:
"o trabalho  contnuo, a lida sem sossego, o descanso inquieto e
assustado, o alvio pouco e quase nenhum; quando se descuida, 50
Em termos histricos, a violncia permeia a relao social do sculo XV
ao XVII. Ela  a condio necessria para assegurar a extrao do mximo
de trabalho escravo. A vida do escravo no  seno tempo de trabalho. A
violncia se explica na profisso "caador de escravos", posto que a
fuga dos escravos era, nesta situao social, muito grande. O caador de
escravos  uma profisso muito em moda durante um longo perodo
histrico da vida brasileira, mas, no final do sculo XIX, extingue-se
justamente quando a escravido, no Brasil, tambm  eliminada.
Literariamente descrito por Machado de Assis, o profissional caador de
escravos  uma figura da poca social, um personagem historicamente
institudo, apenas isto. A, a aparncia enganadora da autonomia tcnica
que encobre a manifestao social desfaz-se; rasga-se o vu que
obscurece a naturalidade aparente do social que cria ou extingue
profissionais. A singularidade da metamorfose do profissional caador de
escravos, ofcio do tempo,  tambm a generalidade.19 E ela  exercida
at quando no se imponham mais novas necessidades sociais. Dessa
formulao depreende-se algo fundamental: no so os instrumentos de
trabalho que descartam as pessoas; so as pessoas que descartam outras
pessoas. Os homens, na luta para assegurar a sua sobrevivncia, inventam
instrumentos de trabalho que podem voltar-se contra eles prprios. O
escravismo foi extinto por pessoas que no conseguiam mais viver sob
esta situao. Esta se tornara insustentvel para todos os personagens
sociais do escravismo. --- teme; quando falta, receia; quando no pode,
violenta-se, e tira da fraqueza foras. J o vereis em uma parte, j em
outra, j nesta ocupao, j naquela, ei-lo com o machado nas matas,
ei-lo com a enxada nas lavouras, ei-lo nas moendas moendo-se, ei-lo
abrasando-se nas fornalhas" (Benci, J., SJ. Economia crist dos senhores
e governo dos escravos. So Paulo: Grijalbo, 1977, p. 37).         Ainda
segundo outro autor, Cabral, por volta de 1850, h inmeros relatos
sobre escravos procurados em Florianpolis, tais como: "Lus, crioulo,
marinheiro, de 19 a 20 anos, que fora escravo de Felipe Jos dos Passos,
pirou, de bordo do brigue `Minerva' e Jos Maria do Vale oferecia 20 mil
ris a quem o descobrisse. Vestia roupa do servio de bordo de algodo
azul ou de riscado, era de estatura regular, bonita vista, retinto, sem
sinais de barba. [...] Antnio Ganso, de 15 anos, escravo de Antonio
Francisco da Costa, fugiu em fevereiro de 1857; Domingos, nao Mina, 34
anos, retinto, pouca barba, ps grandes, um tanto curvado, abalou de So
Miguel e o seu senhor, Manoel de Aviz, oferecia por ele 100 mil ris,
isto , a quem o descobrisse." In: Cabral, O.R. Nossa Senhora do
Desterro. Florianpolis: Lunardelli, 1979, p. 428.  19. "A escravido
levou consigo ofcios e aparelhos, como ter sucedido a outras
instituies sociais. No cito alguns aparelhos seno por se ligarem a
certo ofcio. Um deles era o ferro ao pescoo, outro o ferro ao p;
havia tambm a mscara de folha-de-flandres. A mscara fazia perder o
vcio da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca.[...] Era
grotesca tal mscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcana
sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham
penduradas,  venda, na porta das lojas. Mas no cuidemos das mscaras.
O ferro ao pescoo era aplicado aos escravos fujes. Imaginai uma
coleira grossa, com a haste grossa tambm,  direita e  esquerda, at
ao alto da cabea e fechada atrs com chave. Pesava, naturalmente, mas
era menos castigo do que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que
andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado. H meio sculo
os escravos fugiam com freqncia. Eram muitos, e nem todos gostavam da
escravido. Sucedia ocasionalmente apanharem... descalos, correndo,
vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da
lei contar quem o acoutasse. Ora pegar escravos fugidos era um ofcio do
tempo" (Assis, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
1899, p. 112-126). 51         Finda a poca social que institui o
personagem, ele se tornou desnecessrio. Todavia,  fundamental no
esquecer que esta poca, historicamente, durou mais de cem anos e as
significativas mudanas que se processaram adquirem maior nitidez quando
situadas a partir das mudanas de longa durao. Outra profisso:
bugreiros imprescindveis         Com a chegada do europeu, por volta de
1500, a vida no Brasil transformou-se profundamente. Os ndios, que no
incio dos contatos mostraram-se amistosos, sofreram toda espcie de
agresso dos colonizadores. As doenas, antes desconhecidas, como gripe,
pneumonia, sarampo e tuberculose, ceifaram muitas de suas vidas. A
agresso maior, no entanto, veio atravs da escravizao. Os brancos
queriam que eles servissem de mo-de-obra escrava para os portugueses.
Os ndios, indceis, esconderam-se no interior da mata. A necessidade
social engendrou o profissional bugreiro, isto , o caador de ndios. O
professor Slvio Coelho dos Santos localizou expressiva documentao
sobre as atividades profissionais dos bugreiros no Sul do Pas, sendo
Martinho Marcelino de Jesus um dos mais conhecidos. Outro bugreiro,
Ireno Pinheiro, diz que se afugentavam os ndios [...] pela boca da
arma. O assalto se dava ao amanhecer. Primeiro, disparavam-se uns tiros.
Depois passava-se o resto a faco. O corpo  que nem bananeira, corta
macio. Cortavam-se as orelhas. Cada par tinha preo. s vezes, para
mostrar, a gente trazia algumas mulheres e crianas. Tinha que matar
todos. Seno, algum sobrevivente fazia vingana. Quando foram acabando,
o governo deixou de pagar a gente. A tropa j no tinha como manter as
despesas. As companhias de colonizao e os colonos pagavam menos. As
tropas foram terminando. Ficaram s uns poucos homens. [...] Getlio
Vargas j era governo quando eu fiz uma batida. Usei Winchester. Os
ndios estavam acampados num groto. Gastei 24 tiros. 20         O
extermnio indgena tinge de sangue o Pas. O bugreiro, muitas vezes
remunerado pelo governo, marca a poca social que dura vrios sculos,
adentrando o incio do sculo XX. Ele  parte imprescindvel da ordem
"civilizadora". Suas marcas no esto materializadas somente nas fotos
que deixaram, mas nos ndios, crianas, mulheres e homens que um dia
formavam um povo - estes tinham uma lngua, costumes, cultura,
territrio e foram impedidos de continuar sobrevivendo iguais aos seus
antepassados. --- 20. Santos, S.C. Os ndios Xokleng. Florianpolis:
UFSC/UNISUL, 1997, p. 28. 52 Os jesutas ensinam ofcios aos ndios
O livro Artes e ofcios dos Jesutas no Brasil  rico em elementos para
apreender o carter histrico das profisses, na poca ainda denominadas
como artes e ofcios. Para atender determinadas necessidades da
sociedade emergente, as profisses precisaram ser inventadas, da mesma
forma que a vida religiosa e social. No Brasil, o ensino profissional
tem como marco a ao jesutica, a partir de 1565.         Na criao do
novo mundo, os ndios experimentam significativas metamorfoses, aprendem
ofcios ou, ento, ficam do lado de fora da sociedade emergente, no
exatamente porque assim o desejem, mas porque novas necessidades esto
surgindo. A chave da explicao que faz desaparecer pessoas e
profissionais est no processo social que ora inventa coisas e
personagens sociais, ora os torna obsoletos. Entretanto, eles nunca
renunciam facilmente quilo que adquiriram, lutam para preservar a
situao em que se encontram. Se os ndios tivessem preservado a sua
situao, provavelmente continuariam como os seus ancestrais. Para impor
a forma de vida dos jesutas (do alm-mar), destituram-se as formas
sociais de produo e a vida dos ndios. Criar a laboriosidade entre os
ndios no foi nada fcil.21 Segundo as fontes documentais, os jesutas
enfrentam muitos obstculos para instaurar a civilizao nascente. Um
deles  o nomadismo ancestral dos ndios. Por esta razo, procuram fixar
os ndios em volta de uma igreja ou escola. Para isto, valem-se de todas
as forms, como a msica, o coral e a dana. Os ndios so muito amigos
de festas, danas e bailes; e tm para isso gaitas e tamboris. Pois,
ainda que no tm ferro, l tm habilidade para fabricarem as gaitas de
algumas canas ou cips ocos ou que facilmente largam o mago; e os
tamboris, de paus ocos, ou se  necessrio os ajustam com fogo. Uma das
suas gaitas muito usada  uma como flauta, a que podemos chamar o pau
que ronca, --- 21. "Os primeiros Seminrios dos Meninos de Jesus,
iniciados por Nbrega na Bahia, e logo tambm em So Vicente, tinham uma
inteno de formao missionria. Mas a cristianizao doutrinal e
moral, sem base antiga, no permitiu ainda a ascenso ao sacerdcio do
elemento indgena, exceo feita para um ou outro mestio: e
praticamente foram as escolas de catequese e de artes e ofcios. Mas,
sob este aspecto, tambm a aprendizagem foi difcil, porque os rapazes
ainda tinham presente na imaginao a vida da selva, onde, com a pequena
agricultura, o trabalho necessrio para o sustento da vida era apenas o
da caa e pesca. Criar hbitos de laboriosidade em quem nascia assim
seria um milagre psicolgico. Tendo na cabea a imagem da sua aldeia, de
casas de palha de que servia, por exemplo, aprender as artes de pedreiro
e carpinteiro? E na verdade assim , se tudo devesse continuar como
antes. Mas o Brasil nascia. Examinados em 1561 os resultados, observa
Nbrega que os rapazes sados daquelas primeiras escolas ainda voltavam
aos costumes do mato, j no voltam a comer carne humana, antes o
estranham muito a seus pais (bastava isto para glorificar todo o
trabalho tido com eles); e muitos, quando esto em perigo de morte,
sabem procurar melhor a sua salvao; e todo o seu voltar atrs era
andarem no caminho da carne e andarem nus; por no terem vestidos como
antes, sentiam vergonha de ir  igreja. E -  sempre Nbrega quem fala -
dos que se recolheram no se perderam todos, porque alguns morreram
durante a inocncia, outros deram-se a ofcios, outros passaram a outras
partes, onde perseveram na f recebida" (Serafim Leite, S.I. Artes e
ofcios dos jesutas no Brasil. Lisboa: Brotria, 1953, p. 23. Grifos
meus). 53 com trs buracos, dois na parte superior e um na inferior; e
ordinariamente o mesmo que toca bate com a outra mo no tamboril. E no
h dvida que alguns o fazem com perfeio e com suave e doce melodia,
justamente compassados, de modo que podem competir com os mais destros
galegos e finos gaiteros. Este gosto pela msica e o canto, assinalado
por Joo Daniel,  observao unnime de todos os historiadores do
Brasil, a comear pelo primeiro, Pedro Vaz de Caminha; [...] Em breve os
meninos rfos portugueses cantavam cantigas na lngua braslica (tupi)
e tocavam taquaras e maracs indgenas, ao passo que os meninos ndios
comeavam a cantar, com as prprias dos seus antepassados, as cantigas
portuguesas, e aprendiam a tocar flauta e outros instrumentos musicais22
O quadro a seguir ilustra que, alm da religio e dos cantos, so
ensinados, pelos jesutas,23 os ofcios imprescindveis  sociedade
nascente: 22. Serafim Leite, S.I. Artes e ofcios dos jesutas no
Brasil. Lisboa: Brotria, 1953, p. 58-59.  23. "Na Companhia de Jesus,
os Irmos ocupam-se em duas espcies de ofcios. Os que so comuns a
todas as casas, num plano mais vasto do que o de uma casa particular,
mas essencialmente os mesmos; em todas h cozinha, dispensa, mesa onde
se come, porta da casa, caixa ou armrio de roupa, limpeza da casa,
compras do que  preciso, e, nas casas crists, um pequeno oratrio.
Portanto, numa residncia grande ou Colgio com Igreja anexa:
cozinheiro, dispenseiro, refeitoreiro, porteiro, roupeiro, o encarregado
da limpeza, comprador, sacristo. Estes so os ofcios domsticos ou
comuns. H os que j no so comuns e so propriamente os ofcios
mecnicos: alfaiates, sapateiros, barbeiros, pedreiros, ferreiros,
romeiros e carpinteiros, que podem subir  expresso artstica se so
entalhadores e escultores (e o mesmo na pintura); livreiros, e
encadernadores, teceles, pastores, (curraleiros), horteles,
agricultores; enfermeiros, cirurgies, farmacuticos, e, por necessidade
local - como sucedeu no Brasil -, pescadores, pilotos, construtores
navais e oleiros; e ainda companheiros do Provincial, Mestres de
meninos, ajudantes do Padre procurador e algumas vezes procuradores eles
prprios" (Serafim Leite, S.I. Artes e ofcios dos jesutas no Brasil.
Lisboa: Brotria, 1953, p. 19).  "A Portugal pediam-se Padres para
Mestres e Evangelizadores do Brasil; e, com a mesma nsia, Irmos que
fossem hbeis nas Artes e Ofcios. Nbrega, ao chegar, pediu teceles e
semente para a lavoura. Tratou-se disto mais a fundo, com a visita do B.
Incio de Azevedo, o qual os procurou adquirir em Portugal e por onde
quer que passasse, e tanto da Companhia, como de fora. E na volta ao
Brasil, em 1570, levava bom grupo de Irmos com os seus ofcios
prprios. No se identificaram todos. Dos averiguados eram: um roupeiro
e comprador (B. Manoel lvares, de Estremz), um tecelo e cardador (B.
Francisco lvares, da Covilh), um pintor (B. Joo de Maiorga, do Reino
de Arago), um ourives (B. Afonso Baena), um bordador, oficial de
passanamaria (B. Estvo de Zurara, da Biscaia), um marceneiro (B.
Antonio Fernandes, de Montemor-oNovo), um carpinteiro (Pedro Fernandes)
e dois alfaiates, cujos nomes no se declaram" (Serafim Leite, S.I.
Artes e ofcios dos jesutas no Brasil. Lisboa: Brotria, 1953, p. 20).
54 Quadro 1 CLASSIFICAO DAS ARTES E OFCIOS NO BRASIL - 1549-1760
Artes e ofcios de construo: arquitetos, mestres de obras, pedreiros,
canteiros, marmoreiros, carpinteiros, entalhadores, embutidores,
marceneiros, tanoeiros, serradores, construtores navais, ferreiros,
serralheiros, fundidores e oleiros Belas artes: escultores, estaturios,
pintores, douradores, cantores, msicos, regentes de coro, oleiros e
barristas Manufaturas: alfaiates, bordadores, sapateiros, artfices de
sola, curtidores de pele e teceles Ofcios de administrao:
administradores de engenhos e fazendas, pastores, agricultores e
procuradores Servios de sade:        enfermeiros e cirurgies Outros
ofcios: mestres de meninos, diretores de congregao, bibliotecrios,
encadernadores, tipgrafos, impressores         pilotos, barbeiros,
cabeleireiros, ofcios domsticos e artes e ofcios singulares Fonte:
Serafim Leite, 1953. Elaborao: Pesquisa Profisses Emergentes em Santa
Catarina/1998.         Ensinar, na forma das artes e ofcios, demonstra
as dificuldades no sentido de destruir a ordem costumeira do ndio e
inovar, instituindo outra ordem social24 Tudo isto durou muito mais de
um sculo. Os anos dourados do artesanato e seus ofcios         Em
termos rigorosos, os ofcios dizem respeito ao tempo muito peculiar na
histria, uma vez que predomina o fazer com as mos. Oficina deriva do
termo uffzi,25 que, primordialmente, foi empregado para caracterizar o
local em que se encontravam os artistas, mestres e aprendizes, cujas
mos hbeis permitiram que esse tempo se materializasse na histria.
Para termos uma idia mais precisa do que eles faziam, basta lembrarmos
alguns nomes do Renascentismo,26 o perodo histrico dos homens das mos
hbeis: Antonello de Messina (1430-1479); Giovanni Bellini ou
Giambellino (1430-1516); Sandro Boticelli (1445-1510); Antnio Allegri
Correggio (1489-1534); Miguel ngelo (1475-1564); Leonardo da Vinci
(1452-1519); Rafael ou Rafaello Santi (1483-1520). Um dos mais
conhecidos, Miguel ngelo, imortalizou-se na pintura da Capela Cistina,
no Vaticano, e tambm por suas esculturas, que somente mos muito
habilidosas poderiam fazer. Ele se iniciou nas artes freqentando a
oficina Ghirlandaio, de maneira semelhante  grande maioria dos
artistas. Nesta condio e neste tempo, Miguel ngelo, com sua
habilidade e destreza, transforma a natureza, torna-se inigualvel. ---
24. Os Carpinteiros, Entalhadores, Embutidores, Marceneiros, Tanoeiros,
Torneiros e Serradores, todos so expresses da sociedade emergente,
espelham as novas necessidades, conforme vemos a seguir:  "Que produziam
estas carpintarias do Brasil sobretudo as das cidades maiores? Alm dos
grandes madeiramentos das Igrejas, e Colgios, e cavername, e
aparelhagem da indstria naval, e da obra de talha dos altares e dos
artefactos comuns de utilidade imediata ou at industrial (aparece algum
irmo tanoeiro), havia os irmos que lavravam mobilirio artstico e
marcenaria fina; lavravam-se credncias, consolas (de igreja e de
salo), retbulos, tocheiros, sacra; bufetes, aparadores, contadores,
cadeiras, de sola lavrada, arcas e arcazes com bronzes e embutidos de
madeiras coloridas, casco de tartaruga e marfim, mesas com gavetas
tauxiadas e secretrias, papeleiras ou escritrios, que  o nome que
Ferno Cardim d em 1589 ao que levava para Portugal o visitador
Cristvo de Gouveia, quando foi assaltado e roubado pelos piratas.
[...] Os catlogos deste tempo, 1589, no tm palavra especial para
designar a arte de marceneiro e entalhador: tudo  carpinteiro ("faber
lignarius"). Um sculo depois distinguem-se duas tendncias: "faber
lignarius et scriniarius;" "faber lignarius et sculptor", contemporneas
das grandes obras da Baa e do Recife. A primeira frmula acentuaria
mais a arte de mobilirio e marcenaria; a segunda mais a de escultura e
estaturia" (Serafim Leite, S.I. Artes e ofcios dos jesutas no Brasil.
Lisboa: Brotria, 1953, p. 45).  25. O termo uffzi, em italiano, quer
dizer dever, incumbncia, cargo, ocupao, profisso. In: Dicionrio
Completo Italiano-Portoghese. Milano: Ulrico Hoepli, 1980.  26. O
Renascentismo foi, de certa forma, a expresso do movimento humanista
nas artes, letras, filosofia e cincia. Este movimento comeou na
Itlia, e marcou o incio dos tempos modernos no plano cultural; teve
incio no fim da Idade Mdia e alcanou a plenitude entre os sculos XV
e XVI. A denominao Renascimento foi resultado da preocupao dos
homens que viveram essa evoluo cultural em aproximar a su poca da
antigidade (Arruda, J.J. Histria moderna e contempornea. 7 ed. So
Paulo: tica, 1997, p. 30-35). 56         A habilidade adquirida com as
mos tambm vincula as pessoas  sua criao. O arteso transfere ao
objeto criado a alma do criador, que o tempo no consegue apagar.
O mundo "do fazer" com as mos  marcado pela presena singular do
mestre e da transferncia do seu saber para o aprendiz. Exige tempo e
pacincia. O aprendiz subordina-se s exigncias do mestre. A relao
entre eles ainda  fundamentalmente desigual. A igualdade no tem por
base o trabalho das mos hbeis dos mestres e aprendizes. As mos
individualizam as pessoas. As mos hbeis geram homens diferentes e
artes singulares. mquina de fiar sem dedos         A humanidade, desde
o final do sculo XVIII, passa a conviver com descoberis nunca antes
imaginveis, que contribuem decisivamente para ascender  sociedade
capitalista. Dela surgem novas necessidades e emergem, conseqentemente,
outros profissionais.         Com a mquina, inaugura-se um outro tempo
histrico, a era da indstria. A mquina-ferramenta aglutina as
ferramentas simples do arteso. Enquanto no processo artesanal os
instrumentos so manipulados individualmente pelo trabalhador, na
fbrica eles so utilizados coletivamente. Os instrumentos,
metamorfoseados, aparecem combinados num instrumento mecnico. 
primeira vista, eles podem ser confundidos com os antigos instrumentos,
mas a nova realidade decorre da combinao dos instrumentos modificados
e adaptados  nova forma de produzir, como ocorreu, por exemplo, com o
tear mecnico.         Do ponto de vista da produo capitalista,
realiza-se, assim, uma grande ruptura, pois o trabalho no depende mais
das condies naturais e biolgicas do trabalhador. Alm disso,
instaura-se uma grande diferena no processo de trabalho, porque o
movimento global da fbrica no depende mais do trabalhador, mas da
potncia e da velocidade do sistema de mquinas combinadas. A mquina,
que possui capacidade de funcionamento uniforme, contnuo e regular,
executa vrias tarefas simultaneamente. O trabalhador transforma-se em
pea humana que acompanha a Mquina. Sua tarefa resume-se em manter a
mquina em funcionamento. Ele a alimenta com as matrias necessrias 
produo, lubrifica-a ou corrige possveis falhas que podem aparecer no
processo de funcionamento. Com o desenvolvimento do capitalismo, tais
tarefas so tambm substitudas por mecanismos automticos. A
transformao das mquinas em autmatos mecnicos tem como conseqncia
a eliminao no s das mos, como tambm dos prprios homens.
Em termos histricos, a era da mquina sobrepe-se, gerando sofrimentos
passageiros aos mestres de ofcios, quando no os tira da vida
passageira. Todavia, a fim de que os fios que tecem essa tela no fiquem
soltos,  necessrio que se alicercem numa poca social em que as
pessoas e as coisas ganham vida. As inovaes 57 na forma de mquinas
foram empregadas para baratear as mercadorias e encurtar a parte do dia
de trabalho da qual necessita o trabalhador para si mesmo, para ampliar
a outra parte do dia de trabalho que d gratuitamente ao capitalista. O
ponto de partida da indstria moderna [...]  a revoluo do
instrumental de trabalho, e esse instrumento revolucionrio assume sua
forma mais desenvolvida no sistema orgnico de mquinas da fbrica. 27
Entre a ferramenta manual e a mquina h um processo de desenvolvimento
que estabelece uma diferena importante entre elas, desfazendo a idia
aparente de que a diferena da primeira para a segunda  apenas de
complexidade. A mquina no se diferencia da ferramenta manual
simplesmente porque a primeira  mais complexa. A mquina contm mais do
que uma simples diferena de grau, pois entre uma e outra h tempos
histricos distintos. Quando em 1735 John Watt anunciou sua mquina de
fiar e com ela a revoluo industrial do sculo XVIII, no disse que a
mquina seria movida por um burro e no por um homem, embora o burro
desempenhasse o papel de fora motriz. Seu prospecto falava numa mquina
de fiar sem dedos.28         Com essa mquina, inaugura-se um outro
tempo histrico, a era da industrializao. A maquinaria contm trs
partes constitutivas, que so muito distintas entre si: o motor, a
transmisso e a mquina-ferramenta ou mquina de trabalho. O motor  a
pea-chave do mecanismo, uma vez que produz sua prpria fora motriz.
Uma vez descoberto, anuncia que pode se deslocar, prescindindo de foras
da natureza; a transmisso, constituda de volantes, eixos, rodas
dentadas, turbinas, cabos e dispositivos de variadas espcies; e,
finalmente, a mquina-ferramenta, ou a mquina que se apodera do objeto
de trabalho de acordo com um fim previamente concebido.         O que a
mquina-ferramenta tem como novidade  que toma o lugar da simples
ferramenta. No processo artesanal, as ferramentas so instrumentos do
trabalhador. Na manufatura, estes mesmos instrumentos reaparecem, mas j
de forma modificada. Na era das mquinas, so ferramentas de um
mecanismo, isto , instrumentos mecnicos. s vezes, podem ser at
confundidos,  primeira vista, pois os instrumentos reaparecem como
edio mecnica, mais ou menos modificada do antigo instrumento
profissional, tal como ocorreu com o tear mecnico. A mquina ferramenta
, portanto, um mecanismo que, ao lhe ser transmitido o movimento
apropriado, realiza com suas ferramentas as mesmas operaes que eram
antes realizadas pelo trabalhador com ferramentas semelhantes. --- 27.
Marx, K. O capital. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1968, p.
449.  28. Marx, K. O capital. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira,
1968, p. 425. Grifos meus. 58 Provenha a fora motriz do homem ou de
outra mquina, a coisa no muda sem sua essncia. Quando a ferramenta
propriamente dita se transfere do homem para um mecanismo, a mquina
toma o lugar da simples ferramenta. 29         Realiza-se, assim, uma
grande ruptura: o trabalho no depende mais das condies biolgicas do
trabalhador. 30 A, ento, a grande diferena entre uma e outra pode ser
observada, mesmo na circunstncia em que o homem continua sendo o
primeiro motor. Na histria da mquina h momentos significativos:
a) a revoluo industrial apodera-se das mos. As ferramentas pem em
evidncia de maneira bem contrastante a diferena entre o homem na
funo de simples fora motriz e o homem como trabalhador que exerce seu
ofcio manual. Na roda de fiar, por exemplo, o p age apenas como fora
motriz, enquanto a mo executa a operao de fiar propriamente dita,
trabalhando com o fuso, puxando e torcendo o fio. 31         A revoluo
industrial toma conta primeiro desta segunda parte da ferramenta e deixa
para o homem a funo puramente mecnica de fora motriz. Ao lado do
novo trabalho, cabe ao trabalhador vigiar a mquina e corrigir, com a
mo, os seus erros;         b) por outro lado, a simples fora motriz do
homem usada em algumas ferramentas, ao fazer girar a roda, ao fazer
girar a manivela do moinho, foi substituda pelo vento, por animais e
pela gua.  curioso como parte dessas ferramentas se transformou em
mquinas mas no revolucionou o modo de produo. E o que desencadeia a
transformao? Na indstria moderna  mais ou menos claro que os
instrumentos, mesmo na sua forma manual, so mquinas. Como exemplo,
temos as bombas que os holandeses usavam, entre 1836 e 1837, para secar
o lago de Harlem; elas nada mais so do que bombas comuns, com uma
pequena diferena: so acionadas por mquinas ciclpicas a vapor e no
mais por mos humanas. Outro exemplo: o fole comum muito imperfeito do
ferreiro, na Inglaterra, se converte ocasionalmente numa mquina de
insuflar ar, apenas porque liga seu brao  mquina a vapor. A prpria
mquina a vapor na forma em que foi inventada no fim do sculo XVII,
durante o perodo manufatureiro, e que subsistiu at o comeo da dcada
de 80 do sculo XVIII no provocou nenhuma revoluo industrial. Foi, ao
29. Marx, K. O capital. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1968, p.
427.  30. S a partir de 1850, aproximadamente,  que se fabrica a
mquina na Inglaterra, uma poro cada vez maior de ferramentas de
mquinas-ferramenta, embora no  pelos mesmos fabricantes que fazem as
mquinas. Mquinas para fabricar essas ferramentas mecnicas, mquinas
para fabricar cardas, para fazer lanadeiras e para fazer fusos de
mquinas de fiar (Marx, K. O capital. Rio de Janeiro: Civilizao
Brasileira, 1968, p. 426). 31. Marx, K. O capital. Rio de Janeiro:
Civilizao Brasileira, 1968, p. 427. 59 contrrio, a criao das
mquinas-ferramentas que tornou necessria uma revoluo na mquina a
vapor. Quando o homem passa a atuar apenas como fora motriz numa
mquina-ferramenta, em vez de atuar com a ferramenta sobre o objeto de
trabalho, podem tomar seu lugar o vento, a gua, o vapor, etc., e
torna-se acidental o emprego da fora muscular humana como fora motriz.
32 Desta onda de inovao, o trabalho manual se torna suprfluo,
desnecessrio.         Todavia, insisto, a questo-chave  o presente. A
razo (o fazer sociolgico) e o engajamento social impelem  busca de
significado para determinadas manifestaes de contedos sociais e a
perguntar se j no  hora de se pensar que eles podem ser diferentes.
Retomo uma provocao feita h algum tempo por um filsofo: para que
servem os vidros eltricos do carro? As invenes que permitiram o carro
com vidro eltrico, smbolo do capitalismo em ascenso, tal como o
feitio de feiticeiro, voltam-se contra seu prprio inventor, tiram os
inventores deste mundo. Acendedores de lampies dispensveis
Desde meados do sculo XIX, desencadeia-se um movimento sem precedentes
no continente americano. A imigrao, jamais vista antes, altera a vida
das vilas, cidades e povoados. No Sul do Brasil, Santa Catarina
simboliza este movimento, que neste sculo torna-se geral. O turbilho
de mudanas que se acelera com a imigrao ocorre junto ao processo de
industrializao, sendo a indstria txtil o carrochefe. Na base destas,
esto tanto a vinda de novos personagens sociais, quanto alteraes
materiais radicais, sendo a iluminao apenas um exemplo.         Neste
processo, no h dvidas, tornam-se dispensveis inmeros personagens
que foram engolidos na metamorfose social instaurada. Marcam poca a
dispensa de acendedores de lampio, motorneiros, carris urbanos e um
conjunto de artfices.  verdade que eles no se tornam obsoletos do dia
para a noite. Em outros termos, novas formas de vida redefinem o
cotidiano, mas, paradoxalmente, as velhas ainda persistem. Ilustra esta
persistncia na mudana o acendedor de lampies e as vrias formas de
iluminao, obsoletas e modernas ao mesmo tempo. Na maioria das
situaes, no incio, apenas as ruas do centro so iluminadas com
eletricidade. A periferia continua, por muitos anos, iluminada por
lamparinas de azeite. Tal  a situao de Desterro, hoje Florianpolis.
Apesar de ser a sede da provncia, no  a primeira cidade a ter
implantado o sistema de energia eltrica, e sim Joinville e Blumenau,
que se transformam nos plos industriais relevantes da regio. Tudo isto
no  mera coincidncia, mas a fora da ao inventiva dos imigrantes
europeus. Quando ocorreu 32. Marx, K. O capital. Rio de Janeiro:
Civilizao Brasileira, 1968, p. 428. 60 grande movimento imigratrio
para o Brasil (meados do sculo XIX), a energia eltrica, em
empreendimentos fabris,  conhecida nas principais cidades europias. A
energia eltrica , assim, o pressuposto e o resultado da era fabril no
Brasil.  pressuposto porque, sem ela, as fbricas dos imigrantes no
poderiam ser ativadas.  resultado porque a fbrica j havia sido
concebida em outros quadrantes do planeta. Quando o imigrante alemo,
lavrador e deputado estadual Peter Christian Feddersen sonhava com a
construo de uma usina de energia eltrica no Sul do Brasil,
propriamente em Blumenau (a primeira), ele tinha uma fbrica em sua
mente. Uma forma histrica no se impe at que a anterior esgote-se
inteiramente. Alm disso, seguindo o pensamento de Marx, a histria
social dos homens no mais  que a histria individual, tenham eles ou
no conscincia disto. Desta feita, o profissional sintetiza uma
histria social, uma trajetria de profissionalizao. Para
sobreviverem, estes personagens sociais lutam, o que significa afirmar
que essas lutas so histricas. Ferramenteiro, desenhista ou costureira
so aqui considerados questes humanas e nada do que  humano  natural,
mas histrico. Apreender seus movimentos  captar as foras sociais que
a ele se contrapem,  desvelar o significado do profissional no cenrio
em que este personagem social atua, visto que ele no atua sozinho. Como
sugere o dito popular "Quem foi Rei nunca perde a majestade",  com
dificuldade que os homens abrem mo de sua existncia anterior, das
ordens costumeiras. Mesmo quando j perderam a coroa, ainda assim lutam
para conservar pelo menos a majestade. A ao coletiva dos profissionais
tambm  pautada pelo duplo movimento do costume e da inovao.
Finalmente, penso algumas vezes que, se tiver que deixar alguns
vestgios neste mundo, ser muito mais por aquilo que tiver escrito do
que por ter feito. Alm do mais, hoje me sinto em condies de escrever
algo, mais do que h dez anos, quando estava iniciando o doutoramento,
momento que muitos entendem como o da defesa de uma tese.
Durante estes ltimos anos, sempre que a tranqilidade do engajamento
social me permitiu, delimitei este tema contemporneo das profisses
extintas, que, imagino, interessa queles que tm a grandeza de buscar
luzes sobre as coisas humanas. A extino das profisses no  uma
questo tcnica, seus elementos fundentes circunscrevem-se ao mbito da
relao social do trabalho, nas sociedades industrializadas. Da reflexo
sobre o trabalho certamente podem vir algumas novas luzes sobre um novo
amanhecer. Para isto, ainda  fundamental conhecermos as metamorfoses
sociais que adentram o trabalho e, transcendendo a crtica, sabermos
eleger a forma de sociedade em que queremos viver. 61 Quadro 2 MUDANAS
PROFISSIONAIS NO CAPITALISMO poca, Carro-Chefe/Instrumento de
Trabalho/Relao de Produo/Relao de Trabalho 1549, EXTRAO DE
PAU-BRASIL, CANA DE ACAR/Foice, enxada, Arado, p, Bigorna, Serrote,
Malho, pua, Martelo,pena/Escravismo Colonial/Escravista/Serradores,
administradores de engenhos e de fazendas, pastores, agricultores,
ofcios, domsticos, artes e ofcios singulares, escultores,
estaturios, pintores, douradores, cantores, msicos, regentes de coros,
acendedores de lampio, caadores de ndios e escravos,carroceiros 1780,
INDSTRIA TEXTIL/Mquina de fiar,Tear mecnico, Ferrovia, Descaroador
de algodo/Produo fabril, Trabalho Assalariado/Semi-artesanal,
Qualificao, "poroso", Pesado, Insalubre/Teceles, urdideiras, mestres
de teares, costureiras, chefe de manuteno, montadores de mquinas,
contra-mestres, apontadores-mensageiros, caldeiros, torneiros mecnico,
telegrafistas, faturistas, calculistas de fretes, operadores de mquina
a vapor, arquitetos, mestres-de-obras, pedreiros, canteiros,
marmoreiros, carpinteiros, entalhadores, embutidores, marceneiros,
tanoeiros, serradores, construtores navais, ferreiros, serralheiros,
fundidores, oleiros, chapeleiros, sapateiros, alfaiates, bordadores,
artfices de sola, curtidores de pele, administradores de engenhos e
fazendas, pastores, agricultores, procuradores, enfermeiros, cirurgies,
mestres de meninos, diretores de congregao, bibliotecrios,
encadernadores, tipgrafos, impressores, pilotos, barbeiros,
cabeleireiros, ofcios domsticos, e artes e ofcios singulares,
escultores, estaturios, pintores, douradores, cantores, msicos,
regentes de coro, oleiros, barristas 1913, INDSTRIA
AUTOMOBILSTICA/Eletricidade, Ao, Eletromecnica, Motor a exploso,
Petrleo, Petroqumica/Produo em Srie, Linha de montagem, Rigidez,
Especializao, Separao, Gerncia-execuo/Especializao,
Fragmentado, No qualificado, Intenso, Rotineiro, Insalubre,
Hierarquizado/ Ferrovirios, polidores de metais, ferramenteiros,
serralheiros, soldadores, rebitadores e montadores  de estruturas
metlicas, prensistas e macheteiros,  inspetores de qualidade,
almoxarifes, ajustadores  mecnicos, fundidores manuais, chumbistas,
motomeiros, mecnicos de motores de exploso,  entalhadores de mveis,
tipgrafos,  encadernadores, chapeleiros, alfaiates, costureiras,
sapateiros, bibliotecrios, barbeiros, cabeleireiros,  agricultores,
procuradores, vendedores 1975, INDSTRIA AUTOMOBILSTICA E
ELETRNICA/Informtica, Mquinas CNC, Robs, Sistemas integrados,
Telecomunicaes, Novos materiais, Biotecnologia/Produo flexvel, Ilha
de Montagem, Just in time, Qualidade total, Integrao,
Gerncia-Execuo/Polivalente, Integrado, Em equipe, Intensssimo,
Flexvel, Estressante, Menos hierarquia/Engenheiros, administradores,
advogados, informtica, analistas de sistemas, tecnlogos,  odontlogos,
naturologia aplicada, farmacutico,  pedreiros, carpinteiros,
marceneiros, pintores  gerais, serventes, garons, cozinheiros 1975,
INDSTRIA AUTOMOBILSTICA E ELETRNICA/Informtica, Mquinas CNC, Robs,
Sistemas integrados, Telecomunicaes, Novos materiais,
Biotecnologia/Produo flexvel, Ilha de Montagem, Just in time,
Qualidade total, Integrao, Gerncia-Execuo/Polivalente, Integrado,
Em equipe, Intensssimo, Flexvel, Estressante, Menos hierarquia/
Engenheiros, administradores, advogados, procuradores, tcnicos em
mecatrnica, tecnlogos  em informtica, analistas de sistemas,
tecnlogos  em mercado, marketing, psiclogos,m  mdicos,enfermeiros,
odontlogos, naturologia  aplicada, farmacutico, nutricionistas,
cirurgies,  arquitetos, mestres-de-obras, pedreiros,  carpinteiros,
marceneiros, pintores, cantores,  msicos, cabeleireira, auxiliares de
servios  gerais, serventes, garons, cozinheiras, faxineiras,
acompanhantes de executivos, vendedores Fonte: Elaborao: Pesquisa
Profisses Emergentes em Santa Catarina/1998. Foram utilizadas fontes
diversificadas sendo as principais: Leite, S. Artes e ofcios dos
Jesutas no Brasil. Rio de Janeiro. Livros de Portugal, 1953. Jofilly,
B. Toyotismo e microele. Irnica. Revista de Fato. So Paulo, 1996.
Thompson, E.P. A formao da classe operria inglesa. So Paulo: Paz e
Tetra, 1987. 62 RESUMO A poca social e as mudanas profissionais
A anlise das profisses tem como pressuposto a percepo da poca
social que  permeada por determinadas necessidades e, conseqentemente,
pela busca da satisfao delas. Os profissionais da poca so
personagens sociais, inserem-se no tecido social de diversas maneiras,
uma delas  a profissional. Os novos profissionais surgem quando novas
necessidades sociais so criadas e, portanto, quando surge uma outra
poca social.         As profisses circunscrevem-se no quadro mais
geral do trabalho.  pergunta sobre o que  o trabalho, na atualidade,
responde-se de diversas formas e com muitos adjetivos. Sobre esta
indagao  fundamental que as respostas no se fundamentem na dicotomia
positiva ou negativa, pois o trabalho  expresso histrica da
realidade, em que os trabalhadores so alguns dos atores e autores dessa
obra. Progressivamente, o trabalho vem ocupando um lugar cada vez mais
importante, sobretudo nas sociedades industrializadas, onde vem se
tornando rarefeito. Os profissionais, na atualidade, encontram
dificuldades de insero profissional. Esta dificuldade no decorre de
incapacidade individual ou inadaptao. O que eles so e a forma como se
inserem profissionalmente dependem muito mais das condies histricas
do que de vontade, conscincia ou requalificao. Metamorfoses sociais e
extino de profisses         Na atualidade, as mudanas profissionais
so abundantes e elas espelham metamorfoses sociais. Tais metamorfoses
repercutem sobremaneira na atividade profissional, que imprime um
processo de extino de postos de trabalho e de profisses. Todavia,
elas nem sempre se realizam no mesmo ritmo e intensidade em todos os
lugares da face da terra. H transitoriedade e movimento. As
transformaes sociais transcendentes ao trabalho no sculo XX
explicam-se a partir das ondas largas das ordens conservadoras e de
inovao.         O processo de extino das profisses reflete no tempo
a presena de foras em movimento, evidenciando uma transio histrica.
Nesta destacam-se as metamorfoses sociais, nem tudo  inovao, nem tudo
 costume, h superposio, descontinuidade e bifurcaes. Este processo
em nada se assemelha ao desenrolar de uma histria linear, funda certas
profisses como imprescindveis e, num movimento subseqente,
destitui-as de qualquer sentido de necessidade. Esta  uma vertente
interessante para entender o movimento que torna o trabalho obsoleto. Ao
contrrio do que prope a teoria econmica, no h trabalho para todos.
A "revoluo" do trabalho sugere uma correlao com o tema do
desemprego. 63 QUESTES PARA DISCUSSO         1. Qual a lgica do
processo que extingue e dizima profissionais? Quem so, quantos so, de
onde eles vm, como chegaram ao ponto em que esto e o que vo se
tornar? 2. Quais as principais estratgias coletivas defensivas adotadas
pelos profissionais que esto em dificuldades de sobreviver na
atualidade? 3. Por que o desemprego  um problema sociolgico?
4. O que  possvel fazer para recolocar no jogo social os profissionais
invalidados e para estancar a hemorragia do desemprego que ameaa deixar
exangue todo corpo social? PARA LER MAIS ARRIGHI, G. O longo sculo XX.
So Paulo: UNESP/Contraponto, 1996. CASTEL, R. As metamorfoses da
questo social. Petrpolis: Vozes, 1998. HOBSBAWM, E. A era dos
extremos. So Paulo: Companhia das Letras, 1995. POLANYI, K. A grande
transformao. Rio de Janeiro: Campus, 1980. 64 Educao, tica e gnero
no toyotismo Clarilton Cardoso Ribas Temas Educao Trabalho Toyotismo
Introduo         Este final de sculo assiste, ao lado do aumento na
velocidade da circulao do capital, a uma progressiva desacumulao de
poder poltico das classes trabalhadoras. O agravamento do problema do
desemprego e o processo de institucionalizao do sindicalismo em escala
mundial, ainda que importantes, nos parecem (suficientes para explicar
as crescentes dificuldades enfrentadas pelas classes subalternas para a
construo de uma viso de mundo (Weltanschauung) que possa se contrapor
 avalanche liberal (face mais visvel da monumental crise capitalista)
e, com isso, liberar suas energias emancipatrias, na forma de um novo e
original projeto de sociedade.         Um exemplo bem acabado da
estagnao das potencialidades tico-histricas do  movimento dos
trabalhadores vem do Japo, pas onde se gestou um novo industrialismo1
(o toyotismo), que ensaia espraiar-se por todo o globo como a mais
recente verso apologtica do integracionismo de classes.         O
toyotiSMo2 elevou a nveis inauditos a extrao de trabalho, alavancando
o circuito de reproduo do capital a ponto de, em menos de 50 anos,
colocar um pas rigorosamente destroado pela guerra entre as trs
maiores economias do mundo. --- 1. Trata-se de uma categoria gramsciana
que enfeixa o conjunto de fenmenos vinculados a um projeto original de
dominao. A este respeito ver GRAMSCI, A. Maquiavel, a poltica e o
Estado moderno. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1989. 2. Aqui a
expresso deve ser compreendida para alm das inovaes tecnolgicas,
novas formas de gesto da fora de trabalho, "just-in-time", "kanban",
etc. No mbito deste ensaio, toyotismo remete a uma modalidade de
projeto de dominao, em larga medida exitoso, que se instala no Japo a
partir dos anos 50, aps enfrentamentos de classe muito agudos, que se
travam no pas no perodo ps-Segunda Grande Guerra. 65  Ao mesmo tempo,
concentrou em nveis igualmente inditos o poder estratgicos dos
trabalhadores imersos neste novo industrialismo, de onde deriva a grande
questo formulada originalmente por Humphrey:  "Como  possvel que os
operrios japoneses no utilizem o controle que tm sobre o trabalho
para alcanar objetivos diferentes daqueles fixados pela empresa?"
(Humphrey, J. Fazendo milagre: Controle capitalista e a luta operria na
indstria automobilstica brasileira. Petrpolis: Vozes/SEBRAPE, 1982,
p. 112).  Em outras palavras, qual a razo pela qual os operrios
daquele pas so incapazes de utilizar o enorme poder poltico potencial
concentrado em suas mos?; de onde vem esta incapacidade de pensar-se
como uma coletividade poltica capaz de pensar um projeto histrico
autnomo e original que conduza a uma forma superior de organizao da
sociedade?   A classe operria japonesa, no que possui de mais aparente,
parece ser dotada de uma subjetividade que remonta ao Japo feudal, cuja
a marca dominante  a ausncia de uma individualidade moral.   Sem
avanar propriamente em elementos tericos da psicologia social ou da
pedagogia, este texto pretende introduzir algumas chaves para
compreenso da subjetividade operria japonesa. E, mais especificamente,
no campo relacionado  poltica e  ideologia, na modalidade sofisticada
de educao para a obedincia, sobre o que se edificou a hegemonia
burguesa naquele pas.   Um dos argumentos centrais que sustentamos
neste ensaio  de que a construo de uma atitude original dos
trabalhadores japoneses em relao ao trabalho (um novo tipo de
trabalhador e de homem) possui uma influncia decisiva de uma espcie de
intelectual de tipo tradicional, segundo a acepo gramsciana. A questo
do intelectual ganha em Gramsci4 grande relevncia terica e destina-se
a contribuir para uma concepo adequada de seu papel no jogo das foras
sociais em disputa por projeto hegemnicos. No h como compreender a
teoria de transio desenvolvida por Gramsci sem ter em considerao o
papel central por ele atribudo a esses agentes.   A concepo
gramsciana de intelectual se fortalece a partir de sua anlise de uma
modalidade de transio concreta ao socialismo, a iniciativa
revolucionria de 1917, modalidade universalizante do processo histrico
de construo do socialismo. Gramsci vai se contrapr  verso
determinista desta transio pretendida pelo partido --- r o grande
movimento imigratrio para o Brasil (meados do sculo XIX), a energia
eltrica, em empreendimentos fabris,  conhecida nas principais cidades
europias. A energia eltrica , assim, o pressuposto e o resultado da
era fabril no Brasil.  pressuposto porque, sem ela, as fbricas dos
imigrantes no poderiam ser ativadas.  resultado porque a fbrica j
havia sido concebida em outros quadrantes do planeta. Quando o imigrante
alemo, lavrador e deputado estadual Peter Christian Feddersen sonhava
com a construo de uma usina de energia eltrica no Sul do Brasil, mais
propriamente em Blumenau (a primeira), ele tinha uma fbrica em sua
mente.         Uma forma histrica no se impe at que a anterior
esgote-se inteiramente. Alm disso, seguindo o pensamento de Marx, a
histria social dos homens no mais  do que a histria individual,
tenham eles ou no conscincia disto. Desta feita, o ser profissional
sintetiza uma histria social, uma trajetria de profissionalizao.
Para sobreviverem, estes personagens sociais lutam, o que significa
afirmar que essas lutas so histricas. Ferramenteiro, desenhista ou
costureira so aqui considerados questes humanas e nada do que  humano
 natural, mas histrico. Apreender seus movimentos  captar as foras
sociais que ,a ele se contrapem,  desvelar o significado do
profissional no cenrio em que este personagem social atua, visto que
ele no atua sozinho. Como sugere o dito popular "Quem foi Rei nunca
perde a majestade",  com dificuldade que os homens abrem mo de sua
existncia anterior, das ordens costumeiras. Mesmo quando j perderam a
corou, ainda assim lutam para conserva  r pelo menos a majestade. A ao
coletiva dos profissionais tambm  pautada pelo duplo movimento do
costume e da inovao.         Finalmente, penso algumas vezes que, se
tiver que deixar alguns vestgios neste mundo, ser muito mais por
aquilo que tiver escrito do que por ter feito. Alm do mais, hoje me
sinto em condies de escrever algo, mais do que h dez anos, quando
estava iniciando o doutoramento, momento que muitos entendem como o da
defesa de uma tese.         Durante estes ltimos anos, sempre que a
tranqilidade do engajamento social permitiu, delimitei este tema
contemporneo das profisses extintas, que, imagino, interessa queles
que tm a grandeza de buscar luzes sobre as coisas humanas. A extino
das profisses no  uma questo tcnica, seus elementos fundentes
circunscrevem-se ao mbito da relao social do trabalho, nas sociedades
industrializadas. Da reflexo sobre o trabalho certamente podem vir
algumas novas luzes sobre um novo amanhecer. Para isto, ainda 
fundamental conhecermos as metamorfoses sociais que adentram o trabalho
e, transcendendo a crtica, sabermos eleger a forma de sociedade em que
queremos viver. 61 Quadro 2 MUDANAS PROFISSIONAIS NO CAPITALISMO
Epoca        Instrumentos de        Relao de        Relao de
Carro-Chefe        Trabalho        Produo        Trabalho 1549
Foice, enxada, Arado,        Escravismo        Escravista
serradores, administredoms de engenhos e de         p, Bigorna,
serrote,        Colonial                fazendas, pastores,
agricultores, ofcios, domsticos, EXTRAO DE        Malho, pua,
Martelo,                        artes e ofcios singulares, escultores,
estatutim PAU-BRASIL,        pena                        pintores,
douradores, cantores, msicos, regentes de CANA-DE-ACAR
coros, acendedores de lampio, caadores de
ndios e escravos, carroceiro 1780        Mquina de fiar
Produo fabril        Semi-artesanal        teceles, urdideiras,
mestres de teares, costureiras,         Tear mecnico        Trabalho
Qualificao        chefe de manuteno, montadores de mquinas.
INDSTRIA . TX-        Ferrovia        Assalariado        "poroso"
contra-mestres, apontadores/merrsageiros, caldeiros, TIL
Descaroador de                Pesado        toureiros mecnico,
relegrafistas, fanrristas,         algodo                Insalubre
calculistas de fretes, operadores de mquina a
vapor, arquitetos, mestres-&-~, pedreiros,
canteiros, mamroreiros, carpinteiros, entaradores,
embutidores, marceneiros, tanoeiros, serradores,
construtores navais, ferreiros, serralheiros,
fundidores, oleiros, drapelaros, sapateiros, alfaiates,
bordadores, artfices de sola, atrtidores de pele,
administradores de engenhos e fazendas, pastores,
agricultores, procuradores, enfermeiros, cirurgies,
mestres de meninos, diretores de congregao,
bibliotecrios, encademadwes, tipgrafos,
irrptessores, pilotos, barbeiros, cabeleireiros, ofcios
domsticos, e artes e o6cios singulares, escultores,
estaturios, pintores, douradores, cantores,
msicos, regentes de coro, oleiros, barristas 1913        Eletricidade
Produo em                ferrovirios, polidores de metais,
ferrarrenteiros, Ao        srie        Especializao
serralheiros, soldadores, rebitadores e montadores INDSTRIA AU-
Eletromecnica        Linha de        Fragmentado        de estrumais
rretlicas, prrrisistas e madreteros, TOMOBILSTICA        Motor a
exploso        montagem        No qualificado        irde qualidade,
almoxarifes, ajustadores         Petrleo        Rigidez        Intenso
rrernm furrrbdores rroruais, dxa, motortrertos,         Petroqumica
Especializao        Rotineiro        rtectricos de nrorores de
exploso, artalradaes de                 Separao        Insalubre
mveis, tipgrafas, encadatradores, dtapeleiros,
Gerncia-execuo        Hierarquizado        alfaias, o~ sapa~ h~~
barbeiros                                 cabeleireiros, agricultores,
poauadaes, vendedores 1975        Informtica        Produo flexvel
Polivalente        engenheiros, administradores, advogados, INDSTRIA
AU-        Mquinas CNC        Ilha de Montagem        Integrado
informtica, analistas de sistemas, tecnlogos, TOMOBILfSTICA
Robs        Just in time        Em equipe        odontlogos,
naturologia aplicada, farmacutico, E ELETRNICA        Sistemas
Integrados        Qualidade total        Intensssimo        pedreiros,
carpinteiros, marceneiros, pintores         Telecomunicaes
Integrao        Flexvel        gerais, serventes, garons,
cozinheiras         Novos materiais        Gerncia-execuo
Estressante         Biotecnologia                Menos hierarquia 1975
Informtica Mquinas        Produo flexvel        Polivalente
engenheiros, administradores, advogados,         CNC        Ilha de
montagem        Integrado        procuradores, tcnicos em mecatrnica,
tecnlogos INDSTRIA AU-        Robs        Just in rime        Em
equipe        em informtica, analistas de sistemas, tecnlogos
TOMOBILSTICA        Sistemas integrados        Qualidade total
Intensssimo        em mercado, mariceting, psiclogos, mdicos, E
ELETRNICA        Telecomunicaes        Integrao        Flexvel
enfermeiros, odorlogos, raturologia aplicada,         Novos materiais
Gerncia-execuo        Estressante        fartracutioos,
nutricionsras, nages, arquitetos,         Biotecnologia
Menos        rtrstrmsde-obras, padrros, carpinteiros, mar~
hierarquia        pintores, cantores, msicos, cabeleireira, auxiliares
de                                 servios gerais, serventes, garons,
cozinheiras,                                 faxineiras, acompanhantes
de executivos,                                 vendedores Fonte:
Elaborao: Pesquisa Profisses Emergentes em Santa Catarina/1998. Foram
utilizadas fontes diversificadas sendo as principais: Leite, S. Arles e
ofcios dos Jesutas no Brasil. Rio de Janeiro. Livros de Portugal,
1953. Jofilly, B. Toyotismo e microeletrnica. Revista de Fato. So
Paulo, 1996. Thompson, E.P. A formao da classe operria inglesa. So
Paulo: Paz e Terra, 1987. 62 RESUMO A poca social e as mudanas
profissionais         A anlise das profisses tem como pressuposto a
percepo da poca social que  permeada por determinadas necessidades
e, conseqentemente, pela busca da satisfao delas. Os profissionais da
poca so personagens sociais, inserem-se no tecido social de diversas
maneiras, uma delas  a profissional. Os novos profissionais surgem
quando novas necessidades sociais so criadas e, portanto, quando surge
uma outra poca social.         As profisses circunscrevem-se no quadro
mais geral do trabalho.  pergunta sobre o que  o trabalho, na
atualidade, responde-se de diversas formas e com muitos adjetivos. Sobre
esta indagao  fundamental que as respostas no se fundamentem na
dicotomia positiva ou negativa, pois o trabalho  expresso histrica da
realidade, em que os trabalhadores so alguns dos atores e autores dessa
obra. Progressivamente, o trabalho vem ocupando um lugar cada vez mais
importante, sobretudo nas sociedades industrializadas, onde vem se
tornando rarefeito. Os profissionais, na atualidade, encontram
dificuldades de insero profissional. Esta dificuldade no decorre de
incapacidade individual ou inadaptao. O que eles so e a forma como se
inserem profissionalmente dependem muito mais das condies histricas
do que de vontade, conscincia ou requalificao. Metamorfoses sociais e
extino de profisses         Na atualidade, as mudanas profissionais
so abundantes e elas espelham metamorfoses sociais. Tais metamorfoses
repercutem sobremaneira na atividade profissional, que imprime um
processo de extino de postos de trabalho e de profisses. Todavia,
elas nem sempre se realizam no mesmo ritmo e intensidade em todos os
lugares da face da terra. H transitoriedade e movimento. As
transformaes sociais transcendentes ao trabalho no sculo XX
explicam-se a partir das ondas largas das ordens conservadoras e de
inovao.         O processo de extino das procisses reflete no tempo
a presena de foras em movimento, evidenciando uma transio histrica.
Nesta destacam-se as metamorfoses sociais, nem tudo  inovao, nem tudo
 costume, h superposio, descontinuidade e bifurcaes. Este processo
em nada se assemelha ao desenrolar de uma histria linear, funda certas
profisses como imprescindveis e. num movimento subseqente,
destitui-as de qualquer sentido de necessidade. Esta  uma vertente
interessante para entender o movimento que torna o trabalho obsoleto. Ao
contrrio do que prope a teoria econmica, no h trabalho para todos.
A "revoluo" do trabalho sugere uma correlao com o tema do
desemprego. 63                 QUESTES PARA DISCUSSO         1. Qual a
lgica do processo que extingue e dizima profissionais? Quem so,
quantos so, de onde eles vm, como chegaram ao ponto em que esto e o
que vo se tornar?                        f         2. Quais as
principais estratgias coletivas defensivas adotadas pelos profissio
nais que esto em dificuldades de sobreviver na atualidade?         3.
Por que o desemprego  um problema sociolgico?         4. O que 
possvel fazer para recolocar no jogo social os profissionais invalida
dos e para estancar a hemorragia do desemprego que ameaa deixar exangue
todo corpo social?                         PARA LER MAIS ARRIGHI, G. O
longo sculo XX. So Paulo: UNESP/Contraponto, 1996. CASTEL, R. As
metamorfoses da questo social. Petrpolis: Vozes, 1998. HOBSBAWM, E. A
era dos extremos. So Paulo: Companhia das Letras, 1995. POLANYI, K. A
grande transformao. Rio de Janeiro: Campus, 1980. 64 Educao, tica e
gnero no toyotismo Clarilton Cardoso Ribas Temas Educao Trabalho
Toyotismo Introduo         Este final de sculo assiste, ao lado do
aumento na velocidade da circulao do capital, a uma progressiva
desacumulao de poder poltico das classes trabalhadoras. O agravamento
do problema do desemprego e o processo de institucionalizao do
sindicalismo em escala mundial, ainda que importantes, nos parecem
insuficientes para explicar as crescentes dificuldades enfrentadas pelas
classes subalternas para a construo de uma viso de mundo
(Weltanschauung) que possa se contrapor  avalanche liberal (face mais
visvel da monumental crise capitalista) e, com isso, liberar suas
energias emancipatrias, na forma de um novo e original projeto de
sociedade.         Um exemplo bem acabado da estagnao das
potencialidades tico-histricas do movimento dos trabalhadores vem do
Japo, pas onde se gestou um novo industrialismo' (o toyotismo), que
ensaia espraiar-se por todo o globo como a mais recente verso
apologtica do integracionismo de classes. '        O toyotiSM02 elevou
a nveis inauditos a extrao de trabalho, alavancando 0 circuito de
reproduo do capital a ponto de, em menos de 50 anos, colocar um pas
rigorosamente destroado pela guerra entre as trs maiores economias do
mundo. 1. Trata-se de uma categoria gramsciana que enfeixa o conjunto de
fenmenos vinculados a um projeto original de dominao. A este respeito
ver GRAMSCI, A. Maquiavef, a poltica e o Estado moderno. Rio de
Janeiro: Civilizao Brasileira, 1989. 2. Aqui a expresso deve ser
compreendida para alm das inovaes tecnolgicas, novas formas de
gesto da fora de trabalho, `just-in-time", "kanban", etc. No mbito
deste ensaio, toyotismo remete a uma modalidade de projeto de dominao,
em larga medida exitoso, que se instala no Japo a partir dos anos 50,
aps enfrentamentos de classe muito agudos, que se travam no pas no
perodo ps-Segunda Grande Guerra. 65 Ao mesmo tempo, concentrou em
nveis igualmente inditos o poder estratgico dos trabalhadores imersos
neste novo industrialismo, de onde deriva a grande ques to formulada
originalmente por Humphrey:                 Como  possvel que os
operrios japoneses no utilizem o controle que tm sobre o trabalho
para alcanar objetivos diferentes daqueles fixados pela empresa?3
Em outras palavras, qual a razo pela qual os operrios daquele pas so
incapa zes de utilizar o enorme poder poltico potencial concentrado em
suas mos?; de onde vem esta incapacidade de pensar-se como uma
coletividade poltica capaz de pensar um projeto histrico autnomo e
original que conduza a uma forma superior de organizao da sociedade? '
A classe operria japonesa, no que possui de mais aparente, parece ser
dotada de uma subjetividade que remonta ao Japo feudal, cuja marca
dominante  a au sncia de uma individualidade moral.         Sem
avanar propriamente em elementos tericos da psicologia social ou da pe
dagogia, este texto pretende introduzir algumas chaves para a
compreenso da sob- t jetividade operria japonesa. E, mais
especificamente, no campo relacionado  c poltica e  ideologia, na
modalidade sofisticada de educao para a obedincia, so- d bre o que se
edificou a hegemonia burguesa naquele pas. d         Um dos argumentos
centrais que sustentamos neste ensaio  o de que a constru- n' o de
uma atitude original dos trabalhadores japoneses em relao ao trabalho
(um ri. novo tipo de trabalhador e de homem) possui uma influncia
decisiva de uma esp cie de intelectual de tipo tradicional, segundo a
acepo gramsciana. A questo do intelectual ganha em Gramsci4 grande
relevncia terica e destina-se a contribuir para uma compreenso
adequada de seu papel no jogo das foras sociais em disputa por projetos
hegemnicos. No h como compreender a teoria de transio desen volvida
por Gramsci sem ter em considerao o papel central por ele atribudo a
es- sei ses agentes. tale                         lec         A
concepo gramsciana de intelectual se fortalece a partir de sua anlise
de                         gra uma modalidade de transio concreta ao
socialismo, a iniciativa revolucionria de 1917, modalidade
universalizante do processo histrico de construo do socialismo.
Gramsci vai se contrapor  verso determinista desta transio
pretendida pelo partido --- 3. HUMPHREY, J. Fazendo milagre: controle
capitalista e a luta operria na indstria automobilstica brasileira,
Petrpolis: Vozes/Sebrape. 1982, p. 112. 4. Antonio GRAMSCI, marxista
italiano da primeira metade do sculo XX, autor de um notvel
refinamento autntico de categorias marxistas, cuja, grande contribuio
est contida nos "Quadenti del cancere", textos polticos escritos
durante os longos anos em que esteve encarcerado pelo fascismo. 66
Bolchevique. Uma contraposio que, por certo, no nega o acerto da
estratgia adotada pela vanguarda bolchevique, mas vai alm, ao
pretender (e conseguir) dotar o marxismo e a luta socialista de uma nova
contextualidade histrica, consideradas as especificidades que o
capitalismo assumia no Ocidente, notadamente aps a Primeira Guerra.
Da advm a originalidade do aporte gramsciano: sem nenhum descompasso
com as determinaes fundamentais do marxismo, seus estudos permitem
pensar uma teoria da transio temporal e geograficamente compatvel com
as formas adquiridas pelo capitalismo neste sculo, dotando o marxismo
de uma atualizao indispensvel, tanto para a compreenso da sociedade
e da histria neste final de sculo, quanto para sua transformao.
Gramsci e os intelectuais         Gramsci realiza uma anlise original
sobre os intelectuais. Na articulao da cultura, substrato da
organizao de toda a sociedade, o marxista italiano procede a uma
ruptura radical com as concepes anteriores a respeito do papel
atribudo a estes agentes sociais. Sua primeira preocupao  a de
realizar uma espcie de dessacralizao da figura do intelectual, at
ento tido e havido como um sujeito dotado de atributos de inteligncia
e destreza mental incomuns, capaz de interpretar o mundo e a histria a
partir de uma posio privilegiada e, principalmente, isolada. O
marxista italiano refuta com vigor a idia do intelectual como o homem
de letras, o filsofo, o produtor de um pensamento "puro", desvinculado
das relaes sociais. Nenhum "critrio interno" s atividades dos
intelectuais basta para defini-los. Abordados a partir do seu ser
social, de seu lugar nas relaes de produo, os intelectuais situam-se
em uma certa diviso do trabalho, exercem funes.5         Para o
marxista italiano, todo o homem  um intelectual: "[...] non si pu
separare l'homo faber dal'homo-sapiens"6. Por esta afirmativa, Gramsci
est estabelecendo um novo e original princpio segundo o qual "no
existem no-intelectuais". O que na verdade ocorre no plano das relaes
de produo  uma grande variao nos graus de combinao entre
atividade manual, ou muscular nervosa, e atividade cerebral. Quando se
faz a distino entre intelectuais e no-intelectuais, na realidade, se
est fazendo referncia  imediata funo social da categoria dos
intelectuais, --- 5. GRAMSCI, A. Quaderni de! cancere. Edizione Critica
dei Istituto Gramsci, Tomos I a IV. Itlia: Einaudi, 1977, p. 47. 6.
GRAMSCI, A. Quaderui del cancere. Edizione Critica dei Istituto Gramsci,
Tomos I a IV. Itlia: Einaudi, 1977, p. 1550. 67 isto , se leva em
considerao o sentido no qual joga seu maior peso na atividade
profissional especfica, seja na elaborao intelectual, seja no esforo
fsico-nervoso. Isso significa que se se pode falar de intelectuais, no
se pode falar de no-intelectuais, porque no-intelectuais no existem.7
A diferena, assegura Gramsci,  que nem todos os homens possuem na
sociedade especificamente a funo de intelectual .8 O marxista italiano
rompe, portanto, com a perspectiva de conceber o intelectual como um ser
privilegiado, cuja nica ocupao  abstratamente pensar o mundo.
Evidentemente, isto constitui um refinamento analtico de conseqncias
importantes  interpretao da histria, da economia, das classes
sociais e da luta entre estas classes.         O autor avana, ainda, na
distino entre os intelectuais, sugerindo a noo de "camadas de
intelectuais", cuja funo  a de conferir homogeneidade das formas de
pensar e conceber o mundo a uma determinada classe fundamental,
distino segundo a qual o autor entende os intelectuais primeiramente
como rurais ou urbanos e, ainda, entre intelectuais de tipo tradicional
e o intelectual orgnico.         Os intelectuais de tipo rural, em sua
maior parte "tradicionais", so ligados  massa social camponesa e
pequeno-burguesa das cidades (notadamente nos centros menores), ainda
no elaborada e movimentada pelo sistema capitalista.9 , portanto, o
elemento que faz a mediao entre as massas camponesas e os servios
urbanos, ligados  administrao local ou estatal. [...] e, por esta
mesma funo, possui uma grande funo poltico-social, j que a
mediao profissional dificilmente se separa da mediao poltica. [...]
possui um padro mdio de vida superior, ou, pelo menos, diverso daquele
do mdio campons e representa, por isso, para o campons, um modelo
social na aspirao de sair de sua condio e melhor-la. O campons
acredita sempre que pelo menos um de seus filhos pode-se tornar um
intelectual, notadamente padre, isto , tornar-se um senhor, elevando o
nvel social da famlia e facilitando sua vida econmica pelas ligaes
que no poder deixar de estabelecer com outros senhores.10 --- 7.
GRAMSCI, A. Quaderni del carcere. Edizione Critica del Istituto Gramsci,
Tomos I a IV. Itlia: Einaudi, 1977, p. 1551. 8. Em mais uma de suas
finas alegorias, estabelece: "Do mesmo modo, o fato de que algum possa,
em determinado momento, fritar dois ovos ou costurar um buraco no palet
no quer dizer que todo mundo seja alfaiate ou cozinheiro". In: GRAMSCI,
A. Os intelectuais e a organizao da cultura. Rio de Janeiro:
Civilizao Brasileira, 1991, p. 7. 9. GRAMSCI, A. Os intelectuais e a
organizao da cultura. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1991, p.
13. 10. GRAMSCI, A. Os intelectuais e a organizao da cultura. Rio de
Janeiro: Civilizao Brasileira, 199,. p. 13. 68         Ainda segundo
Gramsci, o tradicional seria aquele tipo de intelectual que forma uma
camada preexistente de representantes de uma certa continuidade da
histria e possui uma funo decisiva na construo da hegemonia social.
So dotados de grande prestgio auferido pela instituio de que so
representantes, sendo seus exemplos mais claros os eclesisticos e os
militares.         J o intelectual de tipo urbano, nascido com a
indstria moderna e "ligado  sua sorte", apresenta diferentes
gradaes. Num plano hierrquico mais elevado, "devem-se colocar os
criadores das vrias cincias, da filosofia, da arte, etc., no plano
mais baixo, os mais humildes "administradores" e divulgadores da riqueza
intelectual existente, tradicional, acumulada".11 Gramsci faz uma
comparao da hierarquizao existente entre estes intelectuais com
aquela presente nos organismos militares, na qual existe uma
oficialidade superior, outra subalterna. Relativamente aos intelectuais
de mais baixo posto, o autor assegura: Sua funo pode ser comparada 
dos oficiais subalternos no exrcito; no possuem nenhuma iniciativa
autnoma na elaborao dos planos de construo: colocam em relao,
articulando-a, a massa instrumental com o empresrio. 12
Exercem, portanto, o papel de supervisores do processo produtivo
imediato, garantindo que um plano de produo seja executado
estritamente segundo um planejamento previamente realizado pelo alto
comando da empresa.         J o intelectual orgnico  designado por
Gramsci como aquela categoria cuja principal caracterstica  a de estar
vinculada ideologicamente a uma classe fundamental, tendencialmente
hegemnica no modo de produo capitalista, seja a burguesia, seja o
proletariado.         Este intelectual, alm de atuar como controlador
do processo de produo no plano hierrquico superior, tambm, e
principalmente, tem a funo de "persuasor permanente", de divulgador e
defensor de uma concepo de mundo particular. Por esta razo, os que se
destacam nesta funo so em geral distinguidos pelos empresrios na
forma de maior prestgio, poder de mando e melhores ganhos materiais.
Para tanto, no existe a precondio deste indivduo de ser dotado de
qualidades extraordinrias ou dons especiais: seu trabalho exige apenas
sua profunda convico sobre os limites de mundo e da histria (segundo
as necessidades polticas da classe fundamental dominante) e seu empenho
diuturno na divulgao deste iderio junto s "massas instrumentais",
conferindo-lhe homogeneidade na atualizao quotidiana e permanente
desta racionalidade. --- 11. GRAMSCI, A. Os intelectuais e a organizao
da cultura. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1991, p. 11. 12.
GRAMSCI, A. Os intelectuais e a organizao da cultura. Rio de Janeiro:
Civilizao Brasileira, 1991, p. 11. 69 No mundo moderno, a categoria
dos intelectuais, assim entendida, se ampliou de modo inaudito. Foram
elaboradas, pelo sistema social democrtico burgus, imponentes massas
de intelectuais, nem todas justificadas pelas necessidades sociais da
produo, ainda que justificadas pelas necessidades polticas do grupo
fundamental dominante.         Assim, os intelectuais, na condio de
"comissrios do grupo dominante", possuem uma relao de organicidade em
relao a um projeto hegemnico, tanto no plano do processo produtivo
imediato, como no plano das aes hegemnicas mais amplas que organizam
a vida estatal em torno deste projeto. A moral samuraica como substrato
de um projeto de dominao         A construo do toyotismo (um novo
nexo psicofsico)14 no poderia ter sido dada sem o concurso de um tipo
de intelectual culturalmente especfico daquele pas: um intelectual
originariamente de tipo rural e tradicional que, com o passar do tempo e
com a destruio da institucionalidade que o comportava e reproduzia,
metamorfoseou-se em um intelectual de tipo urbano e orgnico,
fundamental para a "construo da obedincia", 15 pedra angular desta
modalidade de produo de mercadoria e de articulao de sociedade: o
samurai.         Objetivando dar inteligibilidade a esta argumentao, 
necessrio fazer uma breve recuperao da trajetria histrica do papel
exercido por este tipo de intelectual, desde suas funes exclusivamente
militares at o seu papel atual de intelectual orgnico das classes
dominantes daquele pas. Trata-se de um fenmeno historicamente
singular, que, a partir de uma fuso analtica dos dois tipos de
intelectuais, nos d uma viso aproximada da atualidade e pertinncia do
aporte analtico gramsciano ao estudo da sociedade, da poltica e da
histria. Segundo Gramsci, Os intelectuais do velho tipo eram o elemento
organizador de uma sociedade de base essencialmente camponesa e
artesanal: para organizar o Estado, para organizar o comrcio, a classe
dominante produziu um tipo particular de intelectual. A indstria
produziu um novo tipo de intelectual: o quadro tcnico, o especialista
da cincia aplicada. Na sociedade onde as foras econmicas se
desenvolveram em um sentido capitalista a ponto de absorver a maior
parte da atividade nacional, prevaleceu o segundo tipo de intelectual,
com todas as suas caractersticas de ordem e disciplina intelectual, 16
--- 13. GRAMSCI, A. Os intelectuais e a organizao da cultura. Rio de
Janeiro: Civilizao Brasileira, 1991, p. 12. 14. Ver a este respeito o
texto Americanismo e Fordismo. In: GRAMSCI, A. Maquiavel, a poltica e o
Estado modemo. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1989. 15.
Expresso cunhada por LIMA, E. A construo da obedincia (Tese de
Mestrado). Campinas, UNICAMP, 1996. 16. La Construzione dei Partito
Comunista, op. cit., p. 151, apud GLUCKSMANN, C.B. Granuci e o Estado.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980, p. 44. 70         O que sustentamos 
que o capitalismo japons, desenvolvido sob um "invlucro
burocrtico-feudal" - segundo o prprio Gramsci -, contou com o concurso
fundamental no apenas de um tipo de intelectual (o quadro tcnico) que
substitui e prevalece em relao ao outro (o tradicional), mas de um
intelectual de tipo tradicional e rural que, ante as exigncias
estabelecidas por um dado projeto de classe, metamorfoseia-se, para
assumir as funes do intelectual urbano e orgnico da classe burguesa
japonesa, sem, no entanto, se desvestir, completamente, de valores, de
atitudes, de um quadro mental remanescente da institucionalidade
anterior. O saburau         O nome samurai deriva do verbo "saburau ",
originalmente servir, seguir o senhor, acompanhar o senhor para
servi-lo"." A origem histrica dos samurais  bastante remota, no
entanto o registro de seu aparecimento se d no sculo XII, quando os
samurais ocupam importantes posies de poder poltico no Japo por
ocasio da instaurao do shogunato no Pas, forma de governo que
perdurar por cerca de sete sculos, at quando, em 1868, ocorre a
Revoluo Meiji, que restaura o poder imperial e abre caminho para o
capitalismo no Japo ainda feudal.         Os sanlurais compem, ao
longo deste perodo, uma espcie de aristocracia militar diretamente
vinculada ao poder central e com um amplo espectro de prerrogativas
civis, econmicas, judicirias, etc., numa relao com os subordinados
(lavradores controlados por um samurai) do tipo senhor-dependente ou
soberano-subordinado, segundo a qual o conjunto das prerrogativas do
samurai estende-se desde tributar o campesinato pertencente  sua
jurisdio at o direito exclusivo desta classe ao "kirisute gomen ", ou
seja, direito de passar  espada um subordinado pela razo que o prprio
samurai julgasse compatvel em relao  atitude de no-conformidade do
campons.         O carter guerreiro do samurai  forjado em meio a
seculares disputas militares por propriedades de tipo feudal que
revolviam violentamente aquele pas, pelo menos at o incio do sculo
XVII, incio do shogunato Tokugawa, quando, ento, se inicia uma poca
de certa paz duradoura, com a unificao do Pas.         No existe um
cdigo tico escrito relativamente aos valores partilhados por esta
aristocracia militar. No entanto, existe uma espcie de cdigo
consuetudinrio, que se estende ao longo de sculos, cujos efeitos podem
ser sentidos at os dias atuais. Sabe-se que sua moral  fortemente
influenciada pelo shintosmo, religio autctone, como tambm pelo
budismo e pelo confucionismo. --- 17. YAMASHIRO, J. Histria dos
samurais. So Paulo: Massao Ohno-Roswitha Kempf, 1982. Texto bastante
denso sobre a histria dos samurais desde o seu aparecimento. As
informaes histricas desta parte do trabalho so devidas basicamente a
este autor. 71         Este conjunto de tradies religiosas possui uma
identidade fundamental, que  o apego e a valorizao da harmonia, de
uma certa venerao  tradio e de reverncia s geraes precedentes,
havendo entre estes valores uma relao de complementaridade. Em outras
palavras, o trao comum  religiosidade do nipnico  a conservao e a
valorizao do passado.         Muito embora no exista de forma
codificada uma srie de preceitos ticos a serem seguidos pela moral
samuraica, h um conjunto de valores transmitidos pela tradio
denominado "bushid ", ou o caminho tico do samurai, que funciona como
um cdigo de honra, cujos princpios centrais so:                 a)
considerar cada dia como o ltimo da vida e consagr-lo ao amo;
b) a dedicao total ao amo evita qualquer possibilidade de erro;
c) a busca de uma morte condigna, como valor supremo a ser alcanado: em
caso de dvida na opo entre viver ou morrer, morrer;
d) se morrer por erro de clculo, sua morte ser intil ou insensata: no
entanto, continuar digno,18 sua morte ser digna de um samurai;
e) estar sempre preparado para romper a frente inimiga sozinho, em
qualquer                 circunstncia;                 f) vencer quer
dizer vitria sobre si mesmo; e                 g) pensar
incessantemente no bem do seu amo.19         O elemento nuclear desta
concepo de cultura parece mesmo ser a inteira submisso ao superior,
ainda que isto signifique a abdicao da prpria vida. Vrios so os
relatos de suicdios, "haraquiri", feitos por samurais, relacionados ao
simples fato de ter ocorrido a morte de seu amo ou superior. 20
Este culto incondicional ao superior, em geral, e ao imperador, em
particular, compe um trao da cultura samuraica, reforado e atualizado
por tradies religiosas de carter oficial, constituindo-se num
fenmeno poltico com evidente atualidade histrica, a residindo um
nexo central da formao da cultura popular.21 Esta tradio, que
envolve numa medida importante a vida do Pas, acaba se transfor- ---
18. Esta expresso  de extraordinria freqncia na descrio da
conduta do samurai e parece concentrar toda a essncia de sua
moralidade. 19. YAMASHIRO, J. Histria dos samurais. So Paulo: Massao
Ohno/Corte7/UFSC, 1995, p. 256s. 20. Um caso exemplar ocorre em 1912. O
general Nogi, figura proeminente do governo, comete o "haraquiri" em
virtude da morte do Meiji Termo, imperador japons desde 1868. Diante
disto, sua esposa tambm se suicida com uma punhalada; so dois modelos
de dedicao total ao imperador que at hoje so exemplo para aulas de
moral e civismo no Japo (YAMASHIRO,1. Histria dos samurais. So Paulo:
Massao Ohno/CortezlUFSC, 1995, p. 235). 21. Nas manifestaes artsticas
japonesas  muito freqente a figura do samurai, quer seja nas artes
plsticas, quer na literatura ou no teatro, onde so recorrentes as
narrativas de seus feitos hericos, sua dedicao ao soberano e, no
raro, seu suicdio. 72 mando em um componente significativo para o
estabelecimento do monoplio da direo cultural e, por extenso, da
hegemonia.         No  por outra razo que Gramsci, ainda no incio
dos anos 30, chamava ateno para a curiosa formao religiosa do povo
japons, da derivando um conjunto e conseqncias para a organizao da
cultura deste povo. Gramsci considera novel o fato de uma religio de
tipo "naturista", ou de divinizao de elementos da natureza, continuar
tendo vigncia em um pas moderno, uma vez que os deuses sol, Cu, gua,
etc., elementos centrais da religiosidade na Grcia Antiga, no Egito, na
Babilnia, h sculos foram substitudos, dando passagem a formas
religiosas mais elaboradas, em geral de carter monotesta. Duas razes
contriburam para esta continuidade: o relativo isolamento do Japo
durante vrios sculos e a quase ausncia do cristianismo que, mesmo
tendo sido introduzido no Japo em 1549 pelos jesutas, teve uma vida
muito curta devido  brutal represso que sofreu o Pas no incio do
sculo XVII. Neste perodo houve uma violenta perseguio aos seus
seguidores, o que determinou a morte de aproximadamente 280.000 cristos
em pouco menos de 20 anos, entre 1614 e 1635.22 Mesmo tendo havido uma
nova tentativa de ressurgimento atravs de misses protestantes e
catlicas no sculo XIX, a tradio religiosa de origem crist "no teve
grande importncia no conjunto".23         Assim, a tradio samuraica
vai sendo forjada a partir de uma religiosidade oriental, tendo o
soberano como centro, o que leva Gramsci ao ncleo da questo que
envolve a construo da cultura no Japo: A convico de que a
autoridade e a soberania no esto colocadas na pessoa do imperador, mas
no povo, conduz a uma verdadeira reforma intelectual e moral,
correspondente ao que ocorreu na Europa graas ao Iluminismo e 
filosofia clssica alem, conduzindo o povo japons ao nvel de sua
moderna estrutura econmica e subtraindo-o  influncia poltica e
religiosa dos bares e da burocracia feudal. 24         Esta relao que
estamos estabelecendo entre a cultura samuraica e a religiosidade leva
em conta o fato de que a histria dos partidos, ou das correntes
polticas, no pode ser compreendida isoladamente em relao a grupos e
tradies religiosas (Gramsci) ou, em outras palavras, No
desenvolvimento de uma classe nacional, ao lado de sua formao no
terreno econmico, deve-se levar em conta o desenvolvimento paralelo nos
terrenos ideolgico, jurdico, religioso, intelectual, filosfico:
alis, deve-se dizer --- 22. YAMASHIRO, J. Histria dos samurais. So
Paulo: Massao Ohno/CortezIUFSC, 1995, p. 186. 23. GRAMSCI, A. Os
intelectuais e a organizao da cultura. Rio de Janeiro: Civilizao
Brasileira, 1991, p. 111. 24. GRAMSCI, A. Os intelectuais e a
organizao da cultura. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1991, p.
111. 73 que no existe desenvolvimento no campo econmico sem esses
outros desenvolvimentos paralelos. 25         Como mencionamos acima, a
tradio dos samurais se mantm preservada com o nascimento do
capitalismo japons (fim do sculo XIX), muito embora assuma formas
compatveis com a construo de uma sociedade industrial moderna. A
tradio  preservada e os samurais, de um lado, passam a exercer
funes importantes no aparelho burocrtico estatal ,26 liderando as
grandes transformaes em curso e, de outro, vo tambm sendo
incorporados  produo de mercadorias sob o capitalismo nascente, em
geral na forma de dirigente industrial para aquele estrato que conseguiu
entesourar maiores fortunas no perodo precedente ou, ento, na forma de
detentores de cargo superior no interior das indstrias. Educao e
gnero como reprodutores de uma tica         Evidentemente, nos limites
deste ensaio no se poderia esgotar uma temtica por si s to complexa,
principalmente levando-se em conta a extraordinria complexidade e
sofisticao de um projeto hegemnico original, construdo na base de
uma sociedade oriental, portadora de hbitos, costumes, cultura, enfim,
que muito se distancia do que se observa no Ocidente. Trata-se,
portanto, de notas que visam a uma aproximao  problemtica, na
direo de suscitar o debate sobre o tipo qualitativamente diferente de
relao que tem o operrio japons com a empresa, junto a uma
valorizao excessiva do ato de trabalhar.         Esta forma de
inserir-se no mundo do trabalho, sustentamos, no seria possvel sem o
aporte de uma nova subjetividade original, que se consolida no processo
educacional (seja o formal, seja o familiar), solidamente calcada em
valores da tradio, claramente patriarcais, o que, no mundo da
produo, vai se traduzir por uma rgida diviso sexual do trabalho,
como argumentamos a seguir.         No Japo, a fora de trabalho
feminina possui um papel rigorosamente suplementar e subalterno. No lhe
so dadas as mesmas oportunidades profissionais e a diferena salarial
em relao aos homens  a maior do mundo. Segundo Shiroma,27 pela mesma
atividade profissional a mulher recebe 64% menos do que o homem, ou
seja, 1/3 do salrio masculino. --- 25. GRAMSCI, A. Os intelectuais e a
organizao da cultura. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1991, p.
48. 26. " luz desse novo conceito de intelectual como 'organizador', os
funcionrios do aparelho de Estado so, da mesma maneira que as camadas
intelectuais em sentido estrito, 'intelectuais' que exercem funes
subalternas a fim de garantir a hegemonia social e poltica da
burguesia" (GLUCKSMANN, C.B. Grarnsci e o Estado. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1980, p. 54). 27. SHIROMA, E.0. Mudana tecnolgica, qualificao
e polticas de gesto: a educao da fora de trabalho no modelo japons
(Tese de Doutorado). Campinas: UNICAMP, 1993. 74         O fato de ser
dado  mulher um lugar secundrio na formao do exrcito industrial
japons no torna menos fundamental a sua importncia no esquema geral
de produo e reproduo capitalista naquele pas. Muito ao contrrio, a
trabalhadora, alm de fornecer sua fora de trabalho em tarefas
montonas e repetitivas, nunca de chefia ou superviso, possui o papel
central de educar os filhos, no que  a principal responsvel, alm de
prover todas as condies necessrias para a carreira bem-sucedida do
marido trabalhador, alm de ser diligentemente adestrada, durante toda a
vida, para servi-lo.         A mulher ingressa no mercado de trabalho
(especialmente nos ramos eletrnico e txtil) para uma carreira
profissional curta e pouco estimulante, j que at os 25 anos deixar o
trabalho para dedicar-se s lides da casa e da educao dos filhos.
Dessa forma, a mulher assume toda a responsabilidade pelas tarefas
domsticas e pela criao bem-sucedida e futuro dos filhos, razo pela
qual abandona o mercado de trabalho aos 18-24 anos e depois retorna como
trabalhadora por tempo parcial quando os filhos j forem crescidos, no
se beneficiando das polticas de promoo, nem do emprego vitalcio. 28
A relao dominador/dominado que ocorre entre homem e mulher e entre a
mulher e o chefe reflete-se, inclusive, no plano da linguagem, j que
existem palavras de utilizao restrita aos homens, enquanto as mulheres
so obrigadas a utilizar uma linguagem especfica mostrando modstia,
gentileza, inferioridade: Por exemplo, para dizer "eu" os homens falam
boku, palavra que  vedada s mulheres; elas devem dizer watashi, que
tambm pode ser usado por homens indicando polidez. 29 E mais adiante:
Esta caracterstica da linguagem deriva do padro de pensamento japons
formado no perodo Tokugawa, sob forte influncia da moral confuciana,
segundo a qual cada um sabe o seu "devido lugar", no existindo ningum
acima do imperador, como tambm ningum abaixo da filha caula de uma
famlia de camponeses. 30 A diferena entre o homem e a mulher  marcada
desde cedo por uma ampla gama de simbolismos conhecidos desde os
primeiros anos da infncia. --- 28. SHIROMA, E.0. Mudana tecnolgica,
qualificao e polticas de gesto: A educao dafora de trabalho no
modelo japons (Tese de Doutorado). Campinas: UNICAMP, 1993, p. 85. 29.
SHIROMA, E.0. Mudana tecnolgica, qualificao e polticas de gesto: a
educao da fora de trabalho no modelo japons (Tese de Doutorado).
Campinas: UNICAMP, 1993, p. 89. 30. SHIROMA, E.0. Mudana tecnolgica,
qualificao e polticas de gesto: a educao da fora de trabalho no
modelo japons (Tese de Doutorado). Campinas: UNICAMP, 1993, p .90. 75
[...] a menina  educada dentro do respeito incondicional aos homens,
que so os primeiros a ser servidos  mesa, com direito aos melhores
pedaos, os primeiros a entrar no banho de "fur", e da regra de
obedincia ao pai quando jovem, ao marido quando casada e ao primognito
quando idosa. 31         So todos mecanismos de sociabilizao
destinados a conferir  mulher um carter servil e de submisso diante
dos homens, quer eles sejam o pai, o marido, o irmo mais velho, quer,
obviamente, o chefe.         Diferentemente do que ocorre no Ocidente,
por exemplo, no Japo h o dia do menino e o dia da menina, com rituais
diferenciados em cada caso: os meninos so homenageados com ritos quase
pblicos, com o hasteamento de carpas feitas em papel no alto da casa, a
indicar que ali mora um varo com a fora e a tenacidade deste peixe que
nada contra a correnteza, que no se abate com o vento, o mau tempo,
etc. s meninas so reservadas cerimnias bem mais recatadas, dentro do
quarto "enfeitado com bonecas frgeis, delicadas e imveis" .32 Nas
palavras de Hirata: No primeiro aniversrio da criana costuma-se
colocar alguns objetos em sua frente, o primeiro objeto que ela agarrar
indicar sua futura profisso. Diante dos meninos so postas canetas ou
calculadoras, diante das meninas uma cesta de costura ou fita mtrica.
33         A escola reproduz elementos discriminatrios em relao 
menina. Nas grades escolares h previso de ensino de economia domstica
que, no texto consultado,  exclusivo para moas, como disciplina
oficial, com direito a crdito, etc. A disciplina Economia Domstica
envolve as matrias: Economia Domstica Geral, Habilidades para a Vida,
Habilidades Gerais para a Vida e outras relacionadas  economia
domstica.34 --- 31. HIRATA, H. Politigue paternaliste et division
sexuelle du travail. Paris: CNRS, 1987, p. 66. 32. SHIROMA, E.0. Mudana
tecnolgica, qualificao e polticas de gesto - a educao da fora de
trabalho no modelo japons (Tese de Doutorado). Campinas: UNICAMP, 1993,
p. 132. 33. Segundo o relato de MX., jornalista japonesa em visita ao
Brasil, a criana japonesa  estimulada a escolher sua profisso do
futuro adulto j no primeiro ano da escolaridade bsica. Em meio a um
conflito familiar, confidenciou-nos esta jornalista que no consegue
compreender como pais e educadores permitem que esta escolha fique para
to tarde, "uma semana antes do vestibular", e que seria uma escolha por
demais importante para no ser discutida e realizada desde muito cedo. O
conflito familiar, antes referido, prendia-se ao fato de Y.Y., seu filho
de 12 anos, melhor aluno da classe, de notvel inteligncia,
dedicadssimo aos estudos no Japo, ter escolhido a inusitada profisso
de "doceiro", o que estava causando um enorme malestar entre todos os
seus familiares. 34. KAZUO, I. Educao escolar no Japo. Tquio: Royal
Wakaba, 1991, p. 37. 76         A educao das crianas, notadamente das
meninas, envolve a inculcao de certos conselhos, tais como: "seja
obediente, cooperativa, gentil, dcil, disposta..., e os imperativos:
persista, suporte, reflita sobre sua prpria fraqueza".35         O
enquadramento da criana nesta socializao, que no deixa espao para
revoltas, discordncias, discusses, altercaes, brigas, etc., continua
sendo reforado na educao formal oferecida pela escola: No processo de
envolver a criana aos objetivos da me, 36 o princpio-chave parece ser
"nunca ir contra a criana". [...] Mes e professores manifestam
desagrado de maneiras sutis e trabalham tenazmente para criar um
ambiente no qual as crianas no tenham outra escolha a no ser
colaborar com sinceridade. [...] Segundo meta do treinamento Zen, o
discpulo alcana a condio de mestre quando consegue impedir que um
passarinho voe de seu brao simplesmente cedendo cada vez que o pssaro
faz meno de decolar. Sem resistncia, o passarinho no consegue
impulso necessrio no contato com aquele brao e no pode voar. Por
analogia, a criana est sempre no brao de seus superiores, cuja
passividade a impede de se rebelar e "voar". 37         A noo de
trabalhar em grupo  fortemente estimulada na escola, havendo grupos
para trabalhar no almoo, para fazer a limpeza da escola etc. As classes
escolares tm um lder (toban) e so divididas em grupos, cada grupo com
um lder (hancho), sendo vedados s meninas estes cargos, tidos como
muito importantes e de muita responsabilidade, portanto, prerrogativa
exclusiva dos meninos.38         A atividade grupal , assim, muito
valorizada na vida escolar, a ponto de haver previso na grade
curricular exclusivamente dedicada a "atividades especiais" j na escola
primria. Atividades especiais incluem "atividades estudantis" (isto ,
assemblias de sala de aula, conselhos de alunos e atividades de
clubes), eventos escolares (isto , eventos cerimoniais, eventos
relacionados aos estudos, e eventos relacionados  educao fsica) e
"orientao aos alunos" (incluindo almoo na escola e limpeza). 39 ---
35. SHIROMA, E.0. Mudana tecnolgica, qualificao e polticas de
gesto: a educao da fora de trabalho no modelo japons (Tese de
Doutorado). Campinas: UNICAMP, 1993, p. 92. 36. Grifamos estas palavras
para sublinhar o notvel princpio pedaggico que envolve a educao da
criana japonesa e, obviamente, o quanto ele se mostra funcional para o
futuro operrio integrado "aos objetivos" da me empresa. 37. SHIROMA,
E.0. Mudana tecnolgica, qualificao e polticas de gesto: a educao
da fora de trabalho no modelo japons (Tese de Doutorado). Campinas:
UNICAMP, 1993, p. 93. 38. SHIROMA, E.0. Mudana tecnolgica,
qualificao e polticas de gesto: a educao da fora de trabalho no
modelo japons (Tese de Doutorado). Campinas: UNICAMP, 1993, p .94. 39.
KAZZUO, I. Educao escolar no Japo. Tquio: Royal Wakaba, 1991, p. 30.
77         Segundo Shiroma,40 o estudante secundarista passa de 16 a 20
horas dirias estudando,41 sendo muito freqentes os casos de profunda
depresso entre aqueles alunos que no conseguem as melhores
classificaes na turma, chegando, no raro, a casos de suicdio, no
qual o Japo apresenta as taxas mais elevadas do mundo na faixa etria
que compreende dos 8 aos 18 anos. Mishiko42 faz um dramtico relato
sobre as taxas e motivaes para o suicdio entre jovens e crianas no
Japo, que se mostram, numa grande medida, incapazes de assimilar um mau
desempenho escolar 43, sem distrbios psicolgicos de maior ou menor
gravidade: Observe-se que na lista de motivaes de suicdio examinada,
sobre um total de 24 casos com motivaes conhecidas, 10 estiveram
relacionados com problemas de estudos, o que indica, direta ou
indiretamente, sua conexo com a tenso provocada pelo exame de
admisso.44         O trabalho deste autor relata casos de suicdio
entre jovens estudantes motivados especificamente por inadequado
desempenho escolar, associado a uma forte presso dos colegas que tendem
a isolar os perdedores, num esquema pblico de humilhao, que o
acompanhar por toda a vida profissional, como uma marca simblica
indelvel. H quatro princpios a serem seguidos na vida escolar: "no
ter problemas, no duvidar, no questionar. Estudar".45         Os
japoneses parecem no conseguir sobreviver saudavelmente, a menos que
estejam entre os primeiros em desempenho, quer seja escolar, quer seja
profissional. As taxas de suicdio so igualmente elevadas nas prprias
indstrias, agravadas pela recesso econmica que est determinando
demisses de trabalhadores, vinculados  empresa com "emprego por toda a
vida". Da mesma forma, doenas de origem --- 40. SHIROMA, E.0. A
formao do trabalhador disciplinado. In: FIDALGO, F. (Org.). Gesto do
trabalho e formao do trabalhador. Belo Horizonte: Movimento de Cultura
Marxista, 1995. 41. Tive oportunidade de conversar algumas vezes com o
estudante YX., 9 anos, em sua visita ao Brasil, durante as frias
escolares. Y. trouxe uma espcie de livro-texto do Japo para
trabalh-lo durante o perodo de recesso escolar, o que lhe ocupava algo
em torno de uma hora, diariamente e em frias. Como tive oportunidade de
lev-lo ao aeroporto, pude notar-lhe um certo pnico, j que, no dia
anterior ao seu regresso ao Japo, por qualquer razo, o menino no pde
cumprir sua tarefa diria, o que s foi possvel fazer no aeroporto,
enquanto esperava pelo horrio de seu vo. 42. MISHIKO, T. La sociedad
japonesa en una encruzijada: el balance de la socializacin para el
xito. In: MISHITOSHI et alli. Japn: despus dei milagro. Mxico: EI
Colegio de Mxico, 1982. 43. O autor lista as principais motivaes para
suicdio conhecidas entre os jovens: 26,6% relacionadas aos estudos,
13,7% a causas sentimentais e 13,6% por problemas familiares. Afirma,
ainda, que, para cada suicdio efetivado, ocorrem 10 tentativas e 1.000
jovens com propenso para tal, ou ainda, que 1/4 da populao do ensino
secundrio constitui o "exrcito de reserva de suicidas" (p. 164). 44.
MISHITOSHI et alli. Japn: despus del milagro. Mxico: EI Colegio de
Mxico, 1982, p. 164. 45. MISHITOSHI et alli. Japn: despus del
milagro. Mxico: EI Colegio de Mxico, 1982, p. 167. 78
emocional/psicolgica atingem ndices alarmantes no Pas, entre as quais
ganha relevo o karoshi, que se traduz literalmente por "morrer de
trabalhar": 46 [...] as manchetes anunciam que os dedicados funcionrios
esto morrendo de trabalhar. Somos tentados a acreditar que esse esquema
 to cruel aos estudantes japoneses quanto para a economia mundial. 7
Consideraes finais         O que as anotaes precedentes supem  a
centralidade de duas esferas especficas da sociabilidade para sustentar
ideologicamente um projeto de dominao: a famlia e a escola, entre as
quais ocorre um acentuado carter de continuidade, de complementaridade
e, sobretudo, levando-se em conta o papel da mulher, de extrema
funcionalidade para a produo e reproduo da fora de trabalho.
A sociabilidade primria ou familiar assentada em prticas culturais que
se perdem no tempo designa, primeiramente, o papel de irrestrita
subservincia de carter filial da mulher em relao ao homem, quer seja
o pai, quer seja o irmo mais velho, quer seja, mais tarde, o chefe. A
designao do seu papel secundrio, fundamental para a segmentao da
fora de trabalho na ordem capitalista, se iniciar com os primeiros
saberes da infncia e a acompanhar pelo resto da vida, o que levam
Hirata e Sugita a identificar a funcionalidade desta socializao na
diviso sexual do trabalho: [...] o paternalismo continua a ser, ainda
hoje, o centro da poltica de gesto da mo-de-obra nas grandes empresas
industriais japonesas [...] uma mesma gesto paternalista das relaes
salariais podem ter duas configuraes diferentes e fundamentalmente
opostas, segundo se trate de mo-de-obra feminina ou masculina. 48
Em segundo plano, desde as primeiras sries escolares, alm do brutal
reforamento da diferena entre os gneros, so inculcadas com
metodologia original e eficaz as noes de obedincia e consentimento no
imaginrio da juventude. Ao ideolgica poderosa que, tendo por
alicerce o universo domstico, potencializa-se --- 46.  muito difcil
estimar o nmero total destas mortes, provocadas por excesso de trabalho
e de tenso no trabalho. O Ministrio do Trabalho Japons s reconhece o
karoshi, quando fica comprovada uma jornada de, no mnimo, dezesseis
horas, durante uma semana toda, ou se fica uma jornada ininterrupta de
vinte quatro horas. A estimativa gira em torno de 10.000 mortes anuais.
LIMA, E. A construo da obedincia. (Tese de Mestrado). Campinas,
UNICAMP, 1996, p. 97. 47. SHIROMA, E.0. Mudana tecnolgica,
qualificao e polticas de gesto: a educao da fora de trabalho no
modelo japons (Tese de Doutorado). Campinas: UNICAMP, 1993, p. 94. 48.
HIRATA, Helena; SUGITA, K. Formao na empresa, educao escolar e
socializao familiar: uma comparao Frana-Brasil-Japo. So Paulo:
Educao e Sociedade/Cortez, 1988, p. 71-72. 79 na escola e maximiza-se
na empresa.  o que os autores acima tratam como sendo o "alargamento do
universo familiar"  empresa: uma imbricao/integrao/interpenetrao
entre esferas da sociabilidade humana de rara funcionalidade para o
padro de comportamento exigido pelo capital: a obedincia e a
constncia. Ocorre, na prtica, o esfacelamento relativo das fronteiras
que envolvem famlia/escola/empresa: Todo o sistema de comando est
temperado por este apagamento relativo dos limites entre empresa e
famlia, as relaes em vigor ocorrem no sentido de que a unidade
familiar modele a prtica dos chefes: o chefe de grupo, o contramestre,
o chefe da empresa dispe, de fato, de um subordinado como um pai dispe
de seus filhos: tanto enquanto pessoa como enquanto fora de trabalho.
49         Estamos lidando, enfim, com uma "estrutura de aparelhos de
hegemonia"50, tal como a define Gramsci, colocada a servio de um
projeto original de dominao, para o qual so requisitos indispensveis
a educao familiar e escolar orientadas para a submisso e o papel da
mulher na sociedade para a construo da disciplina e para a negao da
liberdade.         Como decorrncia, este projeto de dominao conseguiu
estabelecer o esfacelamento da solidariedade de classe, substituindo-o
por formas, no raro agudas, de concorrncia entre os prprios
trabalhadores, atualizando no quotidiano uma espcie de darwinismo
social de extrema eficcia para aumentos de produtividade. Esta
concorrncia, mesmo assumindo a paradoxal aparncia de cooperao, pode
ser interpretada como pedra angular do toyotismo j que, como
assinalamos anteriormente, so valores pacientemente inculcados no
imaginrio, quer na famlia, quer na escola e, finalmente, na fbrica.
Todo este portentoso esquema de reproduo ideolgica, assentado sobre
uma subjetividade que se perde no fundo dos tempos (a tica samuraica),
revela a face trgica do toyotismo: a de s ter triunfado tendo como
pressuposto a negao de toda a capacidade criativa, de todo o esprito,
de todo o engenho humano que no esteja a servio da produo. --- 49.
HIRATA, Helena; SUGITA, K. Formao na empresa, educao escolar e
socializao familiar. uma comparao Frana-Brasil-Japo. So Paulo:
Educao e Sociedade/Cortez, 1988, p. 72. 50. Conjunto de organismos
destinados a difundir a ideologia necessria  consolidao de uma ordem
social, segundo os interesses de uma classe fundamental.  a estrutura
que garante a ordem interna via difuso do contedo ideolgico que deve
sustentar um dado projeto histrico. A estrutura ideolgica  composta
pelo conjunto dos aparelhos de veiculao de idias que dem coerncia,
homogeneidade e articulao interna a este projeto, entre os quais a
escola, a imprensa, a magistratura, etc. 80 RESUMO         Os pases de
capitalismo desenvolvido do Ocidente tm, cada vez mais, voltado sua
ateno para a compreenso do toyotismo, conjunto de transformaes
tcnicas, gerenciais e polticas que se do no Japo do ps-Segunda
Guerra Mundial.         Assim, uma profuso de livros, textos, teses,
etc. tm sido escritos, em geral exaltando as inovaes japonesas na
produo de mercadorias, notadamente em se tratando de um pas que,
arrasado e humilhado por uma pesada derrota militar em 1945, logra
colocar-se, passados menos de 50 anos, entre as trs grandes economias
capitalistas do globo. Tal literatura aparece com freqncia propondo os
mais variados receiturios para a sua transposio para o Ocidente.
O pressuposto deste ensaio  o de que o projeto hegemnico japons s
obteve o propalado xito por duas razes centrais, entre outras:
primeiramente, esmagar toda a luta operria que se travava no Pas neste
perodo, com demisses, prises, perseguies de toda sorte a milhares
de trabalhadores e militantes do movimento operrio; em segundo lugar,
pela existncia de uma subjetividade muito especfica  cultura daquele
pas, cuja origem remonta ao Japo medieval.         Desta forma, uma
vertente promissora para a compreenso desta nova modalidade de
"servido voluntria" (LA BOETIE) reside na anlise do forte contedo
cultural que envolve o toyotismo, cujas bases esto assentadas numa
subjetividade original, substrato de todo o processo educacional daquele
povo, desde a educao familiar, passando pela escola formal e tendo seu
apogeu na formao profissional dada pela prpria fbrica que coroa o
processo de educao para a obedincia. PARA LER MAIS CORIAT, Benjamin.
Penser  l'envers. Paris: Christian Bourgeois, 1991. GIBNEY, Frank. El
milagro programado. Mxico: Sudamericana-Planeta, 1987. HIRATA, Helena.
Diviso social e processos de trabalho na sociedade japonesa. Revista de
Estudos Japoneses da USP, So Paulo, 1988. JAPAN, An international
comparison. Japan Institute for Social and Economic Affairs. Tquio:
Keizai Koho Center, 1994. JUNGBLUT, Michael et alli. El milagro japons.
Mxico: Planeta, 1988. MISHITOSHI, Takabatake et alli. Japn: despus
del milagro. Mxico: El Colegio de Mxico, 1982. 81 MORISHIMA, Michio.
Por que ha "triunfado" el Japn. Mxico: Grijalbo, 1984. POLLERT, Anna.
Dismantling flexibility. In: Capital and Class, Londres, n. 34, 1988.
RIBAS, Clarilton. Os "Dekassegui ": uma outra face do toyotismo (Tese de
Doutorado). Campinas: UNICAMP, 1998. WEXLER, Philip. Escola toyotista e
identidade de fin de sicle. In: SILVA, T.T., MOREIRA, A.F. (Org.).
Territrios contrastados: o currculo e os novos mapas polticos e
culturais. Petrpolis: Vozes, 1995. 82 Politecnia: A educao do molusco
que vira homem Edna Garcia Maciel Fiod Temas Formao politcnica e
relaes sociais Qualificao operria e trabalho coletivo Ensino e
metamorfoses do trabalho         Meus olhos so pequenos para ver
toda essa fora aguda e martelante,         a rebentar do cho e das
vidraas, ou do ar, das ruas cheias e dos becos.                 [...]
Meus olhos so pequenos para ver         essa mensagem franca pelos
mares,         entre coisas outrora envilecidas         e agora a todos,
todas ofertadas.                 Meus olhos so pequenos para ver
o mundo que se esvai em sujo e sangue,         outro mundo que brota,
qual nelumbo, mas vem, pasmam, baixam, deslumbrados. (Viso 1944.
Carlos Drummond de Andrade)1 --- 1. ANDRADE, C.D. Reunio: 10 livros de
poesia. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 197, p. 136. Introduo         A
discusso sobre o ensino politcnico ganha fora na dcada de 1980.
Inmeros debates so travados em torno do contedo e da finalidade dessa
aprendizagem. Defensores da politecnia partem do pressuposto de que essa
forma educativa deve se desenvolver at chegar a uma plena
escolarizao, oposta  tradicional formao profissional. So comuns
formulaes de que a preparao para o trabalho decorrente das mudanas
tecnolgicas de base eletrnica impe novos desafios  qualificao para
o trabalho.         A crtica ao ensino profissionalizante calcada em
distintas concepes d indcios da complexidade do tema. Neste texto
no so abordados estudos atuais que tratam da educao politcnica,
embora estejam supostos.         Dentro dos limites que possui este
estudo, a politecnia  discutida  luz do movimento histrico que a faz
emergir como necessidade humana. Para tanto, algumas explicaes
precisam ser feitas para que potenciais leitores no se sintam
desconsiderados.         De incio,  preciso deixar claro que no se
pretende abordar a educao em si como algo que se move segundo o desejo
ou a idia dos homens. Tambm no  focalizada a obsolescncia da escola
face s mudanas tecnolgicas que invadem a sociedade e o mundo do
trabalho, em particular.         Prope-se compreender como e por que a
aprendizagem individual adquire carter social. Por esta razo, so
retomadas reflexes de alguns autores clssicos. Busca-se neles um
elemento essencial  investigao proposta: o de saber como tais
pensadores apreendem o vir-a-ser, a necessidade de transmutao de uma
determinada configurao social para uma outra superior, ainda que esta
seja apenas potencialidade histrica.         A educao politcnica,
embora estreitamente articulada  relao ensinoaprendizagem, no deixa
de espelhar o movimento da sociedade. Portanto, a formao politcnica
no  apenas modalidade destinada a atender esta ou aquela necessidade
de aprendizagem dos indivduos. Ela , tal qual existe, uma relao
social. Nesse sentido, a educao escolar, qualquer que seja a forma que
assume,  necessidade criada pelos homens.         A aprendizagem
coletiva politcnica, por conseguinte, no emerge dos ideais de alguns
pedagogos do passado, por mais geniais que tenham sido. A moderna
instituio escolar profissional nasce em oposio  aprendizagem das
mos habilidosas juntamente com a ruptura do ensino do mito fundado nas
verdades reveladas.         Constata a histria que a aprendizagem
intelectual com base em conhecimentos gerais trava uma luta secular
contra o ensino feudal. A socializao do saber , nessa perspectiva,
resultado de muitas revolues. Toda dificuldade consiste em situ- 84
lo historicamente, em desvendar o que ocorre na produo da vida humana
que cria a possibilidade de a aprendizagem se libertar das mos.
A generalizao do ensino de coisas profanas, do conhecimento oriundo da
cincia, coincide com a ascenso do trabalho coletivo: eis seu princpio
educativo e o pressuposto da politecnia.  qualificao para o trabalho
na sociedade moderna corresponde o domnio de abstraes, de
conhecimentos gerais, de habilidades intelectuais que todo indivduo
pode aprender nas variadas instituies educativas. So essas indagaes
centrais as propostas  reflexo. O saber deixa as mos         Discutir
sobre a necessidade do ensino politcnico, neste final de sculo, no
constitui uma tarefa das mais fceis. Toda a dificuldade reside no fato
de que formulaes a esse respeito supem, necessariamente, concepes
de mudana social. Os desafios so imensos para aqueles que no
pretendem discutir a educao politcnica como um fato em si, mas como
algo que se move no interior de determinadas relaes sociais.
Para enfrentar essa candente questo, buscamos ajuda de personagens
sociais que, como as deste sculo, vivem tormentos tericos de tempos
marcados pelo movimento de uma sociedade que, de distintos modos,
reflete uma contradio construda pelos prprios homens: a constatao
de que as relaes educacionais vigentes, fundadas no ensino do mito e
no domnio do saber contido nas mos habilidosas, esto se tornando
insuficientes para continuar a organizar os indivduos como tais. Assim,
lutam os trabalhadores para manter sua antiga aprendizagem quando, por
si mesmos, criam a necessidade histrica de uma nova educao.
Vem  memria um personagem conhecido que, embora no seja o nico, pode
elucidar a magnitude da luta que travam duas sociedades distintas: uma
que se recusa a morrer e outra que, apesar das dificuldades desse embate
social, necessita ser constituda para que a humanidade possa dar um
passo no seu longo processo de emancipao.         No sculo XVIII,
Voltaire,2 assduo freqentador da corte prussiana, costumava ali se
reunir com um grupo de intelectuais. Certo dia, decidem escrever um
dicionrio contra os preconceitos de sua poca, o fanatismo e a
superstio. Mais entusiasmado do que os demais, o afoito Voltaire
redige alguns verbetes. Em 1764, consegue publicar o primeiro volume,
intitulado Dicionrio Filosfico Porttil, o qual obtm extraordinrio
xito. --- 2. VOLTAIRE. Dicionrio filosfico. 2 ed. So Paulo: Abril
Cultural, 1978, p. 85-125. (Coleo Os Pensadores). 85         Sua
tumultuada vida, marcada por exlios, perseguies polticas, relaes
amorosas que afrontam os costumes feudais, reflete, antes de tudo, um
homem atormentado pelas angstias sociais de sua poca. Elege a stira,
a malcia, a crtica impiedosa a alguns aristocratas; desafia
autoridades, a religio e os padres sociais vigentes. Alguns de seus
textos so condenados  fogueira porque ele se torna difusor da teoria
empirista de Locke e do experimentalismo matemtico de Newton, numa
explcita afronta s verdades filosficas escolsticas. Critica tambm
Pascal, pela defesa que faz do valor de sofrimentos terrenos como
preparao dos indivduos para glrias da vida futura. No pode aceitar
que os homens sejam considerados malvados, odiosos e, para sempre, seres
condenados em virtude do pecado original.         Dizem que Voltaire3 
apenas defensor do pensamento de outros. Porm, o que lhe falta em
originalidade sobra-lhe em valor histrico. Sua grandiosidade provm
exatamente do fato de tomar partido nos confrontos que travam duas
sociedades distintas: uma, fundada no mito, na especulao, na f e nas
verdades reveladas; e outra, que torna imperioso romper com limites
sociais que se convertem em obstculo ao surgimento de uma nova
sociedade. Nesse sentido, toma a sio partido da humanidade. Personifica
um anunciador de novos tempos, um sarcstico que teve de pagar
individualmente o preo de uma heresia que a histria lhe impe.
Em meio s transformaes que dilaceram o tecido social de sua poca,
face s agitaes que precedem a Revoluo Industrial, Voltaire no pode
deixar de se preocupar com os rumos da sociedade. Elabora indagaes
que, apesar de distintas das atuais, possuem com estas um elemento
comum: o de saber como os homens podem se libertar dos grilhes sociais
que os acorrentam s supersties,  alienao,  desigualdade, s
injustias,  misria e aos desmandos polticos. Ento, questiona: Por
que razo ser impossvel uma sociedade de ateus? Porque se considera
que os homens sem freios nunca poderiam fazer vida coletiva - viver
juntos; que as leis nada podem contra os crimes secretos - ocultos; que
faz falta um Deus justiceiro que castigue, neste mundo e no outro, os
malvados que conseguiram ludibriar a justia humana [...]. Que concluso
devemos tirar de tudo isso? Que o atesmo  coisa monstruosa e mui
perniciosa naqueles que governam; que o  nos homens da corte (ainda que
levem uma vida inocente), porque dos seus gabinetes e altos postos podem
furar at os que detm o mando e influenci-los; que, embora no to
funesta como o fanatismo,  sempre fatal para a virtude. Acrescente-se,
principalmente, que h hoje menos ateus do --- 3. Voltaire se exila na
Inglaterra. Toma contato com vrios intelectuais e torna-se, atravs de
intensa correspondncia enviada para a Frana, difusor da teoria
empirista de John Locke (1632-1704) e da nova viso de mundo revelada
pelo mtodo experimental-matemtico de Newton (1641-1727). 86 que nunca,
desde que os filsofos reconheceram que no existe nenhum ser vegetando
sem germe, nenhum germe sem uma finalidade, etc., e que o trigo no
provm da podrido. Alguns gemetras que no eram filsofos rejeitaram
as causas finais, mas os filsofos autnticos admitem-nas; e, como disse
um autor conhecido, um catequista anuncia Deus s crianas, e Newton
demonstra a sua existncia aos sbios. 4         Voltaire  um ateu
revoltado ou um ctico insolente? Suas instigantes formulaes parecem
refletir a necessidade de uma ordem e de uma disciplina terrenas que
possibilitem o convvio de homens livres da servido, da condio de
serem propriedades de outros homens. Com sua crtica viperina, julga as
relaes sociais medievais. Estas, a seu ver, so estreitas para conter
verdades passveis de serem empiricamente demonstradas. Para ele,
trata-se de negar idias metafsicas que impedem o avano da cincia, da
possibilidade de desvendar os mistrios de um novo mundo anunciado por
Locke e Newton.         Voltaire anseia por uma sociedade de pensadores
livres e leigos. Ope-se  inquisio,  prtica intolerante que condena
homens  fogueira ou ao silncio. Sua inquietude exprime o mesmo
sentimento de uma nova classe que est sendo gestada nas entranhas
feudais: a burguesia. Como Voltaire, ela est impaciente para pr em
movimento foras jamais vistas pela humanidade. Voltaire apreende que o
trigo no pode se expandir atravs da f. A luz divina est sendo
insuficiente para continuar a explicar fenmenos sociais. Talvez
estivesse sentindo a necessidade de a cincia passar a produzir um trigo
capaz de saciar uma fome maior do que aquela que lembra a multiplicao
dos pes feitos pelas mos.         O problema do seu tempo, constata
Voltaire, no se encontra na dificuldade de os homens conhecerem a
natureza, de produzirem conhecimentos cientficos capazes de desvendar
os segredos do universo. Provm, segundo ele, da mania que possuem os
humanos de considerarem seus costumes, modos de vida, suas crenas,
hbitos educacionais e culturais socialmente adquiridos como verdades
absolutas e, como tais, eternos. Observa que sua sociedade eleva ao
mximo a desigualdade natural por meio da tirania, da parvoce, da
falsidade, da corrupo poltica em benefcio de poucos. Sobre a
possibilidade da igualdade entre os homens, afirma: --- 4. VOLTAIRE,
Dicionrio filosfico. 2 ed. So Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 110-1
l2 (Coleo Os Pensadores). 5. Voltaire nasce em 1694 e morre em 1778.
Seu nome  Franois Marie Arouet. Utiliza-se do pseudnimo Voltaire e
assim fica conhecido. Sua tica, como, em geral, a de seus
contemporneos,  uma tica social. Seus valores so humanistas, e a
felicidade do indivduo dentro da sociedade  sua principal preocupao.
Substitui as virtudes da teologia pela f na capacidade de o homem
resolver seus problemas e pela esperana de uma sociedade melhor. Luta
sua vida toda pela justia, que  para ele o concomitante necessrio da
liberdade intelectual. Bate-se por todas as causas que possam coloc-la
em risco; odeia a intolerncia religiosa, a superstio e o fanatismo. A
igualdade entre os homens por ele formulada  uma igualdade situada no
mundo das idias, ou 87 Se a terra fosse o que parece que devia ser,
isto , se por todo lado o homem encontrasse alimentao fcil e
garantida, e um clima adequado  sua natureza,  bvio que teria sido
impossvel a qualquer homem escravizar outro. Se o globo fosse coberto
de saborosos frutos; se o que deve contribuir para nossa vida no nos
causasse as doenas e a morte; se o homem no necessitasse doutra morada
e doutra cama que aquelas que tm os gamos e os cabritos: nesse caso, os
Gengis Kan e os Tarmelo s teriam como servos os seus prprios filhos,
que fossem criaturas honradas e generosas o bastante para os ajudarem na
velhice. Nesse estado natural de que gozam todos os quadrpedes, as aves
e os rpteis, o homem seria feliz como eles, a servido tornar-se-ia uma
coisa absurda, em que ningum havia de pensar [...]. Todos os homens
seriam, portanto, necessariamente iguais se de nada precisassem. A
misria, condio agregada  nossa espcie, subordina um homem a outro
homem; no  a desigualdade que  um mal real, mas a dependncia. Muito
pouco importa que tal ou qual indivduo se chame Sua Alteza, e outro
fulano Sua Santidade; o que di, o que  duro de roer,  ter de servir a
um ou outro [...]. O gnero humano, tal como na realidade , no pode
subsistir a menos que no haja uma infinidade de homens teis que nada
possuam; porque,  mais do que certo, um homem que possua o suficiente e
viva ao seu belprazer no vai abandonar a sua terra para vir cultivar a
vossa; e se tiverdes preciso de um par de sapatos, no ser, com
certeza, um referendrio que vo-lo far. Por isso, a igualdade ,
simultaneamente, a coisa mais natural e mais quimrica que existe. 6
Voltaire apreende que a desigualdade social constitui, nesse tempo, algo
insupervel. Por essa razo, pensa que, embora indesejvel, a
dependncia de uns para com outros no tem soluo. Sabe dos limites da
natureza na produo de alimentos, moradias, roupas e demais elementos
indispensveis  existncia humana. Compreende que  preciso que muitos
produzam coisas teis pelo trabalho. O que lhe di  a constatao da
necessidade da servido. O que incomoda tanto Voltaire? Parece que sua
rebeldia expressa, de certo modo, o desafio que cabe aos homens de sua
sociedade resolver.  sua poca, ou os homens aprendem a produzir
excedentes, ou ficam condenados a perpetuar a servido. Os limites
histricos de seu tempo  que o impedem de apreender que o trabalho
til, condio natural e eterna da vida humana, est se transformando em
trabalho --- seja na concepo de que todo indivduo tem o direito de se
sentir e de julgar-se inteiramente igual a outros homens. Contudo,
adverte Voltaire, no se deve concluir que, por exemplo, o cozinheiro de
um cardeal deva obrigar este a fazer-lhe o jantar. Entretanto, o
cozinheiro pode argumentar que "[...] sou um homem tal qual meu amo,
nasci como ele a chorar; h de morrer como eu, nas mesmas angstias e
nas mesmas dores da agonia. Ambos fazemos as mesmas funes animais"
(VOLTAIRE, Dicionrio filosfico. 2 ed. So Paulo: Abril Cultural,
1978, p. 218). 6. VOLTAIRE, Dicionrio filosfico. 2 ed. So Paulo:
Abril Cultural, 1978 (Coleo Os Pensadores), p. 216-217. 88 social. No
pode, nesse momento, at porque no  profeta, prever que as manufaturas
se desenvolvem em oposio aos produtores individuais, isolados e
dispersos. Portanto, a degenerao social, peculiar de cada poca,
costuma anunciar novas relaes humanas em processo de constituio,
mesmo que os indivduos delas no tenham conscincia.         Voltaire,
com seu modo diferente de ser, configura tormentos prprios de um tempo
em que a vida passa por profundas modificaes em todos os sentidos.
Contudo, as relaes sociais em processo de constituio precisam travar
uma luta de vida ou morte contra o poder da inquisio, da fogueira
social que teima em perpetuar a supremacia do conhecimento fundado na
especulao.         Pensadores iluministas so difusores de uma cultura
nova que reflete revolues ocorridas no prprio modo de produzir a vida
humana. As idias dos reformadores, dos revolucionrios e dos
enciclopedistas mesclam-se com o movimento real que subtrai, cada vez
mais, a aprendizagem das mos habilidosas.         A diviso sistemtica
do trabalho manufatureiro evidencia que a mercadoria est deixando de
ser produto individual do artfice independente. O trabalho social est
se generalizando. No passado, o trabalho cooperativo  utilizado
esporadicamente na construo de diques, de pirmides, na colheita de
alimentos mas no organiza qualquer conexo geral. O produto do trabalho
s adquire carter social quando os indivduos executam sempre, e sem
parar, a mesma e nica tarefa.         Mas  justamente essa fixao do
trabalhador em determinada funo parcial que possibilita a criao de
um novo homem: o trabalhador coletivo. Na oficina, a matria-prima se
encontra simultaneamente em todas as fases do trabalho. O trabalhador
coletivo executa, a um s tempo, todas as etapas do processo de
trabalho, como se tivesse olhos e mos em todas as direes e possusse,
como diz Marx,7 o dom da ubiqidade, dentro de certo limite. O trabalho
social, nesse ,prisma, no  mero somatrio de foras individuais, mas
potencializao de uma nova fora social.8 --- 7. MARX, K. O capital:
crtica da economia poltica. 8 ed. Livro 1, v. I e II. So Paulo:
DIFEL, 1982. 8. "Mesmo no alterando o mtodo de trabalho, o emprego
simultneo de grande nmero de trabalhadores opera uma revoluo nas
condies materiais do processo de trabalho. Construes onde muitos
trabalham, depsitos para matria-prima, etc., recipientes,
instrumentos, aparelhos, que servem a muitos simultnea ou
alternadamente, em suma, uma parte dos meios de produo  agora
utilizada em comum no processo de trabalho. [...] Um local onde
trabalham 20 teceles com 20 teares deve ser bem maior do que o local
ocupado por um tecelo independente com dois companheiros. Mas custa
menos trabalho construir uma oficina para 20 pessoas do que 10 oficinas,
cada uma com capacidade para 2 pessoas, e assim o valor dos meios de
produo concentrados para uso comum e em larga escala no cresce na
proporo em que aumenta seu tamanho e seu efeito til. [...] O poder de
ataque de um esquadro de cavalaria ou o poder de resistncia de um
regimento de infantaria difere essencialmente da soma das foras
individuais de cada cavalariano ou de cada infante. Do mesmo 89
O hbito de exercer uma funo transforma o indivduo naturalmente em
rgo infalvel dessa operao. Compele-o  conexo de um mecanismo
global que opera com a regularidade de uma pea de mquina. Desenvolve
nele a virtuosidade de uma nica tarefa conectada ao processo geral
produtivo. Sacrifica a capacidade total do ser humano e cria
trabalhadores hbeis e inbeis. Reduz os custos com a educao. Aumenta,
desse modo, o domnio do trabalho excedente e reduz o tempo de trabalho
necessrio, justamente a parcela destinada  reproduo da classe
trabalhadora. Demonstra, com isso, que a humanidade est dando um passo
a mais na ruptura que a aprisiona aos limites da natureza.         No
final do sculo XVIII, certas manufaturas preferem empregar indivduos
meio idiotas nas operaes simples. Adam Smith,9 horrorizado com a
obliterao intelectual do operrio, recomenda o ensino popular estatal,
a fim de evitar sua degenerao completa.  semelhana de Voltaire,10 o
cientista da economia poltica burguesa nascente no pode compreender
que a diviso do trabalho no  algo novo na humanidade. Mas para ser
sistematizada supe a expropriao do saber e das habilidades do
trabalhador. O surgimento das mquinas pressupe essa condio. No
podem imaginar que a manufatura, com todos seus horrores, traz em si o
seu contrrio: a possibilidade de ruptura dos laos que prendem homens a
uma operao parcial por toda a vida, dado o seu carter revolucionrio.
A possibilidade de objetivar o trabalho em ferramentas simples, operadas
simultaneamente com muitas mos, contm, igualmente, a superao da
produo contida nas mos. Propostas de atuao do estado na educao
coincidem com o processo de expropriao do trabalho do corpo do
trabalhador. Antes disso, o arteso est indissoluvelmente ligado ao seu
meio de produo como concha e caracol. Dele dependem a qualidade e a
quantidade de produtos produzidos. --- modo, a soma das foras mecnicas
dos trabalhadores isolados difere da fora social que se desenvolve
quando muitas mos agem simultaneamente na mesma operao indivisa, por
exemplo, quando  mister levantar uma carga, fazer girar uma pesada
manivela ou remover um obstculo. O efeito do trabalho combinado no
poderia ser produzido pelo trabalho individual, e s o seria num espao
de tempo muito mais longo ou numa escala muito reduzida. No se trata
aqui da elevao da fora produtiva individual atravs da cooperao,
mas da criao de uma fora produtiva nova, a saber, a fora coletiva.
Pondo de lado a nova potncia que surge da fuso de muitas foras numa
fora comum, o simples contato social, na maioria dos trabalhos
produtivos, provoca emulao entre os participantes, animando-os e
estimulando-os, o que aumenta a capacidade de realizao de cada um, de
modo que uma dzia de pessoas, no mesmo dia de trabalho de 144 horas,
produz um produto global muito maior do que 12 trabalhadores isolados,
dos quais cada um trabalha 12 horas, ou do que um trabalhador que
trabalhe 12 dias consecutivos.  que o homem, um animal poltico,
segundo Aristteles,  por natureza um animal social" (MARX, K. O
capital: crtica da economia poltica. 8 ed. Livro 1, v. I e II. So
Paulo: DIFEL, 1982, p. 373-375). 9. SMITH, A. A riqueza das naes. So
Paulo: Nova Cultural, 1988 (Coleo Os Economistas, v. 3). 10. VOLTAIRE,
Dicionrio filosofico. 2 ed. So Paulo: Abril Cultural, 1978, p.
110-112. (Coleo Os Pensadores). 90         Assim, a reivindicao da
laicidade do ensino se generaliza no clima do pensamento iluminista,
enquanto amadurecem condies que propiciaro a passagem definitiva da
aprendizagem dos ofcios e da instruo dada pela Igreja para a
instruo estatal. trabalhadores se libertam do ofcio         A ruptura
com a aprendizagem manual, com as corporaes de artes e de ofcios,
nicas formas populares de instruo, chega ao fim. O movimento que traz
a arte da produo artesanal faz surgir a produo fabril, uma das
condies para o nascimento da moderna educao escolar, pblica e
estatal. Em sntese, as agitaes que atormentam parte da Europa e que
culminam com a Revoluo Francesa estabelecem a igualdade e o direito de
todos  instruo. O conhecimento laico se impe junto  emergente vida
social e produtiva.         A perseguio a pensadores iluministas que
propalam heresias, que custa muito a Voltaire, resulta desse processo de
transformao. A superao da sociedade servil, nada mais do que um
desejo, adquire realidade quando os homens aprendem a produzir
excedentes. Somente assim pode ser cumprida a formulao segundo a qual
todo indivduo nasce livre, proprietrio de si mesmo, pressuposto de uma
outra forma histrica de sociedade.         Em meados do sculo XVIII,
as lutas pela educao leiga se generalizam. Em quase todos os pases da
Europa atingidos pela Revoluo Industrial, em ritmos diferentes e de
modos distintos, a nova aprendizagem adquire fora com base em
princpios universais: estatalidade, laicidade e gratuidade.         A
mquina de fiar de John Watt configura um movimento que calca a seus ps
a educao do trabalhador virtuoso prprio da manufatura. Da em diante,
a aprendizagem se descola das mos, podendo ocorrer inclusive em um
local chamado escola. Liberta das condies individuais, torna possvel
dar vida  embrionria proposta educacional de Convnio: Inicialmente, a
natureza d-nos por toda parte o exemplo de que aquelas coisas devem ser
criadas em um s lugar. Assim, as rvores nas florestas, as ervas nos
campos, os peixes nas guas, os metais nas profundidades da terra, etc.,
nascem em grupos. E isso de tal maneira que, em geral, a floresta que
produz pinheiros ou cedros ou carvalhos, produ-las abundantemente,
enquanto que as outras espcies de rvores nela se no desenvolvem
igualmente bem; a terra que produz ouro no produz com a mesma
abundncia os outros metais [...]. Nas coisas artificiais, todas as
vezes que se procede racionalmente, observamos o mesmo.  certo que o
silvicultor, girando pela floresta e pelos pinhais, no planta os
mergulhes por toda parte onde os encontra prprios para a plantao,
mas arranca-os e transporta-os para um viveiro e trata-os juntamente com
centenas de outros. Do mesmo modo, quem se ocupa 91 em multiplicar os
peixes para o uso da cozinha, constri um viveiro, onde os faz
multiplicar, todos juntos, aos milhares. E quanto maior  a plantao,
tanto melhor costumam crescer as plantas; e quanto maior  o viveiro,
tanto maiores se tornam os peixes. Ora, assim como se deve fazer
viveiros para os peixes e plantaes para as plantas, assim se devem
construir escolas para a juventude. 11         Como pode Comnio chegar
 descoberta de que  possvel ensinar tudo a todos universalmente na
escola? 12 Semelhante a outros educadores, ele est vivendo em meio 
degradao dos costumes,  violncia feudal, enfim, ao caos provocado
pela dissoluo social quando campos se transformam em pastagens.
A separao dos homens da possibilidade de se reproduzirem pelo trabalho
realizado para si mesmos, algo que at ento lhes parece natural,
provoca um dos mais horrendos espetculos da histria. Farrapos humanos
vagueiam pelo mundo, milhares morrem de fome, e muitos outros so
enforcados por vagabundagem. A corrupo, a violncia, os castigos
corporais e a obedincia cega se opem a um mundo racional, harmnico,
de homens probos. A educao de todos, ricos e pobres, nobres e plebeus,
deve, segundo Comnio, formar homens verdadeiramente humanos, pela
cultura. --- 11. COMNIO, J.A. Didctica Magna. Tratado da arte
universal de ensinar tudo a todos. 3 ed. Praga: Fundao Calouste
Gulbenkian, 1957, p. 137-138. 12. Comnio vive no sculo XVII. Nasce na
Morvia, em 1592. Faz parte de uma famlia pertencente  Unitas Fratrum
Bohemorum. O martrio do antigo Reitor da Universidade de Praga, Joo
Huss, condenado pelo Concilio de Constana e queimado vivo a 6 de julho
de 1415, desperta uma dor intensa nos seus amigos e discpulos da
Bomia. Formam-se, ento, vrios grupos hussitas, que se distinguem por
uma moral austera, radicada nos preceitos evanglicos e pela afirmao
de que a autoridade da f tem por base as Sagradas Escrituras. Convnio,
aps a morte de seus pais,  educado na escola dos Irmos, descendentes
dos hussistas. Sua vida  marcada por perseguies religiosas que trazem
muitas dificuldades, aborrecimentos e exlios. Ele morre em 1670, aps
uma vida toda dedicada  paz universal,  tolerncia religiosa e 
educao. Escreve mais de uma centena de obras. A Didctica Magna  sem
dvida o primeiro tratado sistemtico de pedagogia e de didtica. Prope
o ensino de tudo a todos por acreditar que somente educando os homens
seria possvel existirem Igrejas e Estados bem ordenados e florescentes,
com boas administraes. As escolas, segundo Convnio, deviam ser
verdadeiras oficinas de homens e viveiros eclesisticos, polticos e
econmicos. Sem elas, afirma, era impossvel melhorar a sociedade. A
Didctica Magna  constituda de quatro partes essenciais. Nesta obra,
so apresentados os fundamentos teolgicos e filosficos da educao.
Parte da obra  consagrada aos princpios da didtica. Nesta,
encontram-se formulaes de que a formao do homem deve comear na
primeira idade para que no passe a vida a aprender. Ainda,  defendido
o envio de todas as crianas  escola: pobres e ricos, plebeus e nobres
e, inclusive, as mulheres. A educao universal da juventude , a seu
ver, condio para aquisio de bons pensamentos, desejos e de boas
inspiraes. Defende a democratizao da escola, um fato at ento
particular e eclesial. Critica os castigos corporais por entender que
eles no possuem fora alguma para inspirar nos espritos o amor s
letras. Prope um mtodo para ensinar tudo a todos. O seu livro didtico
destina-se  reforma da sociedade com homens probos, hbeis e ardorosos
para o trabalho. Faz apelos aos pais, aos telogos, aos governantes e a
Deus, para que o ajudem a realizar seus projetos. 92         A instruo
em grupos, na escola, fundada em princpios cientficos e na
aprendizagem de coisas teis, parece-lhe condio fundamental para
dirimir os males que afligem a sociedade. Convnio justifica o que julga
ser sua criao educacional, comparando-a  natureza. Prefere a
superioridade da terra que faz nascer florestas ao invs daquela que s
produz ouro, mas em pouca quantidade.         A aprendizagem coletiva
no resulta das idias de alguns pedagogos por mais justas e brilhantes
que possam ser. Toda dificuldade consiste precisamente em desvendar como
e por que a aprendizagem se descola das mos. E, da em diante, como 
que aprender passa a ser sinnimo de dominar abstraes. A educao que
exige o ensino de contedos gerais e domnio de habilidades intelectuais
constitui uma inveno social que, nos seus albores, manifesta-se
espordica e individualmente.13         At o advento da moderna
educao escolar, a violncia do Estado  utilizada sistematicamente.
Escreve a ferro e fogo a histria de modernas instituies escolares que
emergem em oposio ao ensino do mito e  aprendizagem individual que
exige um longo processo de aquisio de habilidades. Resulta de muitas
transformaes no modo de produzir a vida, tal como evidencia a
histria.14         Em sua origem, a Revoluo Industrial tem por base a
mquina-ferramenta, um mecanismo que realiza as mesmas operaes antes
feitas pelos trabalhadores com suas ferramentas. A mquina, ao contrrio
do que pensam tantos, no  simples acelerao da utilizao de
ferramentas, nem ferramenta complexa movida por fora diversa da fora
humana. Apesar de sua semelhana com o instrumental de trabalho --- 13.
FIOD, E.G.M. Crise da educao e sociedade do trabalho. In: Trabalho e
educao: um olhar multirreferencial. Florianpolis: Editora da UFSC,
1996 (Revista Perspectiva, n. 26, ano 14), p. 71-91. 14. "Os que foram
expulsos de suas terras com a dissoluo das vassalagens feudais e com a
expropriao intermitente e violenta, esse proletariado sem direitos,
no podiam ser absorvidos pela manufatura nascente com a mesma rapidez
com que se tornavam disponveis. Bruscamente arrancados de suas
condies habituais de existncia, no podiam enquadrar-se, da noite
para o dia, na disciplina exigida pela nova situao. Muitos se
transformaram em mendigos, ladres, vagabundos, em parte por inclinao,
mas na maioria dos casos por fora das circunstncias. Da ter surgido
em toda a Europa Ocidental, no fim do sculo XV e no decurso do XVI, uma
legislao sanguinria contra a vadiagem. Os ancestrais da classe
trabalhadora atual foram punidos inicialmente por se transformarem em
vagabundos e indigentes, transformao que lhes era imposta. A
legislao os tratava como pessoas que escolhem propositadamente o
caminho do crime, como se dependesse deles prosseguirem trabalhando nas
velhas condies que no mais existiam. Essa legislao comeou na
Inglaterra, no reinado de Henrique VII, lei de 1530- Mendigos velhos e
incapacitados para trabalhar tm direito a uma licena para pedir
esmolas. Os vagabundos sadios sero flagelados e encarcerados. Sero
amarrados atrs de um carro e aoitados at que o sangue lhes corra pelo
corpo; em seguida prestaro juramento de voltar  sua terra natal ou ao
lugar onde moraram nos 3 ltimos anos, para se porem a trabalhar. Que
ironia cruel! Essa lei  modificada com acrscimos mais inexorveis, no
ano 27 do reinado de Henrique VIII. Na primeira reincidncia de
vagabundagem, alm da pena de flagelao, metade da orelha ser cortada;
na segunda, o culpado ser enforcado como criminoso irrecupervel e
inimigo da comunidade" (MARX, K. O capital: crtica da economia
poltica. 8 ed. Livro I, v. I e II So Paulo: DIFEL, 1982, p. 851). 93
da manufatura, ela possui, em relao a esta, uma diferena essencial: a
maquinaria toma o lugar da simples ferramenta. Substitui mos
habilidosas.         John Watt, diz Marx15, quando anuncia em 1735 sua
mquina de fiar, se refere a uma mquina de fiar sem os dedos. A
ferramenta, ao se transferir do homem para um mecanismo, potencializa a
criao de riqueza em escala nunca imaginada. Emancipa-se da barreira
orgnica que a ferramenta manual no consegue ultrapassar. Liberta os
homens das circunstncias locais. Torna-os independentes das condies
naturais: da gua, do vento, de local adequado, da fora animal,
hidrulica, etc. Os homens podem, da em diante, produzir riqueza em
quantidade, qualidade e no lugar desejado. Agora, o limite 
prerrogativa da cincia.         Nem a diviso do trabalho levada ao
extremo na manufatura consegue tal faanha. Nela, o produto do trabalho
se apia ainda sobre uma base subjetiva e supe a combinao de
trabalhadores parciais. As ferramentas precisam ser ajustadas aos
indivduos e deles dependem para executar operaes. Nesse tempo, o
processo de trabalho social  puramente subjetivo. So as condies
inalteradas da produo da vida que exigem a aprendizagem manual, uma
necessidade histrica, como outra qualquer.         H constataes de
que so comuns, nessa poca, queixas dos capitalistas sobre a falta de
disciplina dos trabalhadores. Estes no tm razo alguma para trabalhar
toda a semana para outros. Os ancestrais da classe trabalhadora
enfrentam os capitalistas emergentes de dois modos: pela reproduo
vegetativa de si e dos seus descendentes e pelas suas habilidades. Falta
disciplina no perodo manufatureiro, como observa Comnio,16 porque
nenhum homem renuncia a trabalhar para si mesmo, a no ser que no lhe
reste alternativa.         A resistncia da classe trabalhadora ao
assalariamento, aliada  reduo da jornada de trabalho imposta pela
sociedade, tem por resultado a acelerao do desenvolvimento do sistema
de maquinaria. Finalmente, aprendem os homens a fazer o produto de seu
trabalho passado - o trabalho objetivado no instrumental de trabalho -
operar em grande escala como se fosse uma fora natural.         Sem
dvida, como instrumental de trabalho que , a maquinaria encurta o
tempo de trabalho, facilita o trabalho.  uma vitria do homem sobre as
foras naturais. Mas, com seu emprego capitalista, constitui meio
poderoso de obter trabalho excedente. Compele trabalhadores a
satisfazerem a mais estranha necessidade social: a de se reproduzirem
como fora de trabalho no processo de expanso do capital. Im- --- 15.
MARX, K. O capital: crtica da economia poltica. 8 ed. Livro I, v. 1 e
11. So Paulo: DIFEL, 1982. 16. COMNIO, J.A. Didctica Magna. Tratado
da arte universal de ensinar tudo a todos. 3 ed. Praga: Fundao
Calouste Gulbenkian, 1957. 94 pele-os como homens livres, proprietrios
de si,  venda da sua capacidade de trabalho, justamente quando
resolvem, para sempre, o problema da produo da riqueza material. O
ensino de tudo para todos: a politecnia         O perodo manufatureiro
desenvolve os primeiros elementos cientficos e tcnicos da indstria
moderna. O trabalhador coletivo, mais ou menos contingente na
manufatura, adquire materialidade adequada: a mquina. Quando o trabalho
se objetiva nesse mecanismo, a diferena salta aos olhos.         O
instrumental de trabalho convertido em maquinaria exige a substituio
da fora humana, das foras naturais e da rotina emprica pela aplicao
consciente da cincia. Como organismo de produo inteiramente objetivo
s pode funcionar por meio de trabalho comum. O carter cooperativo do
processo de trabalho  necessidade tcnica que emana do prprio
instrumental de trabalho.         Os trabalhadores, reduzidos a
acessrios da mquina, no precisam de sua antiga instruo. Os homens
habilidosos j no so mais personagens sociais predominantes. A
aprendizagem contida nas mos, no domnio do processo produtivo, deixa
de ter razo social. As tarefas manuais passam a ser sinnimo de
desqualificao. Ser qualificado, quando a produo da riqueza se torna
social, significa ler, escrever, dominar contedos gerais. A
aprendizagem de habilidades intelectuais  fruto do trabalho simples,
forma de produzir a vida moderna.         A destruio das condies de
vida de grande parte dos operrios no parece ter origem na falta de
conhecimento e de domnio dos processos produtivos, como antigamente. A
mquina que tem por finalidade e objetivo a obteno do trabalho
excedente, pressuposto da auto-expanso do capital, dispensa grande
parte dos trabalhadores. Torna-os suprfluos, no mais diretamente
necessrios ao seu movimento de valorizao. Entretanto, a produo
mecanizada se apropria de todo o tempo ativo da vida do operrio e de
sua capacidade de trabalho, em troca de meios habituais de subsistncia.
Revela-se instrumento adequado para encurtar a jornada de trabalho e
meio infalvel de se apoderar de todos os membros da famlia,
submetendo-a ao seu domnio.         A degradao causada pela
explorao capitalista do trabalho das mulheres e das crianas no passa
despercebida pela sociedade. A degenerao fsica e intelectual dos
adolescentes, artificialmente produzida quando eles se transmudam em
simples mquina de fabricar trabalho excedente, fora o Parlamento na
Inglaterra a impor instruo elementar obrigatria aos jovens menores de
14 anos, no sculo XIX. Demonstra, apesar de sua aparncia mesquinha,
que  possvel combinar educao e ginstica com trabalho manual. 95
A indstria moderna elimina o vu que oculta ao homem seu prprio
processo social de produo e que transforma ramos da produo
naturalmente diversos em enigmas. Entretanto, no sculo XVIII,
diferentes ofcios so considerados mistrios nos quais s podem
penetrar os profissionalmente iniciados. A moderna cincia institui o
princpio de considerar em si mesmo cada processo de produo e de
decomp-lo, sem levarem conta qualquer interveno da mo humana.
A fbrica nunca considera definitiva qualquer forma de produo
existente. Sua base tcnica  revolucionria, ao contrrio de todas as
que a antecedem. Por meio de processos qumicos, fsicos, da criao de
tecnologias diversas, da maquinaria e de tantos outros, transforma sem
cessar as tarefas dos operrios e as combinaes sociais do processo de
trabalho. Modifica constantemente a diviso do trabalho e compele massas
de capital e de trabalhadores de um ramo da produo para outro. Exige,
devido a sua natureza, variao do trabalho, fluidez das funes,
mobilidade do trabalhador em todos os sentidos.         A variao dos
trabalhos, portanto a maior versatilidade do trabalhador, se impe como
lei natural. Relata Marx que um trabalhador francs ao regressar de So
Francisco conta que: Nunca acreditaria que seria capaz de exercer todos
os ofcios que desempenhei na Califrnia. Era minha convico firme que
nada sabia fazer alm de tipografia. Colocado nesse mundo de
aventureiros que trocam de profisso mais facilmente que de camisas,
tive de proceder como os demais. A minerao no era bastante
remuneradora, por isso abandonei-a e fui para a cidade onde
sucessivamente trabalhei como tipgrafo, telhador, fundidor, etc. Depois
de experimentar a possibilidade de desempenhar toda espcie de trabalho,
sinto-me menos molusco e mais homem. 17         Diferente do indivduo
parcial que executa sempre a mesma operao a vida toda, a sociedade
capitalista o substitui por um indivduo polivalente, apto a executar
muitas operaes. 18 Os homens podem trocar de profisso como trocam de
camisa, inclusive no interior da fbrica. Desenvolvem as mais variadas
atividades dentro --- 17. MARX, K. O capital: crtica da economia
poltica. 8 ed. Livro I, v. 1 e II. So Paulo: DIFEL, 1982, p. 559. 18.
"A indstria moderna, com suas prprias catstrofes, torna questo de
vida ou morte reconhecer como lei geral e social da produo a variao
dos trabalhos e, em conseqncia, a maior versatilidade possvel do
trabalhador, e adaptar as condies  efetivao normal dessa lei. Torna
questo de vida ou morte substituir a monstruosidade de uma populao
miservel, disponvel, mantida em reserva para as necessidades
flutuantes da explorao capitalista, pela disponibilidade absoluta do
ser humano para as necessidades variveis do trabalho; substituir o
indivduo parcial, mero fragmento humano que repete sempre uma operao
parcial, pelo indivduo integralmente desenvolvido para o qual as
diferentes funes sociais no passariam de formas diferentes e
sucessivas de sua atividade" (MARX, K. O capital: crtica da economia
poltica. 8 ed. Livro I, v. I e II. So Paulo: DIFEL, 1982, p.
558-559). 96 do mesmo processo de trabalho quando este passa a ser
executado por mquinas. Deles so exigidos apenas disposio para o
trabalho, puro desprendimento da energia que qualquer indivduo
normalmente possui. As escolas politcnicas, conclui Marx,19 so frutos
dessas transformaes e se desenvolvem espontaneamente na base da
indstria moderna. De modo semelhante, surgem as escolas de ensino
profissional, onde os filhos dos trabalhadores recebem ensino
tecnolgico e manejo prtico de diferentes instrumentos da produo.
Concretiza a criao terica de Comnio,20 segundo a qual  possvel
ensinar tudo a todos, na escola. A sociedade iguala os trabalhos na
produo da vida, algo impossvel na produo manufatureira. Descobre,
finalmente, como universalizar a aprendizagem de conhecimentos
historicamente produzidos. Rompe com a aprendizagem individual,
evolutiva, complexa, misteriosa, prpria dos segredos dos ofcios.
Elimina a servido, uma das questes filosficas que angustia Voltaire.
Contudo, a forma de relao social burguesa que faz emergir a conjugao
da instruo fundamental com o trabalho na fbrica impede que os homens
se libertem do trabalho realizado para o outro. Trata de perpetu-lo,
porque este constitui a nica fora capaz de nutrir o vampiro sedento
que s pode sobreviver sugando o trabalho vivo: o trabalho gratuito do
qual se apodera o capitalista. Ergue barreiras ao fermento
revolucionrio contido no ser social, no trabalho coletivo, uma das
condies da emancipao dos homens.         As contradies que emergem
da sociedade, mostra a histria, costumam ser prdigas em utopias. No 
raro encontr-las no momento em que certas instituies parecem se
desorganizar junto com as demais condies sociais. O sculo XIX, com os
terrveis limites impostos  vida dos trabalhadores, faz surgir tambm o
pensamento socialista utpico. A partir de consideraes sobre a diviso
do trabalho fabril, da misria reinante e da fome oriundas da explorao
capitalista, pensam alguns ser possvel solucionar esses problemas.
Acreditam que a educao das massas operrias constitui meio adequado 
superao dessa situao.         A formao integral fsica, moral e
cultural dos homens e das mulheres  percebida como elemento fundamental
 cidadania. A formulao segundo a qual  possvel substituir a figura
do operrio, com seus olhos vazios, sem claro de inteligncia e de
aspecto doentio, por um indivduo de iniciativas, criativo e senhor de
conhecimentos muito superiores aos existentes decorre da crena de que a
educao modifica a vida dos indivduos ainda que as condies sociais
permaneam as mesmas. --- 19. MARX, K. O capital: crtica da economia
poltica. 8 ed. Livro I, v. I e II. So Paulo: DIFEL, 1982. 20.
COMNIO, l.A. Didctica Magna. Tratado da arte universal de ensinar tudo
a todos. 3 ed. Praga: Fundao Calouste Gulbenkian, 1957. 97         O
fetiche que emana do capital tem levado  afirmao de que basta um
sistema de ensino qualificado para recuperar o que as relaes sociais
impem aos trabalhadores: serem predicados, criadores da riqueza alheia
em detrimento de si mesmos, devido ao carter histrico desta sociedade.
A concepo pedaggica que permeia o pensamento utpico e que consiste
em condenar as relaes produtivas configuradas no trabalho coletivo
encontra-se presente nesse sculo. Ao entrar na fbrica e ao deixar sua
oficina, o ex-arteso est formalmente livre, como o capitalista tambm,
dos velhos laos corporativos; mas, simultaneamente, foi libertado de
toda sua propriedade e transformado em um moderno proletrio. No possui
mais nada: nem o lugar de trabalho, nem a capacidade de desenvolver
sozinho o processo produtivo integral, nem o produto do seu trabalho,
nem a possibilidade de vend-lo no mercado. Ao entrar na fbrica, que
tem na cincia moderna sua maior fora produtiva, ele foi expropriado
tambm de sua pequena cincia, inerente ao seu trabalho; esta pertence a
outros e no lhe serve para mais nada e com ele perdeu, apesar de t-lo
defendido at o fim, aquele treinamento terico-prtico que,
anteriormente, o levava ao domnio de todas as suas capacidades
produtivas: o aprendizado.21         O trabalho simples que pode ser
executado por crianas, mulheres e homens e que necessita de puro
desprendimento de energia, advm do carter social da produo. A
pequena cincia, antiga propriedade do arteso repassada pelos mais
velhos, no  a mesma que cria a mquina. A produo fabril se apropria
da habilidade do arteso e, posteriormente, da cincia vinda da
engenharia, da qumica, da fsica, da matemtica, etc., algo incipiente
no tempo dos artfices. Alis, enquanto perdura a manufatura e,
portanto, o princpio subjetivo do trabalho, o que se impe  o
conhecimento emprico, o senso comum.  precisamente esse o desafio que
a manufatura evidencia aos homens: o de criar um trabalhador coletivo
liberto das interferncias subjetivas, portanto, dos limites naturais.
Os trabalhadores continuam a defender sua antiga aprendizagem porque as
novas foras produtivas em gestao no podem demonstrar a eles seu
carter revolucionrio: a possibilidade de o trabalho ser objetivado no
instrumental de trabalho. Do mesmo modo, tentam destruir mquinas que,
no incio do sculo XIX, compelem milhares aos horrores do desemprego.22
Somente o tempo e a experincia ensi- --- 21. MANACORDA, M.A. Histria
da educao: da antigidade aos nossos dias. So Paulo: Cortez/Autores
Associados, 1989, p. 271. 22. Relata Marx (1982) que a luta entre o
capitalista e o trabalhador remonta  prpria origem do capital e
atravessa todo o perodo manufatureiro. Mas somente a partir da
introduo da mquina passa o trabalhador a combater 98 nam aos
operrios que seus pesadelos no so provocados pela maquinaria, mas
advm de sua aplicao capitalista, da forma social em que so
explorados.         A produo fabril em si mesma no gera problema aos
homens. Nos tempos atuais,  comum a existncia de instrumentos que
fazem leitura tica de etiquetas, preenchem cheques, fazem troco, como
se dominassem as quatro operaes, enquanto o ser humano, seu ajudante,
apenas gasta energia para acion-la. Se lhe fosse concedido dom
histrico de dominar os processos produtivos ao invs de ser por eles
dominados, todo e qualquer auxiliar de mquinas realizaria simplesmente
o trabalho socialmente necessrio. Semelhante a personagens sociais do
passado e do presente, poderia, utilmente, experimentar tempos dedicados
ao mais completo cio.         A fico est virando realidade? Pelo
menos traz  lembrana Isaac Asimov.23 Em um conto chamado "Profisso",
o autor descreve homens vivendo em uma sociedade totalmente
informatizada. Nesta, no h necessidade da escrita. As crianas
aprendem leitura adquirida mediante impulsos transmitidos por eletrodos
acoplados  cabea. Os cdigos, em poucos segundos, so repassados ao
crebro.24 Tal mtodo de alfabetizao dispensa professor e escola. Os
aprendizes sequer sabem fazer contas utilizando as quatro operaes. A
capacidade de decifrar textos lhes  dada atravs de um
mdico-cientista, um auxiliar de uma mquina eletrnica. Nessa
sociedade, ningum  considerado ignorante ou analfabeto. Ser que
Asimov est querendo dizer que no h necessidades bsicas? Que o que
vale para uma poca pode ser totalmente distinto de uma outra poca? Se
assim for, somente existem necessidades humanas e, nesta qualidade,
nenhuma necessidade eterna, apenas sociais. --- o instrumental de
trabalho, vendo nele o fundamento material do modo capitalista de
produo. No sculo XVII, em quase toda a Europa, h revolta dos
trabalhadores contra a mquina de tecer fitas e gales. Nos fins do
primeiro tero do sculo XVII, uma revolta popular destri uma serraria
movida a vento nas proximidades de Londres. Em 1758, surge a primeira
mquina de tosquiar l, movida a gua. Esta mquina foi lanada ao fogo
por cem mil pessoas que ficaram sem trabalho. A enorme destruio de
mquinas nos distritos manufatureiros ingleses ao longo de 15 anos do
sculo XIX, provocada principalmente pelo emprego do tear a vapor, ficou
conhecida pelo nome de movimento luddita. Este movimento d origem a
medidas violentas e conservadoras contra os operrios pelos governos
antijacobinos. 23. ASIMOV, I. Profisso. In: Nove amanhs: contos do
futuro prximo. Portugal: Publicaes Europa-Amrica, 1959, vol. 1
(Fico Cientfica n. 165). "Havia o chamado Dia da Leitura, data em que
crianas de 8 anos de idade aprendiam a ler. Trechos do dilogo entre o
mdico-cientista e o aprendiz abaixo reproduzidos ilustram a
aprendizagem sem escola:  -Ests pronto?, perguntou o mdico.  George
acenou com a cabea. Fechou os olhos enquanto o mdico trabalhava. Seus
pais tinham-lhe explicado isto. Tambm tinham-lhe dito que no ia doer
[...]. Havia rapazes de 10 e 12 anos que andavam atrs dos meninos de 8,
que esperavam pelo Dia da Leitura, gritando:  -Cuidado com a agulha!
Havia outros que nos tomavam por confidentes e diziam: -Tem de te abrir
a cabea com um corte [...]. 99         Esse conto, que no  seno
apreenso literria do real, qui mera especulao, pode ser
elucidativo do ponto de vista histrico. No sculo XX, no ser
alfabetizado, no ter domnio terico-prtico do processo produtivo, da
cincia nele incorporada, parece uma desfaatez. Contudo, ler, escrever,
contar, aprender contedos gerais, ser disponvel s mais variadas
atividades,  uma exigncia educacional desta sociedade: se os homens
precisam dessa aprendizagem, isso no ocorre devido a algo inevitvel,
mas sim porque criam e recriam essa necessidade.         Nesse sentido,
a qualificao educacional para o trabalho coletivo, forma de existncia
da vida humana, no pode ser boa ou ruim: ela  apenas diferente. A
formulao segundo a qual na fbrica os indivduos apenas se degradam
pela diviso do trabalho tem levado muitos a condenar a moderna
educao, exatamente porque ela deixa de ser tratada historicamente.
Os processos produtivos no tm o poder de desqualificar, alienar e de
explorar produtivamente os indivduos. As relaes entre os homens que
deles se apoderam  que determinam o que eles sero nesta forma de
sociedade: eis seu carter social. George nunca acreditara neles, mas
tivera pesadelos e agora fechava os olhos e sentia puro terror. No
sentiu os fios nas tmporas. O zumbido era algo distante e sentia, nos
ouvidos, o som de seu prprio sangue [...]. Lentamente, atreveu-se a
abrir os olhos. O mdico estava de costas para ele. De um dos
instrumentos, desenrolavase uma tira de papel, percorrida por uma
ondulante e fina linha roxa [...]. Finalmente, virou-se para George com
um estranho franzido entre os olhos. O zumbido parou.  - J acabou?,
perguntou George, sem flego.  - Sim, disse o mdico, mas ainda tinha a
testa franzida.  - J consigo ler?, perguntou George. No se sentia
diferente.  - O qu?, disse o mdico, e depois sorriu de repente e por
pouco tempo. - Correu tudo bem, George, disse, Daqui a 15 minutos
conseguirs ler. Agora, vamos utilizar outra mquina e vai demorar.
Agora, vou cobrir a tua cabea toda e, quando ligar, no vais poder ver
ou ouvir nada por um momento, mas no vai doer. S para ter a certeza,
vou dar-te um pequeno interruptor para segurares. Se alguma coisa doer,
aperta no pequeno boto e desliga-se tudo.  Um grande capacete de curvas
suaves e revestimento interior elstico foi colocado sobre sua cabea e
deixado a. A voz do mdico soou vagamente e ento, sem qualquer aviso,
uma camada de espesso feltro fechou-se  volta dele. Estava
desencorpado, no havia universo, apenas ele prprio e um murmrio
distante nos limites do nada, dizendo-lhe algo [...]. Esforou-se por
ouvir e perceber, mas havia todo aquele grosso feltro no meio. Depois, o
capacete foi retirado de sua cabea e a voz do mdico ressoou em seus
ouvidos:  - Aqui est teu carto, George, disse o mdico. - O que  que
diz?  George olhou de novo para o seu carto e largou um grito abafado.
As marcas no eram apenas marcas, de forma alguma. Elas formavam
palavras. Eram palavras, to claras como se algum as estivesse
sussurrando em seus ouvidos.  - Que  que diz, George?, perguntou o
mdico.  - Diz: Platen, George. Nascido a 13 de fevereiro de 6.492.
Filho de Peter e M. Platen, em [...]  - J sabes ler, George, disse o
mdico, - J acabou.  - Para sempre? [...]  Passaram-se dias antes que
George se refizesse desse seu novo e grande talento. Lia para o pai com
tal facilidade que Platen, pai, chorou e chamou os parentes para contar
a novidade [...]. George tentou lembrar-se de como era no saber ler,
mas no conseguiu [...]" (ASIMOV, I. Profisso. In: Nove amanhs: contos
do futuro prximo. Portugal: Publicaes Europa-Amrica, 1959, vol. 1
(Fico Cientfica n. 165), p. 75-77). 100         Quando foi criada a
moenda movida por fora animal em substituio  fora humana, pensaram
os escravos que da em diante sua labuta diria seria facilitada.
Acreditaram que poderiam dedicar mais tempo  salvao de suas almas.
Pobres escravos! De economia poltica nada haviam aprendido e, menos
ainda, de religio.         Manacorda,25 ao se fixar no trabalho til,
na expresso aparente desta sociedade, deixa de ver o duplo carter do
trabalho h muito tempo desvendado por Marx26. O trabalho til, condio
natural da existncia humana, torna-se a expresso do seu oposto: do
trabalho humano abstrato, forma de obteno de trabalho gratuito
incorporado nas mercadorias.         O trabalho, nessa qualidade social,
no configura castigo imposto pela burguesia e, muito menos, expresso
imperfeita do futuro. O trabalho simples, igual e social expressa
determinadas relaes humanas que fundamentam a aprendizagem
politcnica. Antes, a escola era a oficina, o prprio local de trabalho,
a convivncia com os mais sbios. Houve tempo em que a aprendizagem dos
rituais necessrios  sobrevivncia ocorria na escola chamada floresta:
todas as escolas, tal como as de hoje, eram decorrncia do que os homens
faziam para se manterem vivos.         Marx, ao pesquisar as
conseqncias do trabalho fabril sobre a vida dos operrios, jamais
deixa de lado o movimento da sociedade, como faz o pensamento utpico.
No renuncia a apreender a universalidade que, no sculo XIX, compele 
transformao social. Por mais difcil que possa ter sido, formula a
abstrao que a vida estampa como questo a ser enfrentada: a de que a
sociedade, do mesmo modo que cria problemas aos homens, produz, na mesma
medida, solues. 25. MANACORDA, M.A. Histria da educao: da
antigidade aos nossos dias. So Paulo: Cortez/Autores Associados, 1989.
26. O conceito de trabalho humano abstrato constitui uma das formulaes
mais complexas de Marx. O estudo de O capital, sobretudo, os captulos I
e II do Livro 1, v. I, so fundamentais  investigao, mas apenas um
incio. Todavia, para estimular a leitura alguns pargrafos transcritos
do uma idia geral desse instigante tema: "Ao desaparecer o carter
til dos produtos do trabalho, tambm desaparece o carter til dos
trabalhos neles corporificados, desvanecem-se, portanto, as diferentes
formas de trabalho concreto, elas no mais se distinguem umas das
outras, mas reduzem-se, todas, a uma nica espcie de trabalho, o
trabalho humano abstrato. Vejamos o que  esse resduo dos produtos do
trabalho. Nada deles resta a no ser a mesma objetividade impalpvel, a
massa pura e simples do trabalho humano em geral, do dispndio de fora
de trabalho humana, sem considerao pela forma como foi despendida.
Esses produtos passam a representar apenas a fora de trabalho humana,
gasta em sua produo, o trabalho humano que neles se armazenou. [...] O
corpo da mercadoria que serve de equivalente passa sempre por encarnao
de trabalho humano abstrato e  sempre o produto de um determinado
trabalho til, concreto. Esse trabalho concreto torna-se, portanto,
expresso de trabalho humano abstrato. [...] Considerando-se esse
trabalho concreto do alfaiate simples expresso de trabalho humano em
geral, passa ele a identificar-se com outro trabalho, com o incorporado
no linho. Em conseqncia no obstante seja trabalho privado, como
qualquer outro que produz mercadorias,  tambm trabalho em forma
diretamente social. Justamente, por isso, est representado num produto
diretamente permutvel por outra mercadoria. , portanto, uma terceira
propriedade da forma equivalente, tomar-se o trabalho privado a forma do
seu contrrio, trabalho em forma diretamente social" (MARX, K. O
capital: crtica da economia poltica. 8 ed. Livro I, v. I e II. So
Paulo: DIFEL, 1982, p. 44, 66). 101 A extenso das leis fabris a todos
os ramos se tornou indispensvel para proteger mental e fisicamente a
classe trabalhadora. Ela generaliza e acelera, conforme j vimos, a
transformao dos processos de trabalho dispersos e de diminuta escala
em processos de trabalho combinados que operam em grande escala social;
em conseqncia, acelera a concentrao do capital e o domnio exclusivo
do sistema fabril. Ela destri todas as formas antigas e transitrias
atrs das quais ainda se esconde parcialmente o capital [...]. Ao
arruinar a pequena indstria e o trabalho em domiclio, destri os
ltimos refgios dos trabalhadores suprfluos e, portanto, a vlvula de
segurana que at agora tem preservado todo o mecanismo social. Ao
favorecer as condies materiais e as combinaes sociais do processo de
produo, agua as contradies e os antagonismos da forma capitalista
de produo amadurecendo, ao mesmo tempo, os elementos formadores de uma
sociedade nova e os destruidores da sociedade antiga.27         A
transformao do trabalho familiar, base da produo individual, em
trabalho social, pressuposto da participao de todos os membros da
antiga famlia, revela-se movimento precioso na histria humana. Apesar
dos problemas que traz sobretudo aos operrios, o trabalho coletivo ,
antes de tudo, superao do processo de produzir riqueza contida nos
estreitos limites das mos: uma das condies do ser social. Afinal, no
 esse o acerto de contas que a sociedade burguesa realiza com as
antigas foras feudais? A possibilidade de a cincia gerar riquezas
incomensurveis, o avano inigualvel das foras produtivas libertas dos
obstculos naturais demonstram para Marx que os homens no sculo passado
haviam gerado condies para passarem do reino da necessidade para o
reino da liberdade. Dependia deles, principalmente daqueles que nada
mais tinham a perder, travar a luta contra a barreira histrica que
ainda os acorrentava ao mundo da necessidade. Consideraes finais
A complexidade do mundo atual, as metamorfoses que agitam
incessantemente as relaes humanas vm desafiando a criatividade dos
homens. De um lado, o desenvolvimento tecnolgico anuncia profundas
alteraes nos processos produtivos, s vezes considerados aterradores;
de outro, tem levado  concepo de que pode livrar a humanidade dos
males que atormentam o trabalho moderno, apreendido em si como sinnimo
de desqualificao e degradao.         Estudos evidenciam que a
qualificao e a intelectualizao do trabalho sero para alguns que
constituem o ncleo das empresas; desqualificao, precarizao,
trabalho informal para os muitos outros que compem o subproletariado
fabril e de 27. MARX, K. O capital: crtica da economia poltica. 8 ed.
Livro I, v. I e II. So Paulo: DIFEL, 1982, p. 575. 102 servios.
Antunes28 alerta para que no se tenha iluso alguma sobre essa lgica
destrutiva que elimina a fora humana de trabalho.         No sculo XX,
a educao politcnica  apreendida como meio de acesso aos
conhecimentos para que os trabalhadores reconquistem o domnio sobre os
processos produtivos, tal como no passado. Certos estudiosos a
consideram uma necessidade trazida no bojo da chamada revoluo
eletrnica.         Alguns pensam que este sculo oferece condies mais
propcias ao desenvolvimento da educao politcnica do que aquelas do
passado. A produo, acompanhada de massificao personalizada, tem
instigado o pensamento humano. A exigncia de um outro comportamento dos
trabalhadores vindos dos processos produtivos assentados nos princpios
fordistas e tayloristas so fenmenos que atordoam pesquisadores. A
competitividade global fundada na ciberntica, na teleptica, na
biogentica e na robtica d a impresso de que a tradicional escola
politcnica no corresponde mais  materialidade. Por isso, a maioria
pensa que a educao deve se modificar. Essa incipiente aprendizagem,
dizem, deve evoluir at chegar  politecnia plena, ainda que o mundo do
trabalho continue a expulsar ininterruptamente os homens.         A
chamada reestruturao produtiva tem motivado empresrios e certas
instituies a pensar em reformulaes educacionais. H consenso entre
determinados segmentos sociais de que no basta que os indivduos sejam
alfabetizados. Cada vez mais est sendo reforada a idia de que a
educao geral bsica  a forma mais adequada para garantir qualificao
profissional para os operrios das fbricas flecveis e automatizadas.
O avano da tecnologia eletrnica, pensam outros, potencializa a
aprendizagem politcnica e exige uma qualificao diferente daquela que
atrela o operrio a tarefas repetitivas. A escola unitria que conjuga
contedos gerais e educao profissional, pensam alguns,  a alternativa
mais adequada  formao dos indivduos.         A politecnia, assim
compreendida, deve ser uma aprendizagem capaz de articular teoria e
prtica, possibilitando ao aluno conhecimento do trabalho produtivo,
forma de extinguir a indesejvel ruptura entre o trabalho manual e o
intelectual. De modo geral, a concepo da educao politcnica funda-se
no pressuposto de que essa forma educativa faz emergir um novo homem: um
indivduo plenamente desenvolvido, em aposio quele qualificado
unilateralmente para o mercado de trabalho.         Ainda que essa
formulao seja realizvel, ainda que do trabalhador seja solicitada
capacidade de resolver em conjunto com os demais operrios problemas da
f- 28. ANTUNES, R. Adeus ao trabalho?: ensaios sobre as metamorfoses e
a centralidade do mundo do trabalho. So Paulo: Cortez/Editora da
Universidade Estadual de Campinas, 1995, 155 p. 103 brica, de decidir,
de planejar, de lidar com situaes que exijam criatividade, o operrio
da era eletrnica continua a produzir riqueza para o outro na forma de
trabalho excedente. Ser este um novo homem?         Mesmo que o
operrio da era politcnica domine a cincia incorporada na maquinaria
eletrnica e domine seus mistrios, esta no lhe pertence. Os que
conseguem viver do trabalho produtivo continuam obrigados a vender a
nica coisa que lhes pertence: sua capacidade de trabalho.         Uma
fbrica japonesa totalmente automatizada instiga especulaes sobre o
futuro do ensino politcnico. Nela, robs trabalham vinte e quatro horas
produzindo robs que necessitam espordica e imprevisivelmente de
operrios somente para manter os incansveis trabalhadores eletrnicos.
Parece que a sociedade burguesa possui foras to poderosas que elas se
encontram em contradio com as relaes sociais que teimam em perpetuar
o trabalho vivo.         Antunes alerta para a impossibilidade de
generalizar fbricas daquela natureza no capitalismo. Os robs no so
consumidores e nem assalariados e, como tais, no podem vender sua
capacidade de trabalho, razo e objetivo desta sociedade. Se assim ,
impe-se uma indagao: os operrios fabris so ainda necessrios 
produo da existncia humana?29         De qualquer modo, Antunes30
traz  considerao o fato de que a fbrica de robs  uma exceo, vem
a ser algo que emerge desta sociedade. Embora impedida de se tornar uma
universalidade, essa fbrica demonstra que muitas outras mquinas
poderiam trabalhar indefinidamente com seu movimento perptuo, se no
fossem os seus auxiliares humanos que necessitam de alimentos, de
repouso, de escola, de reposio de energia para mais uma jornada de
trabalho.         O empenho em dar forma e sentido  educao bsica, 
aprendizagem politcnica  sintomtico quando o trabalho passado se
expande velozmente s custas do trabalho vivo. Muitos insistem em
ignorar que a educao sobrevive em meio  bar- 29. "O caso da fbrica
automatizada japonesa Fujitsu Fanuc, um dos exemplos de avano
tecnolgico,  elucidativo. Mais de quatrocentos robs fabricam, durante
24 horas do dia, outros robs. Os operrios, quase quatrocentos,
trabalham durante o dia. Com mtodos tradicionais seriam necessrios
cerca de 4 mil operrios para se obter a mesma produo. Em mdia, a
cada ms, oito robs so quebrados, e a tarefa dos operrios consiste
basicamente em prevenir e reparar aqueles que foram danificados, o que
traz um volume de trabalho descontnuo e imprevisvel. Existem ainda
1.700 pessoas nos trabalhos de pesquisa, administrao e comercializao
da empresa" (ANTUNES, R. Adeus ao trabalho?: ensaios sobre as
metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. So Paulo: Cortez
Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1995, p. 5 1). 30.
ANTUNES, R. Adeus ao trabalho?: ensaios sobre as metamorfoses e a
centralidade do mundo do trabalho. So Paulo: Cortez/Editora da
Universidade Estadual de Campinas, 1995, 155 p. 104 brie. H
formulaes de que o mundo todo se transforma em um enorme leprosrio
social justamente pela ausncia de explorao capitalista."
Pesquisadores tm afirmado que nas prximas dcadas o mercado de
trabalho mundial estar to alterado que ser impossvel evitar taxas
elevadssimas de desemprego no mundo todo. Rifkin32 prev a extino de
profisses tradicionais como recepcionistas, secretrias, gerentes de
nvel mdio, etc. Em sua avaliao, conclui que caso fosse possvel
treinar todas as pessoas desempregadas na indstria e nos servios, o
que lhe parece duvidoso, o setor de informao no conseguiria
absorvlas. A atual revoluo tecnolgica no necessita mais de trabalho
em massa, constata o autor.         Outros advertem que o trabalho se
extinguiu. O capitalismo, dizem, no  mais aquele da era industrial,
que supunha um conjunto de homens indispensveis na obteno do lucro. A
mudana, diz Forrester,33 est na natureza do capital que, sob o signo
da ciberntica, da automao, das tecnologias revolucionrias, torna o
trabalhador descartvel, condenado  eliminao.         O grau de
pobreza que alimenta o horror social no resulta de qualquer crise,
observa a autora. O que est mudando  a prpria civilizao que
dispensa o trabalho, mesmo que deformado sob a forma perversa de
emprego. Os marginalizados no mais ocasionais resultam de uma lgica
planetria que se incumbe de suprimir o trabalho. Denncias so feitas
s polticas destinadas a preservar ou a criar empregos em um mundo onde
a excluso das relaes sociais existentes  quase absoluta para uma
grande parcela.         Neste fim de sculo, dados estatsticos mostram
que o desemprego aumenta assustadoramente. Atualmente, experimentam os
homens a negao daquilo que lhes parece natural: a possibilidade de
sobreviverem pelo assalariamento. Estudos constatam que, caso esta
sociedade continue se reproduzindo nos prximos sculos, os homens se
repartiro em dois grupos: os regidos pela lgica do capital -
assalariados e capitalistas -, que vivero no paraso da abundncia; e
os excludos - famintos e desesperados -, que buscaro quaisquer meios
para se manterem vivos. A misria misturada ao seu contrrio, ao espao
da riqueza de alta tecnologia, produzir uma simbiose monstruosa da
modernidade presente e futura. A reproduo de- 31. KURZ, R. O colapso
da modernizao: da derrocada do socialismo de caserna  crise da
economia mundial. So Paulo: Paz e Terra, 1992, 244 p. 32. RIFKIN, J.
O.fim dos empregos: o declnio inevitvel dos nveis de empregos e a
reduo da fora global de trabalho. So Paulo: Makron Books, 1995. 33.
FORRESTER, V. O horror econmico. So Paulo: Editora da UNESP, 1997, 156
p. 105 generativa do capital, o ser social, como possibilidade de
emancipao humana, pode se dissolver no ar. 34         Iniciativas que
tm por objetivo modernizar a aprendizagem para atender s necessidades
da era eletrnica refletem, nestes tempos, mais do que dificuldades da
educao politcnica herdada da Revoluo Industrial. As instituies
educacionais convivem com o desemprego, o terrorismo e o crime
organizado, no mundo todo. Os homens nessa condio histrica tornam-se
livres do capital, sem serem, ainda, outra coisa. Parece ser esta a
questo do nosso tempo, conclui Aued.35         Nos dias atuais, a
educao se encontra diante de um dilema: o que fazer com a grande
maioria que no consegue se inserir no mundo do trabalho e que 
obrigada a sobreviver de distintos modos? De que educao eles precisam?
Toda vez que uma sociedade comea a ser fustigada pelo seu prprio
movimento revolucionrio, ela mesma se incumbe de desarticular
instituies sociais que parecem inabalveis. No foi assim com as
antigas relaes feudais? No foi a sociedade medieval que, ao expulsar
os homens da terra e ao transform-los em vagabundos, deu origem, aliada
a outras condies, aos trabalhadores livres, um dos pressupostos da
nova sociedade?         Os desempregados, os miserveis, os nmades que
vagueiam pelo mundo, enfim, os excludos modernos de quaisquer relaes
sociais constituem indcios do qu? Em histria, existem possibilidades.
A revoluo  uma delas, assim como a barbrie.         A educao
politcnica, embora intimamente ligada  relao ensino-aprendizagem,
no deixa de espelhar o movimento desta sociedade. A escola bsica
reformulada ou a politcnica no conseguem resolver problemas que os
prprios homens criam. Os seus limites refletem os limites desta forma
histrica de vida. Nada mais injusto do que atribuir  educao a
soluo de um problema que  histrico.36         Refletir sobre uma
outra aprendizagem significa pensar, talvez, em como se dar a educao
onde o trabalho das mquinas substituem trabalhadores. E, a partir dessa
condio histrica, pensar sobre o que poder ser o novo, justamente um
ho- 34. AUED, I.M. Capital e emancipao humana: o ser social.
Florianpolis: Universidade Federal de Santa Catarina, Centro
Scio-Econmico, Departamento de Cincias Econmicas, 1998 (Texto
apresentado para discusso no Curso de Ps-Graduao). 13 p. 35. AUED,
I.M. Capital e emancipao humana: o ser social. Florianpolis:
Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Scio-Econmico,
Departamento de Cincias Econmicas, 1998 (Texto apresentado para
discusso no Curso de Ps-Graduao). 13 p. 36. FIOD, E.G.M. Homens sem
paz: escola, trabalho e colonizao. So Paulo: Pontifcia Universidade
Catlica, 1995. Tese de doutorado em Educao. 260 p. 106 mem que emerge
das entranhas do trabalho coletivo, nesta sociedade. A histria no se
cansa de mostrar que tudo  movimento, tal como constatam alguns
privilegiados hereges. RESUMO         As transformaes que afetam os
processos de trabalho, as relaes sociais e educacionais, tm provocado
incertezas, angstias e inmeras indagaes sobre os destinos desta
sociedade. Formulaes otimistas querem fazer crer que as novas
tecnologias oriundas da eletrnica potencializam a formao do indivduo
integral, em oposio quele trabalhador vindo da produo industrial.
Afirmaes sobre a possibilidade de emergir um novo homem esto se
tornando gerais. No so raros os que consideram a morte da aprendizagem
tradicional e, portanto, a morte dos chamados paradigmas educacionais e
sociais que a sustentam. Para outros tantos, o mundo caminha
inevitavelmente para a barbrie. Dizem que a sociedade, caso se mantenha
reproduzindo como tal, criar uma simbiose monstruosa misturando o
paraso da abundncia para poucos ao mundo dos famintos e dos
desesperados, que faro qualquer coisa para sobreviver. Distintas
formulaes afirmam uma universalidade: a constatao de que as
instituies sociais parecem se desorganizar neste final de sculo.
Nesse cenrio, move-se a educao. No mundo todo, a excluso social no
tem limites. Milhes de homens so compelidos a resolver seus problemas
individualmente. O crime organizado, a morte pela fome, o aumento da
violncia so estarrecedores, o que leva  considerao de que o
trabalho, como princpio educativo, convive com o seu oposto: o
no-trabalho para uma grande maioria. A sociedade do trabalho d
indcios de que  necessrio ressituar a discusso do ensino politcnico
neste final de sculo. QUESTES PARA DISCUSSO 1. Que pressupostos
sustentam a formulao de que a educao politcnica  capaz de formar
um indivduo diferente do que existe nesta sociedade? 2. Que desafios
educacionais a sociedade impe aos pesquisadores que investigam a
qualificao para o trabalho neste fim de sculo? 3. Por que existem
tantas instituies propondo requalificao profissional, nesta poca em
que o desemprego invade o mundo? PARA LER MAIS AUED, I. Transio ao
socialismo: o caso da URSS. In: Praxis. Belo Horizonte,         1997.
Ano IV, n. 10, p. 69-100. 107 ENGELS, F. Do socialismo utpico ao
socialismo cientfico. 3 ed. Lisboa: Avante, 1975. (Biblioteca do
Marxismo-Leninismo, n. 4). ENGELS, F. A situao da classe trabalhadora
na Inglaterra. 2 ed. So Paulo: Global, 1985 (Coleo Bases, 47).
FIGUEIRA, F.G. Dilogos de um novo tempo. So Paulo: Universidade de So
Paulo, 1989. Tese de doutorado em Sociologia. Capital e emancipao
humana: o ser social Idaleto Malvezzi Aued Temas O Trabalho individual e
cooperativo Primeiro passo do ser social: mercadoria e dinheiro Segundo
passo: O capital em geral Terceiro passo: O capital industrial (modo de
produo capitalista)  Diviso do trabalho e manufatura  Produo
industrial: a fbrica Introduo         O estudo de O capital, de Karl
Marx, impe-se nos dias atuais, principalmente aps a derrocada da Unio
das Repblicas Socialistas Soviticas (URSS) e com a contnua reproduo
do modo de produo capitalista, pela qual os homens, produtores
diretos, em geral e insistentemente, perdem seus postos de trabalho.
Atualmente, vive-se um momento de perplexidade e desalento. A velha
ordem burguesa  glorificada. O fim da histria  a ideologia que se
transforma em nico paradigma para as pessoas no fim do sculo XX.
Os liberais exaltam as virtudes da racionalidade do capital, razo pela
qual propem a destruio de todo e qualquer entrave  livre e plena
mobilizao do capital. A interveno do Estado, as conquistas por
melhores condies de vida e de trabalho pelos trabalhadores e seus
sindicatos, os benefcios para uma velhice mais digna e para uma
infncia adequada a todos so apresentados como meios inadequados de
alocar eficientemente os recursos.         Os social-democratas propagam
a luta pela melhoria das condies existentes para todos os cidados. Os
pases do Primeiro Mundo, onde as condies de vida so superiores s
existentes nos demais, so modelos a serem alcanados. Afirmam que
democracia, liberdade, igualdade, distribuio de renda, renda mnima,
aposentadoria digna para todos, baixa mortalidade infantil, educao e
sade universais so conquistas necessrias, e os homens devem lutar
para alcan-las, dentro da ordem constituda. 109         Mas o homem
no constri o mundo que deseja, ao contrrio, o faz nas condies
dadas. Por conseguinte, as relaes sociais so criadas pelos homens e
correspondem ao grau de desenvolvimento das foras produtivas sociais.
Assim  que a luta por novas formas sociais deve compatibilizar-se 
correspondncia entre foras produtivas e relaes sociais de produo.
O modo de produo capitalista advm de uma base produtiva pela qual os
homens engendram a possibilidade e a necessidade de uma nova ordem
social.         Neste texto discuto o ser social como possibilidade de
emancipao humana, na universalidade do modo de produo burgus.
Sustentam esta anlise as formulaes contidas em O capital, que possui
trs pressupostos marcantes: o materialismo-dialtico, enquanto teoria
do conhecimento; a crtica  economia poltica; e a teoria do ser
social.         Enquanto teoria do conhecimento, O capital evidencia o
processo pelo qual o homem se apropria da realidade por meio da cincia.
Nesta, os fenmenos s podem ser conhecidos aps os elementos de sua
constituio terem sido explicitados em sua -plenitude. Assim, o modo de
produo capitalista s pode ser apreendido quando atinge seu estgio
mais desenvolvido, maduro. No momento em que todas as caractersticas
componentes da sociedade burguesa esto manifestas, K. Marx pode se
apropriar delas. Da que o pensamento marxista  apresentado como a
abstrao capitalista se fazendo teoria.         Enquanto crtica 
economia poltica, em O capital, K. Marx demonstra que as relaes
sociais burguesas no se assentam na relao de valor. Na teoria do
valor formulada pelos clssicos da economia poltica, principalmente
Adam Smith e David Ricardo, os homens relacionam-se na e pela troca, no
mercado. Nesta teoria os homens mercantis caracterizam-se por serem
independentes, livres, autnomos, proprietrios privados do produto de
seu trabalho e relacionam-se atravs deste, como mercadoria e dinheiro.
K. Marx, ao contrrio, evidencia que os burgueses no so nem livres,
nem independentes, nem autnomos, nem proprietrios privados do produto
de seu trabalho e muito menos se relacionam atravs dele. As leis da
mercadoria e do dinheiro no explicam o funcionamento da sociedade
burguesa. Ele demonstra que os homens no modo de produo capitalista
relacionam-se porque so proprietrios e no-proprietrios dos meios de
produo. E sua relao se d por meio do trabalho dos produtores
diretos, que entregam ao capitalista o produto de seu trabalho. Os
no-proprietrios devolvem aos primeiros uma parcela do trabalho deles
como salrios, como pagamento de seu trabalho. O restante do trabalho
produzido fica, gratuitamente, para os capitalistas na forma de
mais-valia. Portanto, no dizer de Marx, a relao entre os capitalistas
e os assalariados nada mais  do que a relao entre trabalho no pago e
trabalho pago.         Enquanto teoria do ser social, em O capital,
explicita-se que o homem diferencia-se dos outros seres vivos porque
idealiza seus produtos antes de produzi-los. O 110 trabalho  o meio
pelo qual o homem produz sua prpria existncia. E, na medida em que o
homem transforma a natureza para satisfazer suas necessidades, engendra
uma base produtiva e relaes sociais correspondentes que o diferencia
dos demais seres orgnicos. Assim  que o desenvolvimento dos homens
nada mais  do que o processo de superao das suas condies naturais.
Na medida em que a produo de suas existncias  vinculada s condies
naturais, os homens ainda se identificam com os seres vivos. Mas na
medida em que a base produtiva transforma-se, os homens rompem com sua
origem natural e criam sua natureza social. A relao de troca se
constitui na primeira forma de os homens produzirem-se independentemente
dos lugares, dos costumes, das tradies, das crenas, da quantidade dos
homens, da cor de sua pele e de seus mitos. Em seguida, engendra-se a
relao social capital usurrio e capital comercial, que transforma
todas as outras em sua imagem e semelhana. O capital propriamente dito
introduz esta universalidade no processo produtivo, ao transformar todos
os elementos, objetivos e subjetivos, do trabalho em maneiras de o valor
se valorizar. Nesta forma de ser, o trabalho adquire a plenitude de sua
existncia social, na forma de trabalho coletivo e universal, porque s
pode ser executado pela cooperao entre todos os trabalhadores e porque
sua execuo pressupe o conhecimento de todos os trabalhos j
executados pelos homens, desde sua origem at o ato de sua
materializao.         Com a produo social, os homens engendram
tambm as relaes sociais. O modo de produo capitalista , portanto,
a primeira forma social de os homens produzirem sua existncia. No
entanto, as relaes sociais burguesas esto assentadas sobre a
propriedade privada dos meios de produo, razo pela qual a
universalidade do ser social no pode alcanar a sua plenitude. Enquanto
a fora produtiva  socializada, a apropriao da riqueza faz-se por
duas formas, salrio e lucro, o que impossibilita a igualdade entre
todos os homens. O salrio  a materializao da classe proletria e o
lucro, da classe burguesa; a manuteno desta dicotomia conduz o ser
social a uma situao de degenerao. O modo de produo que explicita
os elementos do ser social, ao continuar reproduzindo-se, na atualidade,
degenera-o e conduz os homens a um estado de barbrie, pois, ao
desvincular os homens do capital, impede-os de voltar ao que eram, sem,
ainda, saber o que sero.         No texto que segue, discuto a
constituio do ser social no processo da emancipao humana, contido no
livro primeiro de O capital. Inicio diferenciando o trabalho individual
e o cooperativo, destacando que o trabalho cooperativo utilizado antes
do capitalismo no organiza nenhuma forma de sociedade, pois  utilizado
espordica e eventualmente. Todos os povos fazem uso dele. Evidencio que
a mercadoria e o dinheiro so o primeiro passo do ser social, pois so
formas sociais que no guardam qualquer vnculo com as condies
orgnicas. Em seguida apresento o capital em geral, na forma de usura e
comercial, como segundo passo do ser social, para, ento, chegar 
produo social, como capital industrial. Nesta forma, a produo da
existncia dos homens  executada pelo ser social. A diviso do trabalho
e a manufatura so os dois modos pelos quais a produo social se
materializa. Por fim, abordo a produo industrial, a fbrica, como a
forma mais desenvolvida de o ser social produzir sua existncia, mesmo
burguesa. Com isto demonstro que a produo dos homens j no tem mais
correspondncia com as condies naturais, pois agora a reproduo da
sociedade s pode ser obra da prpria sociedade e no mais obra de um
prncipe, de um rei ou do cu.         Concluo afirmando que o modo de
produo capitalista  a alavanca para que o homem rompa com as
condies naturais de sua existncia, e que no final do sculo XX este
processo pode avanar ainda mais. Se no ocorre  porque as relaes
burguesas de produo impedem este caminhar. A degenerao do ser social
 a questo do nosso tempo. A reproduo ampliada do capital pode ser
feita cada vez mais com menos homens, e, sendo assim, os homens no
conseguem mais produzir sua existncia, pois no voltaro ao que eram e
nem sabem o que sero. Trabalho individual e cooperativo         Antes
da constituio do modo de produo capitalista, o homem alcanou um
grau superior de sua existncia por meio de seu prprio trabalho. Nesta
condio e neste tempo, ele adapta (transforma) a natureza s suas
necessidades dependendo das condies naturais e biolgicas do trabalho.
Significa dizer que suas habilidades, destrezas e quantidade de
trabalhadores, juntamente com os elementos da natureza (queda da gua,
fora do vento, fora dos animais, estaes do ano, leito dos rios,
fertilidade da terra, existncia natural de animais e de plantas),
constituem-se nos pressupostos da produo de sua vida. A pequena
produo - camponesa e artesanal -, na forma de trabalho individual,
isolada e dispersa, constitui-se, em geral e socialmente, na fora
produtiva mais desenvolvida da humanidade, at ento.         A
conscincia emana das condies naturais de o homem se produzir enquanto
campons e arteso. Emana, por isso mesmo, dos elementos existentes: da
terra, do cu, da tradio, do costume e da famlia. Os homens agem de
acordo com as condies dadas no mundo. O hoje  a reproduo do ontem.
O amanh  a concretizao do hoje.         Um outro modo de os homens
se produzirem  a unio de uns com os outros, em cooperao. Esta forma,
como fora produtiva,  utilizada, espordica e eventualmente, no
decorrer de sua histria at o advento da sociedade burguesa (construo
de pirmides, de diques, de palcios, de igrejas e de outros monumentos
suntuosos, na caa de grandes animais, como fora motriz na navegao,
nas guerras, nas colheitas). Mas a cooperao no organiza nenhuma base
produtiva geral. No se constitui em base da universalizao (igualdade)
dos homens.         Os trabalhos individual e cooperativo no igualam
(homogeneizam) os homens, e nem os conduzem  ruptura com os elementos
que os tornam presos  natureza. 112 Estas formas produtivas so base de
diferenciaes entre os homens, pois, nelas, em cada tarefa especfica,
sua singularidade e sua especificidade so o que determinam o como e o
que se produz. Portanto, os homens, ao produzirem objetos de modos
distintos, isolados e dispersos, se diferenciam uns dos outros.
O elemento de conexo geral entre os homens, at este tempo,  a troca
via comrcio. Diferente e independentemente das formas produtivas
existentes (individual e cooperativa), a troca se expande para alm-mar
na forma de mercado, ainda que isto ocorra para uma quantidade diminuta
de pessoas e de mercadorias. O seu contedo  uma substncia abstrata
que no  determinada por qualquer produtor direto. Assim, homogeneza
todos aqueles que se relacionam pelo seu intermdio. A troca se
constitui no primeiro elemento de universalizao dos homens, o ser
social. Primeiro passo do ser social: mercadoria e dinheiro         A
troca, em seus primrdios, ocorre atravs dos excedentes de riqueza
(quase sempre de produtos suprfluos e de luxo) dos produtores diretos.
Ela se transforma em meio de conexo entre os homens numa malha de fio
invisvel de relaes sociais mercantis. O produto do trabalho dos
homens, ao se transformar em mercadoria, materializa a primeira forma
universal de existncia humana. Dito de outro modo, a forma mercadoria
das relaes humanas evidencia que os lugares, os produtores
individuais, os trabalhos, individual e concreto, com suas
singularidades localizados, isolados e dispersos - so superados
(negados) por uma nova determinao: o ser social enquanto
universalidade.  universal porque no se vincula a nenhuma forma
determinada, a nenhum lugar ou a qualquer pessoa. A conexo invisvel
entre os produtores diretos, como um novo ser, nega os deuses (crenas),
os reis, a tribo, a famlia, o cl e os homens individuais ento
existentes. Sua existncia  a materializao da relao entre os homens
iguais: homens livres, autnomos, independentes, proprietrios
individuais (privados) do produto de seu trabalho, cuja manifestao em
sua forma mais desenvolvida, universal,  o dinheiro.         Como
mercadoria e dinheiro, os homens produzem sua existncia (agem e se
comportam) por meio de aes engendradas pelas relaes de valor. Nesta
condio, o que, o como e o quanto se produz so determinados pelas
relaes mercantis. A individualidade  a manifestao do ser social.
Destarte,  que, agora, os homens ponderam e valorizam suas aes e atos
tendo como parmetro os comportamentos de todos os que com ele se
relacionam na forma dinheiro.         Neste processo, os trabalhos
individuais, concretos, enquanto valor de uso, transmutam-se em trabalho
social, trabalho em geral, trabalho humano abstrato. Assim sendo, o
carter prprio, local e especfico do trabalho  negado pela
determinao social, abstrata. Importa observar que tal caracterstica
s se refere ao trabalho do produtor direto que produz coisas para o
consumo dos outros, e no 113 para o seu prprio consumo. Portanto, o
trabalho social se constitui (vem ao mundo) de forma geral no momento em
que o produto do trabalho do produtor direto se transforma em meio de
conexo com outros produtores diretos (em mercadoria) na circulao da
riqueza como valor, no mercado.         A universalidade - mercadoria e
dinheiro - manifesta-se na conexo entre os homens quando um se apropria
do produto do trabalho do outro; na medida em que uns entregam para
outros o produto de seu prprio trabalho. A universalidade, enquanto ser
social, tem por base o trabalho que o produtor direto materializa para o
consumo alheio, cuja circulao se processa pela troca. Por conseguinte,
o trabalho que o produtor direto despende para produzir objetos para sua
prpria existncia no assume o carter universal. Na medida em que o
ser social se desenvolve, o trabalho realizado para seu prprio consumo
tende a desaparecer. Portanto, o trabalho do produtor direto adquire
duplo aspecto: uma parte de seu trabalho individual, concreto, serve
para produzir coisas para seu prprio consumo (subsistncia), e uma
outra parte serve para obter o produto do trabalho dos outros produtores
diretos. O trabalho de cada um serve para produzir a existncia de
outros, enquanto o trabalho dos outros serve para produzir parte de sua
subsistncia, ainda pela troca. A mercadoria e o dinheiro materializam a
segunda parte do trabalho do produtor direto.         Esta relao
social imprime ao produtor direto a caracterstica de um novo ser: o ser
mercantil como forma de produzir sua existncia. O ser mercantil pondera
suas atividades de acordo com o desprendimento de energia de todos os
que trocam o produto de seu trabalho (social). Assim, a produo de sua
existncia  determinada pelo tempo de trabalho socialmente necessrio,
em detrimento do trabalho individual. Trabalho concreto e trabalho
abstrato         Colocada a questo, podemos, agora, apreender a
separao existente entre o trabalho concreto e o trabalho abstrato. O
primeiro se refere ao trabalho que produz coisas para a existncia do
prprio trabalhador. O segundo produz coisas para a existncia de
outros, pela troca. Esta parte do trabalho  o elo que transforma o
produtor direto em ser social: independente, livre e autnomo, igual a
todos os outros que transformam o produto de seu trabalho em mercadoria.
 necessrio observar, tambm, que em todos os tempos da existncia
humana o trabalho adquire carter social, pois algum produz valores de
uso para que outros sobrevivam.  o caso, por exemplo, de algum que
produz para a sobrevivncia de crianas, velhos, doentes e, mesmo em
casos eventuais, de mulheres em fase de gestao. No entanto, o trabalho
individual, e mesmo o cooperativo, que se transforma em social, no ,
ainda, base para a troca. Por conseguinte, o trabalho, nessa condio,
no adquire a caracterstica de transformar-se em contedo do valor. No
114 se transforma na substncia que organiza os homens independentes,
livres, autnomos e proprietrios privados do produto de seu trabalho.
Cabe ressaltar que a noo de trabalho social est subscrita,
historicamente, aos primrdios da humanidade. Os homens esto, nesse
tempo, atados s condies naturais de sua existncia e, nesta
qualidade, o trabalho social no se constitui em generalidade e, muito
menos, em universalidade humana.         O trabalho social adquiriu,
historicamente, algumas formas clssicas, como, por exemplo, o trabalho
escravo e o servil. Mas nenhuma delas se universaliza como forma de ser
dos homens. Nenhuma delas se imps aos homens como um ser para alm de
meio de transformar a natureza, adequando-a s necessidades de sua
sobrevivncia.         Assim sendo, apreender a universalidade advinda
do trabalho social como trabalho humano abstrato significa explicitar os
elementos singulares desta forma histrica, bem como os homens que lhe
correspondem. Importa demonstrar as diferenas do trabalho social em
relao aos trabalhos individual e cooperativo, vinculados aos homens
que produziam sua existncia com seu prprio trabalho.         Na
universalidade, o trabalho social no est preso ao homem individual,
aos limites de suas potencialidades natural e biolgica, nem mesmo aos
limites da natureza. Na universalidade, o trabalho adquire uma
potencialidade decorrente dos elementos e das caractersticas
(artificialidade) criadas pelos prprios homens. Constitui uma fora que
emerge da unio deles, mas deles se separa e se diferencia: fora que
no  a soma das foras individuais dos homens. Ela vem ao mundo como
uma singularidade decorrente da prpria produo coletiva deles. Neste
processo, os homens se emancipam dos elementos que os prendem s
condies naturais, isto , s condies que ainda no so sociais.
Aqui, os atos dos homens so impulsionados, tambm, por uma conscincia
social libertada das condies naturais. Suas aes levam em
considerao o comportamento de todos quantos os que se relacionam pela
troca. Os homens agem com a expectativa de obter melhores resultados com
o seu trabalho em relao ao trabalho social, por meio do dinheiro. As
condies naturais dadas, e as sociais em germinao, so, agora, base
de sua conscincia. No entanto, o homem s alcana a plenitude de sua
condio humana quando sua existncia decorre da produo consciente de
seus atos. Segundo passo: O capital em geral         A universalidade,
enquanto ser social na forma mais desenvolvida, dinheiro, permite o
surgimento de um novo agente social que no mais adota (utiliza) o
trabalho para transformar e adaptar a natureza s necessidades de
sobrevivncia dos homens. Este ser social vem ao mundo pelas entranhas
das relaes mercantis. Como 115 tal, no se fundamenta na habilidade,
na destreza e na quantidade de homens. As relaes mercantis provm da
homogeneizao dos homens transformados em indivduos autnomos,
independentes e proprietrios privados do produto de seu trabalho; em
produtores de uma mesma substncia, do trabalho humano abstrato.
O novo ser social se caracteriza pela apropriao do produto do trabalho
alheio na troca, sem que para isto entregue ao outro uma quantidade
correspondente (equivalente) de produto do trabalho (seu ou de qualquer
outro) na circulao da riqueza. Personifica-se em homens que enriquecem
porque valorizam sua riqueza por meio da compra e da venda da riqueza
social, da circulao da mercadoria e do dinheiro, e no porque so
representantes de Deus, proprietrios de escravos, da terra ou do
produto do seu prprio trabalho.         Este agente existe na medida em
que os homens deixam de produzir sua existncia atravs de seu prprio
trabalho. Sua existncia passa a ser coisa do trabalho de todos os
produtores de mercadoria. Dada esta peculiaridade, temos que o trabalho
social, na forma de trabalho humano abstrato, se divide, tambm, em duas
partes: uma serve para o produtor direto obter dos outros os produtos
para sua subsistncia; e outra serve para o enriquecimento deste novo
agente social, o qual valoriza sua riqueza sem nada dar em
contrapartida. Nesse processo, o trabalho humano abstrato se transforma
em capital e, por conseguinte, deixa de ser s mercadoria e dinheiro.
So duas as formas histricas do novo agente social: capital comercial e
capital usurrio. O capital comercial caracteriza-se pela valorizao da
riqueza como valor, decorrente da compra e da venda de mercadorias: o
possuidor de riqueza compra mercadoria e a vende por um valor superior.
Assim sendo, o valor que retorna s mos deste agente social se compe
de duas magnitudes: uma, equivalente ao valor previamente antecipado
para a compra da mercadoria, e, outra, que vem s suas mos sem que por
ela tenha entregue qualquer riqueza correspondente. O capital usurrio
realiza a valorizao da riqueza por meio da circulao do dinheiro e do
emprstimo deste para outros homens. O possuidor empresta sua riqueza,
valor na forma dinheiro, para outro agente social qualquer (comerciante,
nobreza e clero) e, ao fim de um perodo determinado, recebe-o (o valor)
acrescido. Nesta operao, ele recupera o valor equivalente ao que
emprestou e recebe, tambm, uma outra magnitude de riqueza sem que tenha
entregue nenhuma contrapartida por ela.         A conscincia deste
agente social provm da possibilidade de subtrair a riqueza social no
processo de compra e venda de mercadorias. Por esta razo, sua
conscincia se vincula ao futuro. A busca para obter a riqueza no
processo de circulao da mercadoria e do dinheiro  que determina a
ao do capitalista. Ele s compra se, e somente se, existir a
perspectiva de vender a mercadoria por um valor superior ao comprado.
Ele age em funo da magnitude do trabalho social que poder obter 116
sem nada dar em contrapartida, pela troca. Eis sua conscincia. O
passado  to-somente ponto de partida. O futuro determina o presente.
Na busca permanente e constante de se reproduzir, o capital estimula e
impulsiona, quantitativa e qualitativamente, o desenvolvimento da
conexo mercantil entre os homens. Por conseguinte, o mundo da compra e
venda  subsumido pelo rondo do capital, que lhe impe uma nova
determinao. Porque a nova forma social, o capital em geral, nasce, se
desenvolve e se reproduz no interior das relaes mercantis.         Ao
estimular a ampliao da transformao do produto do trabalho em
mercaoria, o capital faz emergir os limites da base produtiva assentada
nas condies naturais e biolgicas do trabalho. Assim, determina
historicamente, cada vez mais e em maior dimenso, que se expanda a
conexo mercantil entre os milhes de produtores independentes,
autnomos e livres. A malha invisvel da relao social, que se
constitui no ser social, estende seus tentculos aos mais longnquos
lugares, ao transformar o produto do trabalho dos produtores diretos em
mercadoria, e os homens em personalizao do valor.         Tal dinmica
impulsiona a transformao de grande parte da riqueza em forma
mercantil. Por isto, o contedo do novo poder e da sociabilizao dos
homens  determinado pelos capitais mercantil e usurrio, na forma de
mercadoria e dinheiro, em detrimento do poder assentado sobre a posse da
terra, da espada e da cruz.         O novo agente social, enquanto
universalidade, no tem forma prpria. Por conseguinte, essa relao
social toma emprestada (assume) a forma mercantil para exlicitar-se.
Assim, dinheiro e mercadoria, agora, trazem dentro de si duas
determinaes distintas: materializam a conexo entre os homens por meio
da troca do produto de seu trabalho (nesta troca, mercadoria e dinheiro
so a correspondncia de um contedo que lhe  prprio: valor); e,
materializam a conexo dos que nada produzem, mas que se apropriam da
riqueza alheia, tambm pela troca (nesta, mercadoria e dinheiro no
correspondem a um contedo que lhes diz respeito). Para alm das
aparncias de mercadoria e dinheiro, h duas relaes sociais que
entrelaam e se confundem, mas que so universalidades distintas e
singulares. Uma se configura como circulao de mercadoria e dinheiro
enquanto valores, e a outra se configura como valor que se valoriza na
circulao da riqueza, como capital em geral. A primeira expressa a
materializao de homens independentes, livres, autnomos e
,proprietrios privados do produto de seu trabalho; a segunda
materializa a existncia de homens livres, independentes, autnomos e
proprietrios privados do produto do trabalho de outros homens,
adquirido pela troca, sem que haja uma contrapartida equivalente. 117
Terceiro passo: O capital industrial (modo de produo capitalista)
A expanso histrica do capital impe a transformao dos meios de
produo em monoplio dos capitalistas. Neste processo os produtores
diretos so expropriados dos meios de produzir sua vida. Ao serem
expropriados dos meios de produzir sua subsistncia, os produtores
diretos so obrigados, forados, a transformar, tambm, sua fora de
trabalho em objeto comprado e vendido (sua capacidade de trabalhar
adquire a forma valor, ou seja, passa a ser mensurada pelo tempo de
trabalho socialmente necessrio na forma de valor de troca), mercadoria.
Neste caminho, tanto os meios de produo quanto a capacidade de
trabalhar so transformados, respectivamente, em elementos objetivos e
subjetivos do processo de trabalho, transformados, por sua vez, em
mercadoria. A conseqncia  uma expanso sem precedentes do produto do
trabalho em mercadoria.         Destarte, toda a riqueza passa a ser
objeto de compra e venda, tanto o que se produz, como tambm com o que
se produz. Deste modo, os meios de produo, a fora de trabalho e o
trabalho, que estavam "atados" aos produtores diretos, so subordinados
 relao social mercantil. So transformados em meios de produzir a
valorizao da riqueza do capitalista. Por isto mesmo, os meios de
produo, a fora de trabalho e o trabalho emancipam-se das condies
naturais da produo dos homens. Deixam de ser utilizados para produzir
a existncia dos produtores diretos. Os meios de produo, a fora de
trabalho e o trabalho so subordinados  determinao burguesa, 
valorizao do valor.         O capital, ser puramente social,
apropria-se do processo produtivo do sculo XV ao sculo XVIII.
Estabelece seu monoplio sobre a riqueza (pela propriedade privada).
Determina como burguesa (social) a produo da existncia dos homens. A
sociabilidade humana  impulsionada pelo processo permanente e contnuo
de realizar o trabalho como fonte de valorizao da riqueza dos
proprietrios dos meios de produo. Anteriormente, o homem produzia sua
subsistncia com seu trabalho. Posteriormente, o homem transforma o
trabalho em fonte de obteno do produto do trabalho dos outros para
sobreviver. Agora, o trabalho se transforma em fonte da valorizao da
riqueza enquanto valor. O trabalho vivo se transforma em fonte de
ampliao do trabalho passado, em meio de produzir mais riqueza. O
trabalho passado torna-se meio de subtrao de mais trabalho vivo dos
produtores diretos devido  sua reproduo ampliada na forma de capital.
Nesta nova sociabilizao (a burguesa), o trabalho se liberta do homem
(do produtor direto). Depois, o homem se liberta do trabalho e se
autonomiza. O trabalho se constitui em meio de auto-expandir-se, como
fonte de apropriao da riqueza por uns (poucos), produzida por outros
(muitos) como capital. O trabalho, nesta forma, domina os homens
(capital). O tempo de trabalho socialmente necessrio se constitui na
medida da riqueza social. 118          necessrio observar que a
dinmica capitalista se impe s formas anteriores de os homens
produzirem sua existncia. Ela as destri, transforma-as, ou adapta-as 
sua imagem e semelhana. Assim, os produtores que vivem do seu trabalho
transformam-se em vendedores de sua capacidade de trabalhar.         A
nova realidade evidencia que os produtores diretos s podem obter os
meios de sua subsistncia por meio da troca no mercado, na sociedade. E
somente os obtm quando entregam  sociedade sua capacidade de
trabalhar, como mercadoria. A conexo entre os homens mercantis, na
forma de trabalho prprio e de outros, d lugar  conexo entre os
homens burgueses: proprietrios e no-proprietrios dos meios de
produo. Esse elo entre os homens se expande, determinando a condio
segundo a qual todos os seres humanos dependem de todos para sobreviver.
Neste novo mundo, ningum mais produz sua sobrevivncia com seu prprio
trabalho. Ningum v em qualquer produto o trabalho de um trabalhador
especfico. O trabalho  a materializao do trabalho em geral, social,
pura abstrao.         Os produtores diretos, desprovidos dos meios de
produzir sua sobrevivncia, transformam-se em vendedores de sua
capacidade de trabalhar (em assalariados). Nesta condio, o trabalho
criado, novo, destina-se a dois objetivos: um, que  repor o desgaste
fsico e mental dos trabalhadores (trabalho necessrio), e outro, que 
a valorizao do valor (trabalho excedente). Portanto, o crescimento ou
a expanso do trabalho passado s se processa atravs do trabalho
excedente. Assim sendo, o trabalho passado tem por objetivo subtrair
trabalho dos produtores diretos em maior dimenso. Origina-se no
trabalho excedente produzido pelos produtores diretos, pelos
assalariados. Por conseguinte, a relao entre capital e trabalho -
forma aparente da sociedade burguesa - nada mais  do que a relao
entre as duas partes nas quais se subdivide o trabalho criado pelo
produtor assalariado: constitui a relao entre trabalho necessrio e
trabalho excedente da mesma populao trabalhadora.         O capital,
quando se apropria do processo de produo, transmuta-se de capital
mercantil e usurrio (capital em geral) em capital industrial. Na medida
em que se apropria da produo, engendra um outro modo e uma outra forma
de produzir riqueza. Sua razo de ser (produzir para acumular-se com a
finalidade de produzir mais riqueza)  que impe  produo a capacidade
de gerar riqueza ilimitadamente. Quanto mais potencializa a produo da
riqueza, mais incorpora trabalho vivo (excedente) em trabalho passado.
As condies que limitam a produo das coisas para serem vendidas e
compradas tm que ser rompidas e superadas.  esse processo que permite
um fantstico salto de qualidade das e nas foras produtivas sociais e
que rompe com o invlucro que prendia a produo s condies naturais.
Ademais, no modo de produo capitalista, as foras produtivas se
transformam de foras naturais em artificiais. As relaes sociais se
constituem em uma nova potencialidade produtiva (fora produtiva) que
no existe na natureza. A fora produtiva, advinda dessas relaes 119
sociais, configura a base do modo de produo capitalista, o qual no
tem limites no processo de transformao da natureza. O nico limite,
temporrio, que se impe  produo ilimitada da riqueza  o domnio e o
controle que o homem tem sobre a natureza.          evidente que na
natureza existem foras cuja potencialidade  ilimitada, como, por
exemplo, a energia da mar, da onda do mar, do vento, da hidrulica, a
solar e a atmica. Entretanto, o homem individual e natural no pode se
apropriar delas, a no ser limitadamente. O domnio se d quando o homem
pode "domesticar" a natureza, quando ele consegue usar essas foras
onde, como e quando desejar. Domin-la significa transform-la em
movimento regular, constante, contnuo, homogneo, harmnico, inclusive
podendo armazen-la em recipientes adequados e transport-la de um lugar
para outro, para ser usada nos momentos oportunos. Para dominar as
foras existentes na natureza, os homens tm que produzir meios para
tanto. Apenas coletivamente podem produzir tais meios, artificialmente,
pela cincia. Exemplificando: pensemos sobre fazer um objeto qualquer
com os braos humanos. Quantas operaes o homem pode executar
simultaneamente? Quando muito, duas. Se se deseja fazer uma tarefa maior
que as possibilidades de um nico homem, em um curto espao de tempo,
necessrio  que sejam incorporados mais homens na consecuo dela. No
h possibilidade de o homem executar uma tarefa maior do que suas
potencialidades naturais. A unio de homens amplifica a fora mecnica
do trabalho, potencializando-a, como  o caso da construo das
pirmides egpcias. Somente com a unio de muitos homens,
simultaneamente, foi possvel transportar pedras muito pesadas de um
lugar para outro e coloc-las umas sobre as outras.  impossvel admitir
a existncia de pirmides egpcias como produto de um nico homem. Nesse
sentido, a pirmide s pode ser compreendida como resultado de uma fora
produtiva advinda da conexo de muitos seres humanos.         Observemos
a natureza. Imaginemos que a laranja seja o alimento bsico do homem.
Ele poder consumi-la somente at o limite mximo da quantidade
existente dela. Se as condies da produo desse man forem naturais, o
consumo de laranja  determinado pelo nmero e pela qualidade de ps de
laranja que se reproduzem naturalmente, que, por sua vez, dependem das
estaes do ano, do clima, do solo e da temperatura. Se, por qualquer
razo (crescimento da populao, ou se se deseja ofertar uma maior
quantidade de manjares saborosos aos deuses), o consumo de laranja
crescer, no h como, em curto prazo de tempo, ampliar a oferta. Temos
de esperar que as sementes da laranja encontrem ambiente adequado para
sua germinao e posterior produo de novas laranjas para que possamos
atender  exigncia de mais manjares. Nesse caso, a casualidade e o
tempo do seu ciclo reprodutivo determinaro quantas laranjas podero
existir para serem consumidas. Mas, se o homem domina pela sua ao
(prxis) o ciclo vegetativo dessa fruta, ele pode, 120 ento, acelerar a
germinao da semente e, em decorrncia, plantar quantas mudas dela
forem necessrias para satisfazer  nova demanda por laranja. Assim, a
quantidade de laranja produzida depende das condies do domnio que o
homem tem sobre a natureza. Destes dois exemplos depreendemos que as
condies naturais so limitadas para produzir riqueza conforme as
exigncias da sociedade burguesa.         O capital, quando se apropria
do processo produtivo, constitui-se no fator primordial da determinao
da produo, tendo por base a cooperao entre os homens, isto , o
trabalhador coletivo. Na constituio do trabalhador coletivo, o capital
destri, transforma ou molda as formas individuais de produzir riqueza 
sua imagem e semelhana.         A constituio do ser social no  uma
decorrncia da forma burguesa de produo da riqueza. Decorre, isto sim,
da forma cooperada (da unio) que os homens realizam ao se produzirem na
sociedade capitalista. O homem burgus produz sua existncia tendo por
base os meios criados pelo prprio homem. E, ao assim proceder, desata o
homem dos meios naturais para prend-lo s relaes sociais burguesas:
ao capital. Atar o homem ao capital significa dizer que sua existncia 
determinada pelas formas sociais nas quais a produo se transforma. O
homem, na sociedade capitalista,  dominado pelos meios de produo.
Adapta-se s formas,  potncia e  velocidade desses meios. Os homens
ao se produzirem como burgueses desenvolvem o ser social, o produtor
coletivo, como nova singularidade humana.         Portanto, a
constituio do ser social, como emancipao humana, foi engendrada pelo
modo de produo capitalista. Configura-se pela conexo entre todos os
homens na produo de sua existncia. Tal constituio materializa-se na
medida em que so destrudas as formas individuais e naturais da prxis
humana. O modo de produo capitalista engendra um novo ser que se
liberta (emancipa-se) da processo natural. O novo ser no mais se
alimenta e se reproduz com base nas condies naturais existentes.
A forma burguesa de os homens se relacionarem impe a universalizao
dos homens. Engendra as condies e as possibilidades para que o ser
social venha ao mundo. Porm, a universalidade que se manifesta como
capital reparte os homens em duas classes sociais: proprietrios e
no-proprietrios dos meios de produo. Cada uma delas expressa,
individualmente, a posio que os homens desempenham no processo de
valorizao do valor. Os homens agem e produzem determinados pelo valor
que se valoriza na produo: pelo capital industrial. Essa
universalidade imprime s classes sociais seu carter e sua natureza
histrica. 121 Diviso do trabalho e manufatura         A diviso do
trabalho, no interior da unidade produtiva, e a manufatura so as
primeiras formas pelas quais o trabalho se subordina s condies
sociais, em oposio s condies naturais e biolgicas dos homens. As
pequenas produes artesanal e camponesa sucumbem diante da maior
eficincia na produo da riqueza (reduo do tempo de trabalho). O
trabalhador individual, isolado e disperso, d lugar ao trabalhador
social mdio, advindo da cooperao (unio) de muitos trabalhadores.
O capital subordina o trabalho  sua lgica e, ao faz-lo, multiplica
exponencialmente a quantidade de mercadorias produzidas (que necessitam,
tambm, serem realizadas, transformadas em dinheiro). Para que isso
ocorra,  necessrio ampliar o mundo consumidor de mercadorias. Por
outro lado, o aumento da produo de mercadorias impe a necessidade da
transformao dos meios de produo em objetos comprados e vendidos. So
estas variveis que estimulam a transformao das condies de
sobrevivncia humana em mercadorias.         O produtor direto (o
trabalhador) subordina-se ao capital. Sua sobrevivncia s pode ocorrer
quando e se puder vender sua capacidade de trabalho ao capitalista. Na
manufatura, alm de no dispor dos meios de produzir sua prpria
subsistncia, o trabalhador perde, tambm, sua capacidade de domnio
sobre seu ofcio. Vinculado ao trabalhador coletivo,  diviso do
trabalho, ao trabalho parcial, faz apenas uma parte do produto, ainda
que pelas mos. Ao aperfeioar-se e ao habilitar-se a fazer uma parcela
do produto pela repetio e pela constncia de seus movimentos, cada vez
mais simplificados, o trabalhador transforma seu instrumento de trabalho
em ferramenta especializada para aquela tarefa especfica que domina. O
produtor direto transmuta-se em vendedor de sua fora de trabalho ao
capital. Subordina-se ao trabalho parcelar e s ferramentas
especializadas, na e pela diviso do trabalho.         Os distintos
ofcios que determinam a diferena entre os artesos vo sendo, pouco a
pouco, substitudos pela diferena entre os artesos na confeco de uma
mesma tarefa. A diferena entre os artesos tende a ser eliminada no
processo do trabalho cooperativo. A unidade-padro do trabalho passa a
ser o tempo social mdio. Exemplificando: suponhamos que na confeco de
uma certa tarefa 10 (dez) homens demoram 20 (vinte) horas para
realiz-la, cada trabalhador, em mdia, gasta 2 (duas) horas nessa
operao. A habilidade e a destreza do trabalhador mdio (2 horas para
executar a referida tarefa) impem esse padro aos trabalhadores
individuais (parcelares). As caractersticas de cada arteso sero
moldadas pelas caractersticas do trabalhador socialmente necessrio.
Por isso, o ser social que emerge do modo de produo capitalista
manifesta-se, inicialmente, como pura abstrao social, forma do
trabalhador mdio. O trabalhador mdio no se identifica com nenhum
trabalhador individualmente. Sua existncia  social e , ao mesmo
tempo, o germe do trabalhador coletivo. 122 No processo capitalista de
produo o ser singular se universaliza na forma de trabalhador
socialmente mdio, o qual impe suas caractersticas (habilidade e
destreza) a todos os homens.         O ser social, como trabalhador
socialmente mdio, como unidade do trabalhador coletivo, se manifesta em
duas formas: uma humana e outra material. Enquanto humana, ele se impe
como trabalhador individual que tem de executar as mesmas tarefas, no
mesmo tempo, com a mesma qualidade e quantidade: um trabalhador  igual
a qualquer outro trabalhador. Enquanto material, o ser social emerge
como ferramenta especializada para a execuo da mesma tarefa.
Independentemente da habilidade e da destreza do trabalhador individual,
a ferramenta determina os movimentos e as condies de seu uso para uma
atividade, tambm, especfica. Quanto mais simples for a tarefa
executada pelo trabalhador parcelar, mais a ferramenta se especializa.
Quanto mais a ferramenta se especializa, mais homogneas e constantes
so as tarefas executadas. Quanto mais homogneas e constantes so as
tarefas, maiores quantidades de homens podem execut-las,
independentemente de suas habilidades e destrezas individuais. O
constante aperfeioamento deste processo culmina na criao do
trabalhador individual, cuja caracterstica  o puro desprendimento de
energia fsica e mental exigida na utilizao da ferramenta
especializada.         O desenvolvimento da manufatura e da diviso do
trabalho dissocia a habilidade e a destreza da energia fsica e mental
do trabalhador direto. A habilidade e a destreza se humanizam em
ferramentas especializadas, enquanto a energia fsica e mental fica
atada aos homens.  condio objetiva do trabalho, como meios de
produo, so incorporadas, tambm, as condies do trabalhador social
mdio. Produo industrial: a fbrica         O trabalho parcelar
condiciona o surgimento do instrumento de trabalho especializado.
Transforma-o em ferramenta simples. Cria a base para a constituio de
um outro modo de produzir. Seu fundamento  o ajuntamento de ferramentas
simples em um complexo mecnico: a mquina. A mquina que funciona
uniforme, contnua e regularmente, executa vrias tarefas de forma
simultnea. Substitui as mos como forma de produzir. A nova forma de
produzir riqueza material se configura no sistema fabril. Aqui, o
produtor direto (agora trabalhador social mdio) perde por completo sua
habilidade e destreza a fazer um valor de uso. A habilidade e a destreza
passam a ser de domnio do capital que as transformam em cincia,
materializada em mquina.         O trabalhador direto, ao perder suas
caractersticas de arteso, transmuta-se em membro, em pea humana que
acompanha a potncia e a velocidade da mquina. Sua tarefa se resume em
manter a mquina em funcionamento. Ele a alimenta com 123 as matrias
necessrias  produo do valor-de-uso, lubrifica-a, ou corrige
possveis falhas que podem aparecer no seu processo de funcionamento.
Posteriormente, tais tarefas sero, tambm, substitudas por mecanismos
automticos de auto-alimentao e autocorreo. A transformao das
mquinas em autmatos mecnicos tem como conseqncia a eliminao no
s das mos, mas sim, e, fundamentalmente, dos prprios homens no
processo direto de fazer um valor-de-uso.         A quantidade de
riqueza a ser produzida depende da potencialidade das foras produtivas
sociais: da cooperao entre os homens, da diviso do trabalho, da
manufatura, da mquina e do sistema fabril desenvolvidos pelas relaes
sociais capitalistas. O tamanho (dimenso) do capital no  a varivel
que determina o como e o quanto se produz. A varivel determinante  a
potencialidade da fora produtiva social. E, na medida em que o modo de
produo burgus liberta a produo das amarras das condies naturais,
transformando-a em fora produtiva social, podem os homens produzir
riqueza em quantidade jamais imaginada antes.         No processo de
generalizao do ser social, todos os elementos necessrios  criao da
riqueza so transformados em objetos comprados e vendidos: so
transformados em elementos pelos quais os homens, aparentemente, se
relacionam como ser social pela troca. A manufatura e a fbrica so
formas de produzir riqueza socialmente, em detrimento das formas
individuais e naturais. A produo social da riqueza alcana seu estgio
mais desenvolvido no sistema fabril, materializada em
mquina-ferramenta-automtica. A produo dos homens se d pela
concentrao dos meios de produo, pela cooperao, pela diviso do
trabalho dentro do mesmo processo  de produo, pelo domnio social e
pelo controle da natureza. Tais caractersticas propiciam o livre
desenvolvimento das foras produtivas da sociedade, ainda que na forma
burguesa.         A emancipao humana, nesse momento, se d pela
produo social da existncia dos homens. Agora, o ser social advm da
produo cooperativa no processo de trabalho. Provm da aplicao
consciente da cincia, do progresso tecnolgico, da explorao planejada
do solo, da transformao do trabalho que s pode ser utilizado em
comum. Supe o emprego econmico de todos os meios de produo manejados
pelo trabalho combinado e social. Envolve todos os povos na rede do
mercado (conexo) mundial. Emerge da o carter internacional
(globalismo) do modo de produo capitalista.         O que se observa
neste movimento  o fato de que os homens trilham o caminho de sua
emancipao. So as relaes sociais mercantis e capitalistas que
desenvolvem as foras produtivas. Transformam as foras individuais de
produo em foras sociais capazes de romper com o isolamento e o
parcelamento da terra e a disperso dos demais meios de produo. O
processo da emancipao do homem se d atravs do capital propriamente
dito, do capital industrial, do capital como modo de produo. 124
A emancipao, como processo civilizatrio burgus, se deu pela
violncia: atravs dos saques, da pilhagem, do roubo, dos assassinatos,
da dvida pblica, e por muitos outros processos nada idlicos. Tais
foram os meios pelos quais a produo da existncia dos homens se
transformou em monoplio de alguns poucos homens, em expropriao dos
produtores diretos da riqueza. Por outro lado, os demais homens
expropriados dos meios de produzirem sua prpria vida, por no disporem
mais dos meios de o fazer, so obrigados a vender aos primeiros a nica
coisa que ainda lhes pertence: sua capacidade de trabalhar. E, ao
vend-la, eles o fazem produzindo cada vez mais a propriedade privada
dos compradores de sua fora de trabalho e, ao mesmo tempo e no mesmo
processo, criam sua no-propriedade sobre os meios de produo. Os
capitalistas, para produzirem sua riqueza em maior dimenso, transformam
todos os meios de produzir riqueza em meios de subtrair mais trabalho
vivo dos produtores diretos e de mercadorias. Assim sendo, a tendncia
histrica do modo de produo capitalista consiste em transformar todo o
produto do trabalho dos homens em objetos comprados e vendidos, em
mercadorias. Equivale a afirmar que todas as coisas que os homens
produzem para sua subsistncia tm que ser adquiridas atravs da compra.
Por conseguinte, os homens no conseguem mais produzir sua subsistncia
apenas com o seu prprio trabalho; seu trabalho  quota/parte do
trabalho total, social, que serve para a subsistncia de todos, enquanto
sua subsistncia advm do trabalho de todos, socialmente.         O
trabalho de produzir qualquer valor-de-uso, antes determinado pelos
trabalhadores diretos, passa a ser determinado pela sociedade. O
trabalhador direto no se vincula a qualquer trabalho,  produo de
qualquer valor-de-uso. Ele est livre (emancipado) para produzir
quaisquer valores-de-uso, pois seu trabalho se objetiva como produo
social. O trabalho com esta nova caracterstica cria uma situao
singular: a separao entre o trabalho e a fora de trabalho. Separao
no s terica, mas, fundamentalmente, histrica e espacial.         Os
trabalhadores diretos, por no estarem mais vinculados individualmente
ao trabalho, s podem trabalhar na medida em que se encontram com os
demais trabalhadores individuais e com os meios de produo em um lugar
especfico para trabalharem, nas fbricas. Os trabalhadores se emancipam
dos lugares onde ocorre o trabalho. Podem, agora, morarem lugares
distintos dos lugares de trabalho. Por outro lado, os lugares de
trabalho no necessitam ser fixados nos ambientes onde os trabalhadores
esto residindo. So instalados de acordo com as convenincias da lgica
da sociedade que os determina, conforme a lgica do capital. Os meios de
produzir riqueza no lhes pertencem.         A lgica que molda a
sociedade capitalista  valor que se valoriza. O valor, como tal,  puro
movimento. Movimento dado pela transformao do dinheiro em capital; do
capital em produtor de mais-valia; e da mais-valia em fonte de capital
adicional. O capital, como novo vnculo social, transforma os homens em
125 ser social, em expresso abstrata que se manifesta como trabalhador
coletivo. Cada trabalhador individualmente se constitui na manifestao
do trabalhador coletivo e universal.         A universalidade engendrada
na base produtiva da sociedade burguesa, a qual Karl Marx chama de
proletariado, produto mais expressivo do desenvolvimento capitalista,
autonomiza-se. Nega o trabalhador individual (trabalho prprio e
individual) como forma de os homens se apropriarem da riqueza pelo
trabalho. A fora ilimitada de produo do ser humano, como
universalidade posta em movimento, reduz, permanente e continuamente, o
tempo social para a produo dos seres humanos.         A dinmica
burguesa de produzir riqueza impe sua lgica: materializar trabalho
vivo em trabalho passado numa dimenso constante e crescente. Faz com
que a cooperao entre os homens na produo de sua existncia se fixe
em formas materiais de produo, cuja dimenso e operacionalidade s
podem ser impulsionadas pelo trabalhador coletivo. Essa estrutura
produtiva potencializa a capacidade produtiva at ento existente. Ao
amplificar esta potencialidade na produo, os homens aceleram a reduo
do tempo de trabalho para produzir sua prpria sobrevivncia.  por esta
razo que, quanto mais o modo de produo capitalista se desenvolve,
mais os homens se ligam atravs de uma malha de fios invisveis de
relaes sociais. Estas, por sua vez, se materializam em novas formas
produtivas, cuja dimenso e potencialidade s podem ser
operacionalizadas por uma fora social de produo. O trabalhador
coletivo, como fora produtiva, potencializa o trabalho vivo por meio da
materializao do trabalho passado em meios de produo. Exige, cada vez
menos, trabalho presente para a produo da riqueza.         Decorre da
a constatao de que o trabalhador coletivo, materializado em trabalho
passado, em meios de produo na forma de mquina-ferramenta-automtica,
d forma (materializa) ao ser social. Humaniza o trabalho pretrito.
Contudo, a humanizao do trabalho passado vem ao mundo, pela primeira
vez, como meio de subtrair ilimitadamente trabalho presente, enquanto
valor que se valoriza, como capital.         O modo de produo
capitalista, ao mesmo tempo em que engendra as condies histricas para
que o ser social seja criado em toda sua plenitude, produz, igualmente,
um limite para o pleno desenvolvimento dele. Assim como as
caractersticas naturais e orgnicas do trabalho se transformam, nas
sociedades pr-capitalistas, em limites no processo de constituio do
ser social (emancipao), o capital propriamente dito, o industrial,
meio pelo qual historicamente aquele limite foi superado (negado),
agora, pela sua prpria natureza, se impe como novo limite para a
constituio plena do ser social.         O antagonismo entre a produo
social e a apropriao privada da riqueza, criado e desenvolvido pela
relao capitalista, impossibilita que o ser social alcance sua 126
plenitude. O proletariado somente se apropria de parcelas da riqueza
segundo o valor de sua fora de trabalho. O capitalista se apropria da
riqueza excedente na forma de mais-valia, e a utiliza para ampliar sua
propriedade na forma de capital. Portanto, a apropriao universal da
riqueza est impossibilitada de se concretizar na e pela sociedade
burguesa. Assim sendo, podemos dizer, ento, que a universalidade plena
do ser social, onde todos participam segundo a possibilidade e a
necessidade da produo e da apropriao da riqueza, ainda  uma
potencialidade em germinao. O modo de produo capitalista a
desenvolve na produo. Engendra a possibilidade de ela tambm se
processar na apropriao da riqueza. Mas, pela natureza de sua relao
social, impede que essa condio se concretize.         O modo de
produo capitalista cria a possibilidade e a necessidade de uma forma
de os homens se organizarem, cujo parmetro  o ser social. Cria uma
fora produtiva social que produz riqueza ilimitadamente, mas, ao mesmo
tempo, impossibilita sua apropriao por todos os seres humanos. No h
poltica humanista capaz de modificar a natureza da sociedade burguesa.
Muitos foram os que propuseram novas formas de sociabilidade como
crtica  sociedade capitalista, como Claude-Henri de Rouvroy, conde de
Saint-Simon, Pierre-Joseph Proudhon, Robert Owen e Charles Fourier. Suas
propostas fundamentam-se em pressupostos que no partem das condies
burguesas, mas sim de formulaes ideais. No entanto, a superao dessa
forma histrica s ocorrer com a ruptura das relaes burguesas a
partir de seus prprios pressupostos.         A forma burguesa de o
homem se produzir engendra a conscincia de que o futuro a ser alcanado
impe uma ao permanente de transformao das condies existentes. O
ontem nada mais  do que um mundo que no volta mais. O hoje 
pressuposto para a existncia do amanh, mas que deve ser destrudo para
se alcanar o esperado, que resulta da expectativa do retorno de seus
adiantamentos na forma capital. Assim, nada  eterno; tudo se
transforma. O burgus se diferencia do homem pr-capitalista pelo fato
de agir conscientemente na busca de seus objetivos. Quando atua, no
espera acontecer naturalmente para ver como fica o que existe. Os homens
burgueses criam e interferem nas condies dadas para produzirem os fins
desejados. Neste sentido, esto prximos da plenitude de se constiturem
como homens que produzem conscientemente sua existncia. O limite que os
impede de alcanar sua plenitude social so, ainda, as relaes sociais
capitalistas.         Caso o modo de produo capitalista no seja
superado, poderemos viver num tal mundo em que o volume de riqueza
material atinja um grau (escala) jamais imaginado pelos homens. A
existncia dessa riqueza dever ser renovada em dimenso crescente
(contnua) e num intervalo de tempo cada vez mais reduzido. Para tanto,
a durabilidade temporal de cada unidade da riqueza material dever ser
programada para existir de acordo com a necessidade de ampliar o consumo
das unidades novas a serem realizadas, que se multiplicaro pelas
descobertas e invenes necessrias  127 reproduo ampliada do
capital. Na proporo em que novas descobertas e invenes so
incorporadas ao processo produtivo, a produtividade do trabalho social
aumenta. Menos homens sero necessrios  produo da riqueza material.
As novas unidades produtivas incorporaro mais trabalho passado e menos
homens na produo da riqueza material. Analogamente, as velhas unidades
produtivas, em virtude da ao da lei da concorrncia, sero obrigadas a
incorporar as novas tecnologias em seu processo produtivo, se quiserem
permanecer no mercado. Neste caso, a conseqncia ser a demisso dos
trabalhadores vinculados ao velho mtodo de produo. Com base na lei
geral da acumulao capitalista, chegar-se- a um ponto em que a
produtividade do trabalho social ser to grande que pouqussimos homens
sero necessrios  produo da riqueza. Muitos no tero onde trabalhar
devido  eficincia produtiva determinada pela reproduo ampliada do
capital.          a lgica do capital que liberta os homens das amarras
prprias das condies naturais e biolgicas do trabalho. Porm, ata-os
 lei da reproduo ampliada do capital. Atualmente, a mesma lgica
capitalista est libertando, gradativamente, os homens das amarras do
capital. Mas esta libertao  perversa. Os "novos homens livres", no
tendo mais onde trabalhar e, portanto, no podendo participar da
produo (como quota/parte do trabalhador coletivo) e da distribuio da
riqueza, engrossam a fila do tradicional exrcito de excludos.
O modo de produo capitalista, que historicamente supera e impe a sua
lgica s demais instituies sociais ( famlia,  igreja, 
corporao, ao ofcio,  terra, ao cl,  comunidade, ao campons, ao
trabalho individual, concreto e til, at ao valor,  mercadoria, ao
dinheiro e a tantas quantas foram as instituies pr-capitalistas) e
que fez com que a socializao dos homens tenha se processado somente
pelo e no trabalho, na forma capital, est deixando de socializar o
contingente humano de excludos pela sua prpria lgica, a lgica do
capital. Em contrapartida, o exrcito de excludos est livre para se
socializar de toda e qualquer maneira: atravs da moral, da tica, da
religio e da lgica que melhor lhe aprouver para se reproduzir como
seres fsico-biolgicos, socialmente desnecessrios  reproduo
ampliada do capital. Para eles, matar ou morrer, estar na priso ou numa
praa pblica, roubar ou comprar, estar bbado ou drogado ou em estado
de lucidez, tanto faz. So situaes ou estados de existncia social que
no lhes dizem mais respeito. Para os excludos (que seremos ns no
futuro), tudo  possvel. O capital, que molda o mundo  sua imagem e
semelhana, transformando todos em "homens livres", desata as amarras
que prendem os homens  sua necessidade de reproduo ampliada. Os
homens, nessa condio histrica, se tornam "livres do capital", sem
serem, ainda, outra coisa.  esta a questo do nosso tempo.
Portanto, caso se mantenha a reproduo do modo de produo capitalista,
os homens continuaro partidos em dois grupos: os regidos pela lgica do
capital - assalariados e capitalistas -, vivendo no paraso de
abundncia da riqueza material, e 128 os excludos (famintos e
desesperados), que buscaro, por todos os meios, se manter vivos. Os
primeiros s se mantero sustentados por um exrcito de pessoas,
instituies e equipamentos militares (repressivo e policial), e sero
reproduzidos pela lgica do capital. Os segundos, ora os segundos... A
misria como espao capital configurar uma paisagem melanclica e
triste em meio a tanta riqueza. Misturando-se ao seu contrrio, ao
espao riqueza (de alta tecnologia), produzir uma simbiose monstruosa
da modernidade presente e futura.         As grandes metrpoles, os
pases do Terceiro Mundo (e por que no dizer, tambm, do Quarto Mundo),
as favelas, a mortalidade infantil, a prostituio, as drogas, o
analfabetismo, a velhice desamparada, os desempregados e tantas outras
formas podem ser arroladas como expresso da "eficincia e da
produtividade do capital". No estamos dizendo que tais coeficientes
expressam a crise geral do capitalismo, mas sim que eles so evidncias
da reproduo, na forma degenerativa, do modo de produo burgus.
Neste caminho da reproduo degenerativa do capital, o ser social, como
emancipao humana, se dissolve no ar. Por conseguinte, a tarefa que a
histria impe aos homens atualmente  a construo consciente de sua
prpria existncia. Somente libertando-se do capital e do modo de
produo capitalista  que o ser social ter completado seu processo
emancipatrio. RESUMO Capital e emancipao humana: o ser social
Busca-se, neste texto, a compreenso do ser social enquanto emancipao
humana contido no livro O capital, de Karl Marx. Neste momento, o estudo
est circunscrito ao primeiro livro desta obra, isto , ao que concerne
 produo do capital.         A questo central da pesquisa 
evidenciar as formas pelas quais os homens, historicamente, se libertam
das condies naturais de sua existncia. Parte-se do pressuposto de que
o trabalho individual - campons e artesanal -  o estgio mais
desenvolvido alcanado pelos homens enquanto produo natural. Nesta
condio, a habilidade, a destreza e a quantidade de trabalhadores se
constituem em fatores determinantes da produo. Os homens ainda so
diferentes uns dos outros, nada os iguala. Mesmo a cooperao, como
forma de os homens se produzirem em conjunto, at o advento do
capitalismo, no os iguala, pois  forma espordica e ocasional de se
relacionarem.         Quando os homens se relacionam atravs das trocas
do excedente de riqueza, transformam seu trabalho em meios de
homogeinizao de sua existncia: em trabalho humano abstrato. Esta
existncia, pura relao social, se manifesta em mercadoria e dinheiro,
primeiro passo do ser social. 129         O segundo passo  o capital em
geral, na forma mercantil e usurrio. Nesta, os homens produzem sua
existncia apropriando-se da riqueza dos outros pela troca, sem dar
qualquer equivalente pelo que recebem. Quando o capital subsume o
trabalho  sua lgica e se transforma em capital industrial, todos os
elementos da existncia humana so transformados em expresso das
relaes sociais. Nestas, o trabalho se liberta dos limites naturais
para se transformar em social: trabalho coletivo e universal.         A
manufatura e a fbrica so dois tempos do movimento desta transformao
do trabalho individual em trabalho social: coletivo e universal. A
natureza sucumbe s exigncias sociais. Os limites naturais e biolgicos
da existncia humana se rompem definitivamente.         O capital  a
fora social que impulsiona a emancipao humana. Mas se a produo da
existncia dos homens se socializa pelo e no capital, a apropriao da
riqueza ainda est atada  propriedade privada. Contradio que
obstaculiza a trajetria do ser social na constituio de sua plenitude.
E esta s ser alcanada no momento em que a produo e a distribuio
da existncia humana forem universalmente constitudas, isto , quando o
homem for produto do prprio homem; quando o reino da necessidade der
lugar ao reino da liberdade. QUESTES PARA DISCUSSO 1. O homem se faz
homem quando engendra o ser social como capital? 2. Por que o modo de
produo capitalista  a primeira forma social pela qual o ser social se
manifesta como produto? 3. Por que o trabalho individual no permite a
igualdade entre os homens? 4. Em quais condies os homens produzem a
possibilidade de liberdade e igualdade? 5. Por que os homens no fazem a
histria que desejam? PARA LER MAIS CASTEL, R. As metamorfoses da
questo social. Petrpolis: Vozes, 1998. FORRESTER, V. O horror
econmico. So Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1997.
LESSA, S. Sociabilidade e individuao. Macei: EDUFAL, 1995. 130 LESSA,
S. A ontologia de Lukcs. Macei: EDUFAL, 1996. MARX, K. O capital. Rio
de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1968. Liv. I. v. 1 e 2. MARX, K. e
ENGELS, F. La ideologa alemana. Buenos Aires: Pueblos Unidos, 1973. -.
Manifesto comunista. Organizao e introduo de Osvaldo Coggiola. So
Paulo: Boitempo, 1998. MDA, D. El trabajo: un valor en peligro de
extincin. Barcelona: Gedisa, 1998. 131 As novas tecnologias e o
devassamento do espao-tempo do saber tcito dos trabalhadores Lucdio
Bianchetti Temas "Casamento" da informtica com as telecomunicaes
Conhecimento (tele)tcito e resistncia dos trabalhadores Qualificao
profissional x modelo de competncias Novas tecnologias da informao e
comunicao e objetivao dos conhecimentos dos trabalhadores nos
softwares Um flash sobre a problemtica proposta e seu locus         A
importncia e necessidade de avanar na compreenso dos desafios em
termos das novas qualificaes envolvendo aspectos cognitivos e
atitudinais relacionase ao fato de que a preocupao em se familiarizar
com a apreenso e o uso da ferramenta teleinformtica vem extrapolando
velozmente os limites do "cho de fbrica". O dia-a-dia da maioria das
pessoas, seja no trabalho, seja no lazer,  um constante defrontar-se
com uma realidade que no permite mais passar ao largo do necessrio
enfrentamento com equipamentos e processos que demandam conhecimentos
relacionados  tecnologia digital. H um consenso sobre o fato de que a
preocupao com a qualificao no pode mais se restringir apenas
queles que tm a incumbncia de produzir: o consumidor tambm passa a
ser alvo de desafios e programas para elevar seu nvel de qualificao.1
A discusso sobre a educao permanente volta  ordem do dia.         A
nossa preocupao neste trabalho, contudo, focalizar prioritariamente
como, nesse novo contexto produtivo caracterizado pelo casamento da
informtica com as telecomunicaes, se d o processo de construo e
manifestao das qualificaes --- 1. A lgica subjacente ao
desencadeamento de estratgias de elevao da qualificao dos
consumidores est relacionada com a busca de compatibilizao entre a
produo de bens sofisticados e o seu consumo por parte de clientes que
saibam escolh-los e apreci-los. 133 tcitas2 dos trabalhadores e o
posicionamento dos donos dos meios de produo face a esses saberes.
Destaque ser dado tambm aos recursos e estratgias que so utilizados,
seja para resguardar, seja para se apropriar dos conhecimentos tcitos
dos trabalhadores.         A pesquisa por ns efetuada no Centro de
Gerncia Integrada de Redes (CGIR), na Telecomunicaes de Santa
Catarina (Telesc),3 possibilita-nos a aproximao e a interveno no
debate sobre a teoria e a prtica da construo e manifestao das
qualificaes tcitas dos trabalhadores no campo da telemtica. Se para
Marx,4 na metade do sculo passado, a Inglaterra proporciona o posto
favorvel  observao da sociedade burguesa, tornando-lhe disponveis
as condies de apreender o processo da sua organizao, bem como de
fazer prospeces, podemos afirmar que a criao e implementao das
novas tecnologias da informao e da comunicao (TICs) se apresenta
como fator revelador e, como tal, espao-tempo privilegiado de
observao dos atuais desafios para os trabalhadores no que se refere
aos atributos qualificacionais indispensveis para atuar na interface
informtica-telecomunicaes.         Embora se tenha claro que no
podemos falar da superao do paradigma taylorista-fordista, no se pode
desconhecer que o mesmo est em crise. Diante disso, questionamos: se o
conceito de saber tcito conheceu um significado prprio, caracterstico
no predomnio do paradigma taylorista-fordista, podemos mantlo e
aplic-lo inalteradamente no predomnio do chamado paradigma da
integrao e flexibilidade? Nesse campo especfico ser que no est
havendo uma focalizao privilegiada no velho, embora ainda no extinto,
ao invs de se enfrentar o novo, se bem que ainda no o conheamos nos
seus contornos claros e na tessitura que o constitui?         O trabalho
de Jones e Woods sobre as qualificaes tcitas contribui para lanar
luzes e tornar explcito um campo que, nos estudos de Bravermanb e
seguidores, fica secundado. Porm, com as novas TICs, novos problemas
emergem e exigem --- 2. Uma vez que o saber tcito dos trabalhadores  o
foco central deste artigo, no nos preocuparemos em adiantar uma
definio. Basta ter presente que  aquele saber informal, no
prescrito, que resulta das estratgias individuais ou coletivas dos
trabalhadores de resolverem  sua maneira prpria, idiossincrtica, as
imponderabilidades no decorrer do processo de trabalho. 3. A partir de
29/07/98, com a privatizao da Telebrs, a empresa passou a fazer parte
da Tele Centro Sul. 4. MARX, K. Prefcio. Contribuio  crtica da
economia poltica. So Paulo: Martins Fontes, 1977. 5. JONES, B.; WOOD,
S. Qualifications tacites, diuision du travail et nouvelles
technologies. Sociologie du tr-avail. Paris, n. 4, 1984, p. 407-21. 6.
BRAVERMAN, H. Trabalho e capital monopolista: a degradao do trabalho
no sculo XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1977. 134 mais pesquisas. Apontam
nessa direo os trabalhos de Stroobants7 a respeito da "visibilidade
das competncias" e de Arcangeli e Genthon8 sobre os "conhecimentos
teletcitos". O longo processo de busca do controle sobre o saber-fazer
dos trabalhadores         Ao explicitar a sua mxima, tornando
equivalentes o saber e o poder, Francis Bacon (1561-1626), embora se
referindo ao domnio do homem sobre a natureza, est apontando para uma
relao histrica atravessada pelo conflito que extrapola em muito o
campoQ restrito ao qual ele dirigia sua ao de pesquisador. Assim, por
exemplo, as corporaes de ofcio, desde as do tipo medieval dos
maons/pedreiros, visavam garantir a proteo e manter segredo sobre
conhecimentos que granjeavam poder aos seus possuidores. No entanto, com
a produo manufatureira, gradativamente vo sendo cravadas cunhas,
abertas fendas nas corporaes. Por sua vez, os ofcios passam a ser
decompostos em partes, de tal forma que os segredos em torno dos saberes
no podem ser guardados. De acordo com Bryan,9 "o controle corporativo
do tipo artesanal sobre a aprendizagem, que proibia a divulgao do
conhecimento do ofcio, havia sido destrudo no final do sculo XVII".10
Esse longo processo de fragmentao das tarefas e da gradativa perda do
controle sobre o saber-fazer, por parte dos trabalhadores, ganha foros
de cincia com F.W. Taylor (1856-1915). Ele estuda detalhadamente tempo
e movimento para propor a sua Administrao Cientfica, inserindo, no
processo produtivo, uma clara diviso entre planejadores e executantes.
Com o fordismo, a diviso tcnica e social do trabalho  elevada ao
paroxismo, e as propostas de Taylor11 experimentam sua plena
objetivao.         Embora a uns coubessem as funes de planejar - aos
quais era atribuda a criao - e a outros executar ordens/funes
preestabelecidas - a ponto de o pai da gerncia cientfica apresentar
como prottipo destes o homem tipo bovino -, nem a Taylor escapa o
detalhe de que, no processo, o fazer se reveste da caracterstica de ---
7. STROOBANT, M. A visibilidade das competncias. In: ROP, F.; TANGUY,
L. (Org.). Saberes e competncias: o uso de tais noes na escola e na
empresa. So Paulo: Papirus, 1997. 8. ARCANGELI, F.; GENTHON, C. The
accumulation and management of latir knowledge: a challenge for
multimedia. Paper presented at Confrence conomie de 1'Information,
Lyon, mal, 1995 (Mimeo.). 9. BRYAN, A.P. Economia poltica do trabalho e
formao do trabalhador: a contribuio terica e prtica de Hodgskin.
Pro-Posies. Campinas, Faculdade de Educao, v. 5, n. 3[15], nov.
1994, p. 32-52. 10. BRYAN, A.P. Economia poltica do trabalho e formao
do trabalhador: a contribuio terica e prtica de Hodgskin.
Pro-Posies. Campinas, Faculdade de Educao, v. 5, n. 3[15], nov.
1994, p. 34. 11. TAYLOR, F.W. Princpios de administrao cientfica. T
ed. So Paulo: Atlas, 1979. 135 tantos fazeres quantos sejam os
executantes. Do seu ponto de vista, o problema no era tanto o fato de
haver criao na execuo, mas sim o fato de essa criao ser aleatria,
no sistematizada. Por isso  que [...]  gerncia  atribuda, por
exemplo, a funo de reunir todos os conhecimentos tradicionais que no
passado possuram os trabalhadores e ento classific-los, tabul-los,
reduzi-los a normas, leis ou frmulas, grandemente teis ao operrio
para execuo do seu trabalho dirio. 12          bem verdade que
Taylor tenta reduzir ao mnimo possvel esse espao de ao dos
operrios - pede-lhes que no produzam mais por sua "prpria
iniciativa", mas sim que executem "pontualmente ordens dadas nos mnimos
detalhes"-, tentando impedi-los de tomarem iniciativas por sua prpria
conta. A reao dos trabalhadores, tanto individual quanto atravs da
sua representao classista,  uma histria de batalhas bem-sucedidas e
de inmeros reveses, conforme registram os anais que focalizam e
analisam as relaes entre capital e trabalho.         Com o passar do
tempo e apesar de todo o rigor formalizador do taylorismo, fica evidente
que a iniciativa e a criatividade dos trabalhadores - mesmo tendo
presente que iniciativa e criatividade so confinadas s exigncias e
limites do capital nem podiam e nem deviam ser cerceadas. No limite, a
concretizao desse objetivo  o estancamento do progresso, das
transformaes e das inovaes, levando, de um lado,  exausto a
dinmica que propicia a acumulao do capital e, de outro,  efetivao
da manifesta aspirao de, na esfera do trabalho, contar apenas com
monos executores de funes prvia e rigorosamente prescritas. Por mais
que haja um empenho no sentido de que as propostas de racionalizao e
melhorias no processo produtivo resultem apenas da ao dos
planejadores, seu distanciamento do "cho de fbrica"  um empecilho
para alcanar tal intento. Por mais que se tente cercear a criao dos
trabalhadores, eles no deixam de imprimir o seu trao pessoal, de
inserir a sua "fisionomia" prpria, de manifestar suas idiossincrasias,
seja nos produtos, seja nos processos.         No entanto, no h como
deixar de reconhecer que, embora no seja possvel esposar integralmente
as teses de Braverman - especialmente a da desqualificao absoluta -,
nesse confronto, no predomnio do taylorismo-fordismo, os trabalhadores
sofrem reveses no seu saber e no seu poder. Nas palavras de Pierre
Lvy,13 "o --- 12. TAYLOR, F.W. Princpios de administrao cientfica.
T ed. So Paulo: Atlas, 1979, p .49. 13. LVY, P. As tecnologias da
inteligncia: o futuro do pensamento na era da informtica. Rio de
Janeiro: Editora 34, 1995, p. 8. 136 rudo dos aplausos ao progresso
cobria as queixas dos perdedores e mascarava o silncio do pensar".
O trabalho de Jones e Wood pode ser considerado um clssico no estudo
das qualificaes tcitas. Indo de encontro  teorizao de Braverman e
dos seus seguidores, os autores afirmam a existncia de qualificaes
que, por mais que o capital queira expropri-las para transform-las em
trabalho morto atravs da objetivao delas nos equipamentos ou impedir
que os trabalhadores as manifestem, no podem ser inteiramente
conformadas ou racionalizadas, independentemente do grau de
informatizao dos equipamentos e processos.  uma misso fadada ao
fracasso, pois esse  um espao prprio, exclusivo dos trabalhadores.
Assim sendo, a tese bravermaniana da desqualificao precisa ser
relativizada, e o campo das qualificaes  forado a abrir-se para
incorporar aportes da dimenso subjetiva dos trabalhadores. Com isto, de
um lado, esse campo se torna mais conflitivo, pois  preciso abandonar a
postura acomodada de pensar nos estreitos limites da polarizao
(re)qualificao-desqualificao e, por outro, se enriquece ao
incorporar elementos que o ampliam, contribuindo para uma compreenso
mais abrangente do contencioso em torno das qualificaes.         Ao
ser desencadeado o processo de transformaes tecnolgicas e
organizacionais, dotando de materialidade o chamado paradigma da
integrao e flexibilidade, h por parte do capital uma radicalizao na
direo do enfraquecimento da esfera do trabalho no que concerne  sua
organizao enquanto classe, 14 isto , tomam-se iniciativas visando
minar o poder dos trabalhadores. No campo do saber so desencadeadas
estratgias em duas direes: a) no sentido de reconhecer explicitamente
a importncia dos conhecimentos produzidos pelos trabalhadores e de
potencializar a sua participao na inovao, seja de produtos, seja de
processos; e b) no desenvolvimento de tecnologias capazes de registrar,
formalizar e tornar mais visveis e, conseqentemente, passveis de
objetivao as "manhas", os "macetes", os " jeitinhos", as formas
idiossincrticas de os trabalhadores solucionarem as imponderabilidades
no processo do trabalho. O reconhecimento e a busca do saber tcito
tornam-se mais explcitos.         Percebe-se, assim, uma trajetria que
vai das tentativas tayloristas da negao do espao para as iniciativas
dos trabalhadores at uma situao no s de reconhe- --- 14. "Para se
proteger de um movimento sindical que dava mostras de fora crescente a
empresa recorreu no apenas ao enxugamento de seus quadros, mas buscou
apropriar-se do conhecimento acumulado por operadores 'casados com as
suas plantas'" (ef. CASTRO, N.A.; GUIMARES, A.S. Competitividade,
tecnologia e gesto do trabalho: a petroqumica brasileira nos anos 90.
In: LEITE, M.P.; SILVA, R.A. Modernizao tecnolgica, relaes de
trabalho e prticas de resistncia. So Paulo: Iglu, lides e Labor,
1991, p. 57). 137 cimento, como tambm de estmulo aos trabalhadores
para desenvolverem e apresentarem sadas originais, seja para a produo
ou comercializao de produtos, seja para a prestao de servios.
Uma primeira e significativa mudana refere-se  prpria maneira de os
empresrios se posicionarem diante dos saberes tcitos dos
trabalhadores. Se durante muito tempo sucumbiram  v busca de
concretizar o one best way taylorista - busca esta que, embora com
estratgias mais sofisticadas, continua na ordem do dia -, determinando
como, quando e em quanto tempo executar operaes, agora, alm de
reconhecerem a importncia dos saberes tcitos, vem neles a principal
possibilidade de continuar dinamizando o processo produtivo. No dizer de
Chanaron e Perrin,15 a prpria criao e implementao por parte das
empresas de estratgias organizacionais e gerenciais prevendo a
participao indica o "reconhecimento de que os trabalhadores so os
nicos capazes de resolver problemas que so desconhecidos". A
implementao de estratgias de participao dos trabalhadores - embora
dentro de certos limites - est na base da busca de cooperao deles na
identificao e transferncia dos saberes para as mquinas. A
necessidade de cooperao dos trabalhadores  vista como imprescindvel,
pois o problema do capital no se esgota na referida transferncia dos
saberes s mquinas, uma vez que, feita esta operao, torna-se
necessrio criar novos espaos, suscitar a emergncia de novos savoir
faire dos trabalhadores, pois, caso contrrio, a prpria manuteno do
modo capitalista de produo corre riscos.         Pesquisas mais
recentes mostram que o reconhecimento da existncia desses saberes e a
busca por parte do capital por se apropriar deles vm se tornando cada
vez mais explcitos. Em depoimento a Luclia Machado,16 em sua pesquisa
junto a uma empresa do ramo eletrnico de Minas Gerais, um engenheiro
explicita que as operadoras "tm um saber adquirido na experincia
intraduzvel por palavras". Essas operadoras, continua o depoente, "so
espertas, so inteligentes. Por que no capturar realmente esse
conhecimento e traz-lo para nossas operaes?"17 Sem dvida, a
tentativa de responder afirmativamente a essa questo tem se constitudo
num dos motores dos esforos dos empregadores ao desencadearem
transformaes no processo produtivo. As transformaes, por sua vez,
dependem da adeso incondicional dos trabalhadores. No leque dessas
estratgias, cooperao induzida e/ou espontnea, cooptao e ameaa de
perda do emprego entremesclam-se, tornando mais conflitivo o --- 15.
CHANARON, J.J.; PERRIN, J. Science, technologie et modes d'organisation
du travai!. Sociologie du travai!. Paris, n. 1, 1986, p. 25. 16.
MACHADO, L.R.S. Pedagogia fabril e qualificao do trabalho: mediaes
educativas do realinhamento produtivo (Tese). Belo Horizonte: Faculdade
de Educao, UFMG, 1995. (Mimeo.). 17. MACHADO, L.R.S. Pedagogia fabril
e qualificao do trabalho: mediaes educativas do realinhamento
produtivo (Tese). Belo Horizonte: Faculdade de Educao, UFMG, 1995
(Mimeo.), p. 81. 138 campo das qualificaes, pois o reconhecimento e a
explicitao de que estas qualificaes existem e de que o capital
depende delas para manter-se/expandir-se no transformam, num passe de
mgica, a resistncia dos trabalhadores em consentimento e colaborao.
O declnio da produo em srie na sua forma clssica e a gradativa
predominncia do paradigma da integrao e flexibilidade visando
garantir a customizao de produtos e servios - tendo nas ISO 9000 um
dos principais instrumentos dessa garantia - esto obrigando o capital a
intensificar a busca da colaborao dos trabalhadores. Por outro lado,
como afirma Zarifian,18 a tendncia  "singularizao da oferta de bens
e servios" traz como decorrncia a necessidade de saber quem  o
cliente, quais suas necessidades, qual sua opinio sobre produtos e
servios, quais as estratgias de convencimento para faz-lo consumir.
Os empresrios sabem que esses objetivos tm mais possibilidades de
serem alcanados quando os trabalhadores, alm de executarem as
prescries a respeito de tarefas a serem cumpridas, lanam mo de
solues heterodoxas19 para resolver situaes imprevistas. Novos
aportes no estudo das qualificaes tcitas         Tanto na literatura,
quanto na nossa pesquisa junto  Telesc, detectamos que, enquanto na
base fsica predominou a aplicao da tecnologia analgica ou
eletromecnica, e as estratgias gerenciais e organizacionais se
pautaram no taylorismofordismo, as manifestaes sobre os saberes
tcitos dos trabalhadores se caracterizaram, basicamente, por
conceb-los como: saberes implcitos; de difcil formalizao,
codificao e, conseqentemente, de difcil generalizao; saberes que
se constituem a partir da longa permanncia do trabalhador num mesmo
posto ou setor de trabalho; conhecimentos menos passveis de controle
por parte da gerncia e, como tais, constituindo-se num forte elemento
que amplia o poder de barganha dos trabalhadores, e, principalmente, as
qualificaes tcitas so concebidas como um recurso inalienvel dos
trabalhadores. Alm disso, por serem informais, so saberes que no se
constituem como "objeto" de estudo das instituies formais de ensino.
Porm, na medida em que as transformaes tecnolgicas - supremacia da
tecnologia digital em relao  analgica -, organizacionais e
gerenciais passam --- 18. ZAFIFIAN, P. Organizao e produo industrial
de servios. Boletim Tcnico da Escola Politcnica da USP. So Paulo, n.
41, 1997. 19. Um exemplo de soluo heterodoxa  a utilizao de papis
de carteira de cigarros para calar partes gastas dos equipamentos de
modo a no interromper o seu uso ou a prestao do servio. Um
engenheiro da Telesc relatou o exemplo de um operador que, com a
insero de um palito de fsforo entre dois componentes de um
equipamento, foi capaz de recolocar uma central analgica em
funcionamento. " uma personalizao do trabalho", afirmou outro
engenheiro, ao explicar que no decorrer do predomnio do paradigma
analgico um operador era capaz de manter o equipamento em uso com um
"palito, papelzinho, uma lixinha no contato, um ajuste naquele
contatozinho". 139 a caracterizar-se mais pela integrao e
flexibilidade, a constituio desse campo conhece outra configurao, e
as manifestaes dos saberes tcitos por parte dos trabalhadores,
individual e coletivamente, trazem a estes novas conseqncias.
As novas tecnologias da informao e da comunicao esto na base desse
redimensionamento do espao-tempo e do novo significado do saber tcito
para os trabalhadores. "Para que serve a experincia em informtica",
pergunta-se Marcelo Franco,20 quando "a performance da informao
sobrepe o valor da experincia e da memria humana?" E conclui: "Quando
ocorrem constantes transformaes  muito mais til descobrir o que est
surgindo do que conhecer o obsoleto". Moura,21 na sua pesquisa junto 
Telemig, detecta que, atravs da estratgia do "mapeamento dos
conhecimentos", a empresa, na verdade, est empenhada em controlar o
savoirfaire dos trabalhadores. Segundo a autora, agora isto parece estar
mais vulnervel ao controle, pois as informaes manejadas pelos
trabalhadores so incorporadas s redes de informao, permitindo uma
integrao virtual dos conhecimentos aplicados no desenvolvimento de
tarefas. 22         Por sua vez, Fazzi,23 em pesquisa desenvolvida junto
 Telerj, detecta que h uma tendncia de os processos informatizados se
tornarem auto-explicativos, levando  padronizao do seu funcionamento.
Na verdade, afirma,  esta "uniformizao da lgica dos sistemas
informatizados que possibilita a flexibilidade dos vrios processos
produtivos e o remanejamento de trabalhadores de um setor para outro,
com a maior facilidade"24, impedindo-os de fixar-se num posto e ali
construir sua qualificao.         Arcangeli e Genthon25 manifestam-se
sobre o desafio  multimdia relacionado ao acmulo e gerenciamento do
conhecimento tcito. Os autores analisam a literatura mais recente a
respeito de como as empresas no predomnio do paradigma fordista agiam
e, no toyotista, agem em relao  formalizao e comunicao/troca ---
20. FRANCO, M.A. Ensaio sobre as tecnologias digitais da inteligncia.
So Paulo: Papirus, 1997, p. 85. 21. MOURA. M.A. Tecnologias da
informao e capacitao de trabalhadores no setor de telecomunicaes.
(Dissertao). Belo Horizonte: UFMG/FAE, 1996 (Mimeo.). 22. MOURA. M.A.
Tecnologias da informao e capacitao de trabalhadores no setor de
telecomunicaes. (Dissertao). Belo Horizonte: UFMG/FAE, 1996
(Mimeo.), p. 48. 23. FAZZI, J.L.A teia da formao humana: a experincia
de trabalho nas telecomunicaes. Belo Horizonte: UFMG/FAE, 1996. 24.
FAZZI, J.L.A teia da formao humana: a experincia de trabalho nas
telecomunicaes. Belo Horizonte: UFMG/FAE, 1996, p. 157. 25. ARCANGELI,
F.; GENTHON, C. The accurnulation arai ntanagement of tacit knowIedge: a
challenge for rnultimedia. Paper presented at Confrence conomie de
l'Information, Lyon, mai, 1995 (Mimeo.), p. 6. 140 dos conhecimentos
economicamente teis. Afirmam terem percebido mudanas na cultura
organizacional no sentido de uma busca contnua de formalizao do
conhecimento tcito. Diferentemente da firma fordista, a toyotista "tem
estado tentando racionalizar os fluxos de aprendizado e o uso do estoque
de conhecimento, aumentando a taxa de codificao, transferncia e uso
repetitivo do mesmo conhecimento por todo o mundo" (destaque nosso).
Na nova forma de organizao das empresas, caracterizadas pela
flexibilizao da sua estrutura, tendendo a uma maior horizontalizao,
as informaes e o conhecimento passam a receber um novo tipo de
tratamento, tanto no interior dessas empresas como entre elas. Neste
ltimo aspecto, uma decorrncia significativa ser o "conhecimento
'teletcito', que  a criao, partilha, recombinao e troca do
conhecimento tcito entre stios distantes".26 Assim, as novas TICs
passariam a ter tambm a incumbncia de dinamizar os fluxos desses
conhecimentos entre empresas, independentemente da sua localizao.
Afirmam os autores que "o fato de os conhecimentos cooperativo e tcito
tambm poderem ser produzidos e partilhados  distncia  o novo efeito
potencial da multimdia comparada com as ferramentas de comunicao
anteriores".27         Uma conseqncia imediatamente perceptvel desse
potencial refere-se ao fato de que a formalizao e troca dos saberes
tcitos, neste novo contexto, acontecer de uma forma mais rpida e
intensa, levando a que sejam questionadas as decorrncias para os
trabalhadores dessa ampliao dos fluxos de conhecimento partilhado.
Pode-se supor que, ao ser invadido no seu espao particular e ao ter
formalizado e tornado universal o seu saber tcito, o trabalhador
tender a ver reduzido o seu poder de barganha.         No decorrer da
nossa pesquisa junto  Telesc, buscamos traar um paralelo entre a
qualificao necessria para os operadores atuarem com equipamentos
analgicos e digitais. Um engenheiro que chefia um setor totalmente
digitalizado assim se manifestou: Antigamente nas analgicas voc no
poderia colocar uma pessoa com pouca qualificao tcnica para
trabalhar. Ele teria que soldar, puxar fio, saber cor de fio, saber o
equipamento, saber se est limpo, se est sujo. Hoje em dia, a
qualificao tcnica do operador de central digital no precisa ser to
rgida assim. A personalizao do trabalho dele existe pouco. Pouca
personalizao porque voc pode olhar: ele organiza os arquivos assim,
ele organiza os co- --- 26. ARCANGELI, F.; GENTHON, C. The accumulation
and rnanagement of tacit knowledge: a challenge for multimedia. Paper
presented at Confrence conomie de l'Information, Lyon, mai, 1995
(Mimeo.), p. 7. 27. ARCANGELI, F.; GENTHON, C. The accumulation and
management qf latir knowledge: a challenge for multimedia Paper
presented at Confrence conomie de l' Information, Lyon, mai, 1995
(Mimeo.), p. 10. 141 mandos assim. Essa  a personalizao dele. Agora,
o desenvolvedor, o cara que fez o desenvolvimento do software, com
certeza, ele sempre preparou a mquina, para a mquina conduzir o
operador da frente. Ento, ele no tem muita criatividade" (destaque
nosso).         Os operadores que controlam os mecanismos28 de
telessuperviso29 atuam sobre eles a partir das qualificaes tcitas do
coletivo de trabalhadores que vieram sendo transferidas para os
softwares no decorrer do tempo. Isto , h a construo de um caminho
ascendente, uma codificao que d origem a um conhecimento que se
manifesta, para eles, no telo. No s os conhecimentos esto
objetivados, mas os prprios comandos que devem ser dados ou as decises
a serem tomadas, os tcnicos a serem acionados para consertos e o
prprio meio de localiz-los compem o software que eles devem gerenciar
para que este gerencie o sistema. Face a isso, buscamos saber qual  o
tipo de decodificao que eles fazem quando aparece no telo um aviso de
anormalidade no funcionamento do sistema. Surpreendeu-nos a surpresa que
esta questo suscitou nos operadores. Os instantes de silncio que se
seguiram  questo so indicativos de que, provavelmente, esses
operadores abriram mo de cultivar a curiosidade manifestada pelos
trabalhadores entrevistados por Castillo ao afirmarem: "A m lo que me
gustara saber es lo que hay detrs de los botones, del teclado del
sistema informtico" 30 - uma questo tpica de trabalhadores que
atuaram por muito tempo com tecnologia analgica. Para o engenheiro que
gerencia o CM, para "desconstruir a codificao" que foi feita e manter
o sistema funcionando, o operador coloca em ao o abstrato. Porque se a
mquina pediu um comando, algum codificou alguma coisa, essa
codificao vai ser mostrada para o operador atravs de alguma coisa que
a mquina quer: "olha, para voc imprimir voc tem que apertar aqui,
certo?" Ento, quando ele l "para imprimir aperte enter", ento, l na
cabea dele ele sabe que tem que apertar o enter. Agora, o que a mquina
fez, [Pausa. Pensa.] essa decodificao aqui  a nica coisa que ele
sabe.  aquele comando que a mquina pediu. Pela manifestao de um dos
operadores que atua no sistema de telessuperviso a respeito dos
conhecimentos codificados ou formalizados que foram sendo inseri- ---
28. Dentre estes, destacam-se as CPAs, (Centrais de) Controle por
Programa Armazenado, equipamento que sintetiza a juno da informtica
com o telefone. 29. A telessuperviso  uma das funes-chave do Centro
de Gerncia Integrada de Redes. Atravs de uma srie de equipamentos, os
operadores reunidos no CGIR fazem superviso  distncia. Todo o
processo  visualizado em quatro grandes teles, a partir de cujos
indicadores as decises so tomadas. 30. CASTILLO, J.J. (Org.). La
automacicn y el.uturo del trabajo. 2' ed. Madrid: Ministerio del
Trabajo y Seguridad Social, 1991, p. 294. 142 dos no software, foi
ficando evidente o quo pouco se pensa sobre isso. Inicia falando que
realmente foram "tomados conhecimentos de vrias pessoas - nem todas
daqui, n?! - e foram codificados". Interrompe o seu depoimento e fica
pensando por segundos. Pergunta-se, ento: "E foram codificados para
qu? Para que a mquina pudesse fazer esse trabalho e mostrar uma
situao para ns e, a partir da, na hora da anlise desses dados
gerados por essa codificao,  feita uma decodificao". Instado a
explicitar como se d esse processo, acaba por naturalizar uma
construo datada e localizada, parecendo no ter se dado conta de todos
os aspectos envolvidos: "Esse processo a seria um processo natural de
qualquer automatizao, de qualquer mecanizao de uma atividade. Creio
que no teria muito a dizer sobre isso, especificamente no caso desse
software, porque  um processo natural".         De nossa parte, um dos
aspectos que mais chama a ateno, do ponto de vista das opes
polticas e do potencial tecnolgico - e dramtico - da perspectiva do
emprego,  que, ao olhar para os teles, embora nem sempre se dem
conta, os operadores esto olhando para qualificaes tcitas de vrios
outros trabalhadores que os precederam. Ali, objetivados, esto saberes
que vieram sendo construdos para solucionar imponderabilidades, as
quais continuam se manifestando. No entanto, agora, com a intermediao
da tecnologia, os operadores utilizam um atalho que vai direto da
manifestao de excees  recolocao em funcionamento timo do
sistema, sem que eles, porque outros j o fizeram, necessitem percorrer
o caminho da construo da soluo.         Segundo Del Nero,31 
caracterstica dos seres humanos, antes de agirem, desencadearem
complexas operaes de decodificao. Ao perceber que a maior parte das
aes dos operadores  linear ou, no mximo, circular,  difcil pensar
em complexidade. Diante disso, fica mais fcil compreender a insistncia
dos engenheiros a respeito da necessidade de acreditar, de ter f, em
vez de insistirem querer entender o que acontece no interior da
"caixa-preta". Se a um comando dado sucede-se o resultado esperado - e
caso isso no ocorra, o prprio programa avisa e indica qual o comando
certo -, os desafios sobre o que e por que pensar diminuem. A
preocupao em progressivamente formalizar os conhecimentos tcitos dos
trabalhadores nos equipamentos  de tal monta que um dos operadores
chega a manifestar o paradoxo segundo o qual o ideal aspirado pela
empresa  chegar a uma situao de pagar os operadores para eles no
fazerem nada a no ser assistir ao mecanismo de telessuperviso enquanto
faz o autogerenciamento. Este trabalhador parece no se dar conta de
que, nos setores onde isto j  uma realidade, todas as empresas e a sua
--- 31. DEL NERO, ES. O stio da mente: pensamento, emoo e vontade no
crebro humano. So Paulo: Collegium Cognitio, 1997. 143 prpria -
devido  supremacia da lgica emanada da economia de mercado - perderam
o interesse na presena do trabalhador como mero assistente.
Afirmaes como a desse operador reportam-nos a um quadro que poderamos
chamar de tipicamente neobravermaniano, em que operadores cumprem
predominantemente funes prescritas, que so saberes tcitos
objetivados em softwares. Taylorismo, fordismo, integrao e
flexibilidade se entremesclam num todo de continuidade e
descontinuidade. Atividades e gestos repetitivos se misturam, embora em
tempos e espaos cada vez mais reduzidos, a respostas singulares diante
de eventos imprevistos. Perguntados sobre em que seria diferente o
relatrio das situaes e episdios ocorridos numa noite em relao 
anterior, os operadores que fazem planto respondem que, na prtica,
bastaria fazer apenas um relatrio, pois as variaes nas intervenes,
nos procedimentos, so pequenas. "O que muda de uma noite para a outra
so os eventos, os fenmenos - queda de energia, vendaval, trovoada etc.
-, mas os comandos, as decises a serem tomadas so muito parecidas". A
prpria observao dos movimentos do operador face a e entre os
equipamentos mostra seqncias predominantemente repetitivas: observa os
avisos nos teles; interroga o software a respeito do problema indicado;
verifica as opes apresentadas pelos softwares; executa o (tele)comando
que pode ser a soluo do problema por comando remoto ou o envio do
tcnico para solucionar o problema detectado.         Falando das atuais
facilidades proporcionadas pela existncia da telessuperviso, um
engenheiro que ocupa posio de chefia no CGIR comenta a vantagem de
visualizar nos teles a indicao do problema e no apenas luzes
piscando, como ocorria durante o predomnio da tecnologia analgica.
Conforme suas palavras: "Quando dava um alarme eu enviava um tcnico de
transmisso e um tcnico de energia e mais um carro e no sabia qual era
o problema. Era um tiro no escuro. Agora tudo  muito preciso:  isso!"
O contedo desta manifestao faz lembrar o depoimento de outro
engenheiro quando afirma: "A tcnica que eles esto utilizando j no 
de localizao e remoo de defeitos, mas de substituio de unidades,
geralmente a partir de comandos remotos".         O que veio se tornando
evidente no decorrer das nossas observaes e investigaes junto aos
trabalhadores da Telesc  um gradativo e constante estreitamento desse
espao-tempo e a criao de estratgias para invadir esse reduto e
aproveitarse das construes feitas pelos trabalhadores visando
potencializar os processos racionalizadores. No predomnio especialmente
do taylorismo e do fordismo, as maneiras prprias, idiossincrticas dos
trabalhadores resolverem os problemas que ocorriam no processo produtivo
e as sugestes e sadas singulares para inserir melhorias nesse mesmo
processo, de um lado, se apresentavam como decisivas para os empresrios
melhorarem a produo e a produtividade e, de outro, eram um espaotempo
de resistncia, de ampliao do poder de barganha dos trabalhadores. No
so poucos os operadores da Telesc que nos afirmam o seu sentimento de
perda, o 144 vazio ou a imensa saudade de uma poca em que um saber
particular lhes trazia retorno em termos de um poder coletivo.
Com segurana, podemos afirmar que alguns aspectos desse espao-tempo de
construo e manifestao dos saberes tcitos se mantm da mesma forma
que se manifestam no predomnio do paradigma taylorista-fordista, ao
passo que outros apresentam nuanas peculiares de um perodo de
transio. Permanece a importncia atribuda pelo capital a esses
saberes como forma de garantir as constantes e necessrias melhorias que
precisam ser inseridas na produo de bens e, no caso enfocado pela
nossa pesquisa, na prestao de servios, a fim de garantir que a queda
da taxa de lucros seja mais lenta; apesar de todos os avanos e
conquistas assegurados com a passagem da tecnologia analgica  digital,
permanece o espao-tempo para a ocorrncia de imponderabilidades no
processo de produo de bens e na prestao de servios; enquanto meio
de criao, este espao-tempo continua sendo um reduto exclusivo dos
trabalhadores. No entanto, com os recursos propiciados pelas novas TICs
e com a progressiva objetivao dos conhecimentos dos trabalhadores nos
equipamentos, inseriu-se uma metamorfose ainda pouco estudada e
compreendida no tocante a esse espao-tempo de saber que dava poder aos
trabalhadores. Na medida em que, com esses novos recursos, fica
disponvel na memria dos softwares, para anlise e avaliao por parte
das gerncias, uma srie de registros sobre quem faz, o que faz ou deixa
de fazer, quando, em que tempo e como  feito - caracterizando o
fenmeno da "visibilidade das competncias" apontado por Stroobants32 -,
somos forados a reconhecer que esse reduto que era exclusivo dos
trabalhadores est passando por um processo de devassagem com
conseqncias ainda de difcil avaliao demandando mais investigaes.
O que se pode deduzir com relativa certeza  que os constructos e as
categorias de anlise que se mostraram adequadas para apreender o
espao-tempo de construo e manifestao dos saberes tcitos dos
trabalhadores, caractersticas do industrialismo, hoje j no o so.
Mesmo que no decorrer do nosso trabalho tenhamos feito constantemente
cotejos entre os paradigmas taylorista-fordista e da integrao e
flexibilidade - encontrando justificao na constatada transformao e
permanncia, superao e manuteno de paradigmas -, na especificidade
das qualificaes tcitas materializa-se o preceito evanglico segundo o
qual no se pode colocar vinho novo em odres velhos ou aplicar um
remendo novo em tecidos velhos.         O contato, atravs da
literatura, com estudos a respeito da estratgia tele ( distncia) de
lidar com os saberes tcitos - teletcitos - evidencia uma nova faceta
no processo de construo, manifestao e apreenso desses saberes. A
possibilidade --- 32. STROOBANT, M. A visibilidade das competncias. In:
ROP, F.; TANGUY, L. (Org.). Saberes e competncias: o uso de tais
noes na escola e na empresa. So Paulo: Papiros, 1997. 145 de trocas
on-line, independente do espao e do tempo, de sadas singulares para
problemas no previstos, em funo do potencial dos registros que tornam
disponveis os saberes e fazeres dos trabalhadores, deixa entreaberta
uma porta para a invaso desse reduto e sugere mais um fator de
fragilizao da posio de quem contava tambm com esse poder e esse
saber para progredir e, no limite, se manter num posto ou setor de
trabalho.         O acompanhamento sistemtico e a investigao do
trabalho dos operadores do CGIR/Telesc evidenciaram essa realidade de
gradativa diminuio do espao-tempo de construo e manifestao dos
saberes tcitos dos trabalhadores. A diferena j se torna manifesta no
processo de qualificao para assumir postos ou responsabilidade por
setores. O espao-tempo de "formao" para atuar em telessuperviso, por
exemplo, no est atrelado  formalizao de conhecimentos atravs de
instituies formais de ensino - embora se pressuponham conhecimentos
bsicos - e nem tem a ver com uma longa permanncia num mesmo posto de
trabalho. Com noes elementares e em um curto espao de tempo - no
mximo quatro meses - acompanhando o trabalho de colegas que atuam no
setor - tendo o cuidado de no assimilar os seus "vcios", as suas
"manhas" -,  possvel assumir as funes de telessuperviso.
Reconhecidamente, seja da parte dos operadores, seja da dos gerentes, o
trabalho se caracteriza pela rotina, pela automatizao de comandos.
A insistncia com que os gerentes afirmam a necessidade de prevenir
problemas e solucion-los antes de o cliente se dar conta de que houve
um problema, bem como a perseguio do "ndice zero" de defeitos,  a
prova, de um lado, de que se reconhece a ocorrncia de
imponderabilidades e, portanto, da imprescindibilidade do trabalhador no
processo produtivo e, de outro, de que h uma caa s formas prprias -
os "jeitinhos", as "manhas" -, pelas quais os operadores fazem suas
intervenes e solucionam os problemas latentes ou manifestos,
tornando-os visveis de forma a poder incorpor-los, quando possvel,
aos novos soflwares. No entanto, muito diferente de antes, quando
enfatizavam a faanha de terem sido capazes de manter ou recolocar o
sistema em funcionamento, fato que os tornava respeitados por serem
considerados ases, experts, agora os operadores manifestam um dilema que
acrescenta um ingrediente explosivo ao enigma da esfinge a que estavam
sujeitos os transeuntes que pretendiam atravessar o prtico de Tebas: se
no me decifrares sers devorado; se me decifrares te devorarei. Ou, em
outras palavras, se no decifrarem e solucionarem os problemas que
causam a interrupo da prestao dos servios sero "devorados" do
posto ou setor de trabalho; decifrando e resolvendo as
imponderabilidades, o seu saber, com o tempo,  "devorado" e
transforma-se em trabalho morto, restringindo o espao de presena dos
trabalhadores. Portanto, muito alm de sermos obrigados a tentar
entender o espao para criao e manifestao dos saberes tcitos dos
trabalhadores, temos de enfrentar a evidncia manifesta neste setor
especfico por ns pesquisado - de que  a prpria presena do
trabalhador no processo de trabalho que est em risco. 146
Concluindo-partindo         Parece haver evidncias suficientes para
afirmar que, apesar de todos os avanos cientficos e tecnolgicos
alcanados pela humanidade e apesar de todos os esforos despendidos
pelo capital na tentativa de reduzir a sua dependncia diante do
trabalho vivo, a automatizao absoluta  um projeto fadado a no se
concretizar. Por mais que seja possvel replicar conhecimentos e
habilidades humanas em mquinas, h limites que so insuperveis.
Contudo, a natureza da tecnologia digital e os pressupostos e o processo
das transformaes organizacionais e gerenciais que consubstanciam o
paradigma da integrao e flexibilidade esto colocando problemas
prticos para os quais a reflexo e as explicaes tericas produzidas
at o momento ainda no foram suficientemente esclarecedoras. Esta busca
 uma obra de muitos e demandar tempo.         Pensamos que uma
contribuio para esse debate poder ser dada ao levantarmos
questionamentos visando explicitar alguns elementos daquilo que
caracteriza a natureza da digitalizao dos equipamentos e processos e
as novas formas de controle do trabalho predominante e, diante disso,
explicitar quais so e como se caracterizam os conhecimentos e os
contedos das novas qualificaes exigidas dos trabalhadores para atuar
nesse contexto, bem como o papel dos usurios/clientes nesse processo.
Assim procedendo, ser possvel lanar algumas luzes sobre o espao e as
caractersticas das qualificaes tcitas dos trabalhadores na
especificidade do setor de telecomunicaes. Compreender a questo das
qualificaes tcitas no predomnio da digitalizao de equipamentos se
torna mais urgente quando se tm evidncias de que, diferentemente do
que muitos pensam - afirma um engenheiro da Telesc -, o tempo de
predomnio do paradigma digital ser muito breve, pois ele constitui
"mera passagem para um espao-tempo que est muito prximo, no qual
passaro a predominar as redes neurais,33 com uma lgica que supe o
conhecimento do digital, mas que no se reduzir a este". RESUMO
A apropriao do saber-fazer dos trabalhadores sempre se constituiu em
um dos desafios dos donos dos meios de produo. O intento de
apropriar-se desse conhecimento, no entanto, vem esbarrando na
resistncia do trabalhador individual e/ou da sua categoria. Ser
possuidor desse saber-fazer franqueava um poder de barganha  classe
trabalhadora, criando um certo equilbrio numa relao atravessada pela
desigualdade. Com as novas tecnologias da informao e da comunicao,
contudo, so inseridos elementos novos nesse processo. A visibilidade
das competncias, atravs --- 33. Atravs das redes neurais, os
pesquisadores esto tentando reproduzir, em mquinas, a forma de
organizao das atividades mentais humanas. 147 da progressiva
objetivao dos conhecimentos dos trabalhadores - seu saber-fazer nos
softwares, e o potencial de trocas instantneas dos chamados
conhecimentos teletcitos exigem que sejam rediscutidos os conceitos de
qualificao, qualificao tcita, apropriao e expropriao, bem como
seja retomado o entendimento sobre o controle do saber-fazer dos
trabalhadores. QUESTES PARA DISCUSSO         1. At pouco tempo havia
consenso em torno do fato de que o saber tcito dos trabalhadores era um
espao-tempo exclusivamente seu - enquanto indivduo e categoria - que
lhe proporcionava poder de barganha para se impor e fazer exigncias.
Por serem saberes que resultavam de um longo processo de permanncia num
mesmo posto de trabalho e das formas prprias, idiossincrticas de cada
trabalhador solucionar os imprevistos no processo de trabalho, esses
saberes eram de difcil formalizao e, conseqentemente, de difcil
transmisso. Na medida em que as novas tecnologias da informao e da
comunicao tm capacidade de registrar quando, como e por quem um
trabalho  executado, esses saberes tornam-se passveis de padronizao
e de transmisso instantnea para outros lugares. Quais as repercusses
sobre o trabalhador e seu coletivo desse chamado fenmeno da
"visibilidade das competncias" e do potencial dos saberes tcitos serem
formalizados e transmitidos  distncia na condio de "conhecimentos
teletcitos"?         2. A customizao (do ingls customer -
fregus/consumidor) de produtos e servios implicaria afirmar que a
medida da criatividade do trabalhador passa a ser o gosto e a exigncia
de "sua excelncia o consumidor"?         3. No extremo, com o potencial
disponibilizado pelas novas tecnologias da informao e da comunicao,
poderamos pensar na possibilidade de descarte do trabalhador do
processo de trabalho? Em caso afirmativo: estaramos prximos ao fim das
solues originais no processo do trabalho, dando assim materialidade 
pretendida one best way taylorista? Em caso negativo: que espao de
manobra resta para os trabalhadores individual e coletivamente
desenvolverem e desencadearem estratgias de resistncia e de defesa dos
seus interesses diante do capital? PARA LER MAIS BACON, Francis. Novum
organum. So Paulo: Abril Cultural, 1979. Col. Os Pensadores.
BIANCHETTI, Lucdio. Da chave defenda ao laptop: um estudo sobre as
qualificaes dos trabalhadores nas Telecomunicaes de Santa Catarina
(Telesc) (Tese). So Paulo, PUC, 1998 (Mimeo.). 148 CEPAL. Informacin y
telecomunicaciones: vector de la transformacin productiva con equidad
(Un libro verde de Ia CEPAL). Santiago de Chile, 1990. DANTAS, Marcos. A
lgica do capital- informao. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. LVY,
Pierre. O que  virtual? Rio de Janeiro: Editora 34, 1996. MATTELART,
Armand. Comunicao-mundo: histria das idias e das estratgias.
Petrpolis: Vozes, 1994. PAIVA, Vanilda. Produo e qualificao para o
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educao na Amrica Latina. So Paulo: Cortez, 1990. PARADEISE,
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REBOUAS, Andrea M. O indivduo na sociedade da informao globalizada:
estudo sobre a transio do emprego  empregabilidade com foco na
privatizao da Telebrs (Dissertao). Braslia: UnB, 1998 (Mimeo.).
149 Trabalhadores bancrios: entre o fetichismo do dinheiro e o culto da
excelncia1 Nise Jinkings Temas A reestruturao capitalista no setor
bancrio Automatizao e flexibilizao no trabalho bancrio O bancrio
dos anos 90: novas exigncias de qualificao sob o culto da excelncia
Introduo         Os trabalhadores bancrios, cujo objeto de trabalho 
a mercadoria-dinheiro, vivem no seu dia-a-dia a representao
fetichizada atravs da qual o dinheiro parece gerar dinheiro, sem
qualquer mediao da atividade produtiva. Na atualidade, sob a voltil
forma de impulsos eletrnicos, o capital-dinheiro circula velozmente de
um ponto a outro do mundo,  medida que se amplia e desenvolve a esfera
financeira. Num contexto de hegemonia e de crescente internacionalizao
do capital financeiro, 2 no movimento contemporneo de acumulao
capitalista, o trabalhador bancrio manipula smbolos de valor sempre
mais abstratos, com um domnio cada vez menor da finalidade e do produto
da sua atividade.         Com efeito, os bancrios experimentam de modo
dramtico as tenses e contradies do desenvolvimento capitalista
recente, comandado pela esfera financeira. Na sua atividade cotidiana,
com o suporte teleinformtico, estes trabalhadores realizam um conjunto
de operaes de registro e de controle, transferncia e redistribuio
dos valores excedentes criados no processo capitalista de produo. 
desta maneira que viabilizam a transformao da mercadoria-dinheiro em
capital produtor de juros, num processo que toma a aparncia de dinheiro
criando mais dinheiro. --- 1. Este artigo sistematiza elementos da
pesquisa desenvolvida no curso de Doutorado em Cincias Sociais, com
apoio financeiro da Fundao de Amparo  Pesquisa do Estado de So Paulo
- FAPESP. 2. Entendido como frao do capital que se valoriza
conservando a forma de capital-dinheiro. MARX, K. O capital: crtica da
economia poltica. 4 ed. Livro III, vol. 5, So Paulo: Difel, 1985. 151
De fato, embora resulte da mais-valia extorquida ao trabalhador no
processo de produo, o juro se representa imediatamente aos olhos como
mercadoria produzida autonomamente pelo capital, sem a mediao do
trabalho. Esta , segundo Marx, a forma mais reificada, mais fetichista
da relao capitalista: O capital em sua marcha completa  unidade do
processo de produo e de circulao, proporcionando por isso
determinada mais-valia em perodo dado. Na forma do capital produtor de
juros, esse resultado aparece diretamente, sem a interveno dos
processos de produo e de circulao. O capital aparece como fonte
misteriosa, autogeradora de juro, aumentando a si mesmo. [...] O capital
produtor de juros  o fetiche autmato perfeito - o valor que se
valoriza a si mesmo, dinheiro que gera dinheiro, e nessa forma
desaparecem todas as marcas de origem. A relao social reduz-se 
relao de uma coisa, o dinheiro, consigo mesma. [...] Torna-se assim
propriedade do dinheiro gerar valor, proporcionar juros, do mesmo modo
que dar peras  propriedade de uma pereira. 3          esse processo
dominado pela representao fetichista do capital que fundamenta a
atividade nos bancos. Nele, a separao entre o homem e seu trabalho,
constitutiva do modo de produo regulado com base na propriedade
privada, revela-se de modo particularmente agudo. Os significados desta
ciso para a vida humana foram analisados por Marx atravs da noo do
trabalho estranhado, sistematizada nos seus Manuscritos econmicos e
-filosficos.         Em sua reflexo, Marx contrape a atividade humana
em seu sentido genrico ao concebida e planejada pelo homem com o fim
de criar valores-de-uso -  particularidade do trabalho na sociedade
capitalista, cuja finalidade direta e imediata  gerar mais-valor.
Assim, interpreta criticamente a oposio entre produo e apropriao
do valor que converte a capacidade viva de trabalho em simples meio de
valorizao do capital, mercantilizando a fora de trabalho e degradando
a existncia do trabalhador.4         Contemporaneamente, o modo pelo
qual o capital assegura sua prpria reproduo cria novos mecanismos de
explorao da fora de trabalho e aprofunda as relaes capitalistas de
dominao. Franois Chesnais5 assinala a emergncia de um "regime de
acumulao mundial predominantemente financeiro", caracterizado pelo
crescimento avassalador do setor financeiro e pelo lugar de destaque das
gran- --- 3. MARX, K. O capital: crtica da economia poltica. 4 ed.
Livro III, vol. 5, So Paulo: Difel, 1985, p. 451-2. 4. MARX, K.
Manuscritos economicos e filosficos. Lisboa: Edies 70, 1989. 5.
CHESNAIS, F. A emergncia de um regime de acumulao mundial
predominantemente financeiro. Praga -- Estudos Marxistas, n. 3, So
Paulo: Hucitec, 1997. 152 des instituies financeiras transnacionais
(bancrias e no bancrias)6 nos movimentos de concentrao do capital.
Ao analisar esse processo de mundializao capitalista e suas
caractersticas de marginalizao social e de hierarquizao entre
pases, Chesnais observa: A "globalizao" entendida como "mundializao
do capital" no apaga a existncia dos Estados nacionais, nem das
relaes de dominao entre eles. Ao contrrio, esses processos acentuam
os fatores de hierarquizao entre pases, ao mesmo tempo que
redelineiam sua configurao. O abismo que separa os pases pertencentes
aos plos da "Trade" (Amrica do Norte, Europa e Japo) ou a eles
associados e que, portanto, participam - mesmo que de maneira
subordinada - dos circuitos de valorizao do capital, os pases que
apenas se submetem  dominao do capital-dinheiro e os pases que no
mais interessam absolutamente ao capital aumentou ainda mais.7
Para a classe trabalhadora o atual regime de acumulao capitalista
destina as mais brutais formas de expropriao de mais-valia. Os
movimentos de reestruturao produtivas combinam intensa transformao
tecnolgica, organizacional e gerencial nos locais de trabalho com
baixos nveis de remunerao, forte reduo da fora de trabalho e
expanso do emprego precrio e informal. As estratgias de
racionalizao do trabalho engendram mudanas produtivas baseadas em
processos e mercados de trabalho flexveis, dotados de mobilidade para
ajustar a produo e a quantidade de fora de trabalho s exigncias do
mercado. Simultaneamente, formas sofisticadas de controle e gesto
perseguem a mxima produtividade e disciplina do trabalho.         A
potencialidade produtiva da automao e da microeletrnica no se
traduz, para o conjunto da classe trabalhadora, em melhores condies de
vida e trabalho. As transformaes tecnolgicas, acopladas s
modalidades contemporneas de organizao e controle, intensificam e
tensionam os ritmos de trabalho, produzindo novos problemas de sade e
contribuindo para um aumento sem precedentes dos n- --- 6. Segundo
CHESNAIS, as organizaes capitalistas mais poderosas, nos dias de hoje,
so "os grandes fundos de penso por capitalizao, os grandes fundos de
aplicao coletiva privados (os Fundos Mutuais), os grupos de seguros,
especialmente os engajados na 'indstria' de penses privadas e, enfim,
os enormes bancos multinacionais..." (CHESNAIS, F. A emergncia de um
regime de acumulao mundial predominantemente financeiro. Praga-Estudos
Marxistas, n. 3, So Paulo: Hucitec, 1997, p. 32). 7. CHESNAIS, F. A
emergncia de um regime de acumulao mundial predominantemente
financeiro. Praga - Estudos Marxistas, n. 3, So Paulo: Hucitec, 1997,
p. 25. 8. Por reestruturao produtiva entendo o conjunto amplo de
mudanas nas condies tcnicas e sociais dos processos de produo e de
trabalho, engendradas pelo capital para enfrentar suas contradies
internas e aumentar a fora produtiva do trabalho. O processo
contemporneo de reestruturao do capitalismo, que cria novas formas de
produo de mais-valia, objetiva superar as contradies do modo de
organizao do processo de trabalho constitutivo do taylorismo e do
fordismo. 153 veis de desemprego e subemprego. Ao mesmo tempo, tornam-se
mais agudas as fragmentaes que separam os assalariados quanto a
qualificao, salrio e carreira profissional.         No mbito de uma
contextualidade marcada pela liberalizao e desregulamentao
financeiras, pela extrema concentrao do capital e por transformaes
produtivas que agravam a taxa de explorao do trabalho, os bancrios
vivem a deteriorao de suas condies de emprego e salrio. Os
movimentos de tecnificao e racionalizao nos bancos possibilitam um
aumento sem precedentes da produtividade do trabalho, transformando o
contedo e as condies de realizao das atividades.         Ao
executar, sob ritmo intenso, tarefas crescentemente simplificadas pelos
processos automatizados, grande parcela dos bancrios converte-se em
vendedora dos produtos e servios oferecidos pelos bancos.
Paralelamente, novas estratgias patronais de gesto e controle da fora
de trabalho procuram induzir os trabalhadores a uma incorporao do
iderio empresarial de "competitividade mercadolgica". Sob uma
conjuntura de altos ndices de desemprego e de difuso de formas
precrias de contratao em todos os setores econmicos, tais polticas
dificultam e enfraquecem as aes de resistncia dos bancrios,
desmobilizando sua luta sindical. A reestruturao capitalista no setor
bancrio         Desde a introduo dos grandes centros de processamento
de dados no sistema bancrio, em meados dos anos 60, com o objetivo de
reunir e organizar os dados resultantes das operaes realizadas nas
agncias, a automao bancria tem se desenvolvido num ritmo acelerado.
Hoje assistimos a um constante aperfeioamento dos processos on-line,
que interconectam instantaneamente as agncias, e dos sistemas honre
banking, que possibilitam a realizao de operaes financeiras mediante
a conexo entre o computador pessoal do cliente e o do banco, atravs de
sistemas eletrnicos de comunicao. Os capitalistas financeiros,
desafiados pelos movimentos da concorrncia, realizam grandiosos
investimentos na adoo das tecnologias microeletrnicas, que se
generalizam nos bancos como instrumento de elevao da fora produtiva
do trabalho e de maximizao de lucros.         Um processo de migrao
do atendimento bancrio a clientes e usurios nas agncias para o
atendimento eletrnico, em canais alternativos, marca a automatizao
nos bancos, na atualidade.9 As agncias tendem a ser substitudas,
enquanto --- 9. A expectativa dos banqueiros  de que o volume mensal de
transaes eletrnicas alcance US$ 1,3 trilhes no ano 2000, o que
representaria uma economia de 780 milhes ao ano, j que os custos das
operaes automatizadas so aproximadamente dez vezes menores que os
relativos aos procedimentos manuais. ERIVST & YOUNG, Bancos: anlise da
indstria bancria no Brasil. So Paulo, 1997 (Mimeo.). 154 principal
canal para realizao das transaes bancrias, por sistemas de
atendimento eletrnico via homeoffice banking, centrais de atendimento
telefnico e caixas automticos (com mquinas ATM - Automatic Teller
Machines).         Os quiosques com caixas automticos (AM) tm se
tornado numericamente mais expressivos e se diversificam  medida que se
desenvolvem os processos de auto-atendimento, possibilitando aos
usurios dos bancos o acesso a produtos e servios mltiplos. Os
investimentos crescentes nos cartes eletrnicos, destacadamente os
chamados smart cards, so outra tendncia de impacto nos movimentos de
automatizao do sistema bancrio que visam promover um esvaziamento das
agncias. Quanto s centrais de atendimento telefnico, canal
alternativo de atendimento relativamente mais utilizado hoje nos bancos
de pequeno porte, so um dos focos dos investimentos do conjunto das
instituies financeiras, nas suas previses para 1999.10         Com
efeito, os bancos planejam uma grande reduo do nmero de operaes
financeiras efetuadas nas agncias, nos prximos anos, investindo
maciamente em sistemas informatizados de atendimento, que possibilitam
aos clientes a realizao de operaes financeiras em suas residncias
ou escritrios. Operaes financeiras cada vez mais complexas vo sendo
realizadas atravs destes canais, que se convertem em instrumentos
importantes das estratgias mercadolgicas bancrias e dos programas de
reorganizao do trabalho implementados. De fato, as estratgias de
marketing das instituies financeiras enfatizam a "comodidade"
propiciada aos clientes bancrios pelas inovaes tecnolgicas e a
crescente "eficincia e qualidade" de seus servios.11         Em escala
mundial, imensas redes de informtica vo se constituindo,
interconectando instituies bancrias e grandes empresas multinacionais
e mobilizando altssimas somas que circulam velozmente no mercado
financeiro internacional. Baseadas no desenvolvimento de sofisticados
sistemas tecnolgicos de informatizao e comunicao, estas redes
permitem aos agentes financeiros um controle imediato dos movimentos de
seus ativos. Cria-se um mercado de dinheiro dominado pelos grandes
conglomerados financeiros privados, que atuam como "criadores de
dinheiro", segundo expresso de Michel Chossudovsky.12 --- 10. ERNST &
YOUNG, I Pesquisa Nacional de Tecnologia Bancria. So Paulo, 1997
(Mimeo.). 11. Note-se que a difuso e o desenvolvimento dos processos
automatizados nos bancos no tm beneficiado amplas parcelas da
populao. Menos da metade dos brasileiros possui conta em banco - cerca
de 43% da populao maior de 16 anos -, enquanto apenas 2% dos
correntistas utilizam os requintados sistemas home banking, que permitem
a realizao de operaes financeiras por meio do computador. Instituto
de Pesquisa DATAFOLHA, Avaliao do atendimento bancrio pela populao,
So Paulo, 1996 (Mimeo.). 12. CHOSSUDOVSKY, M. A globalizao da
pobreza. Princpios: Revista Terica, Poltica e de Informao, ago.
set. out., n. 38, So Paulo: Anita, 1995. 155         Esse movimento de
mundializao dos fluxos financeiros, livre da ao dos governos
nacionais,  uma particularidade essencial do capitalismo contemporneo.
Desenvolve-se num contexto de ampla difuso dos princpios tericos e
programas de ao do neoliberalismo, que retomam a tese clssica liberal
de que o mercado constitui-se em mecanismo fundamental de estruturao e
coordenao dos problemas econmicos e sociais. 13 Sob o impacto do
receiturio neoliberal, esta fase especfica do processo de valorizao
e internacionalizao capitalista vai sendo impulsionada por polticas
de desregulamentao financeira, que promovem o aumento da riqueza
privada por meio de transaes especulativas e da manipulao das taxas
de juros.         O incio dos anos 90 assiste a um conjunto de
iniciativas para implementao do projeto neoliberal no Brasil, 14 em
conformidade com determinaes dos organismos financeiros internacionais
sediados nos Estados Unidos - Fundo Monetrio Internacional, Banco
Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento. Um amplo programa de
estabilizao, ajuste e reformas institucionais de cunho liberalizante
constituiu o centro da estratgia poltica e econmica do governo
Fernando Collor (1990-1992). Seus fundamentos estratgicos seriam
mantidos nos governos posteriores, mas sua efetiva consolidao se daria
na segunda metade da dcada, atravs do bloco de foras conservadoras
que compem o governo Fernando Henrique Cardoso, desde 1995.15
Como epicentro de sua poltica econmica, o governo FHC desenvolveria um
programa de estabilizao monetria baseado, fundamentalmente, numa
absoro crescente de capitais externos e na sobrevalorizao cambial.
Praticado a partir de 1994, o Plano Real se fazia acompanhar de medidas
estatais de ajuste fiscal, liberalizao financeira, privatizao e
abertura comercial indiscriminada, que conduziriam a um maior
endividamento externo e  desarticulao da estrutura industrial do
Pas.         Como em outros pases capitalistas centrais e perifricos,
no cerne dessas polticas estavam reformas na legislao do trabalho,
objetivando criar condies cada vez mais favorveis  dominao do
capital. De um lado, mantendo e aperfeioando os instrumentos
coercitivos do Estado para reduzir ou eliminar a fora dos organis- ---
13. SADER, E. (Org.). Ps-Neoliberalismo: as polticas sociais e o
Estado democrtico. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. 14. No
fundamental, o receiturio neoliberal tem sido praticado no Brasil
atravs de polticas de desregulamentao da economia, fim das
restries ao capital externo, privatizao de empresas estatais,
abertura do sistema financeiro a instituies financeiras
internacionais, alm de um conjunto de medidas de ataque aos direitos e
conquistas dos trabalhadores. 15. FIORI, J.L. Ajuste, transio e
governabilidade: o enigma brasileiro. In: TAVARES, M.C.; FIORI, J.L.
Desajuste global e modernizao conservadora. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1996. 156 mos de representao da classe trabalhadora. De outro,
transferindo para o mercado as principais determinaes sobre emprego e
salrio, em coerncia com os movimentos mundiais de privatizao da
economia.         A adoo de polticas neoliberais no Brasil tem
repercutido fortemente no sistema financeiro nacional, objeto de um
conjunto de medidas destinadas a adequ-lo ao atual modelo de acumulao
capitalista. As aes de reestruturao do sistema tm se vinculado a
uma proposta essencialmente concentradora de renda, estimulando fuses e
incorporaes entre bancos que favorecem os grandes conglomerados
financeiros privados. Paralelamente, polticas voltadas para a
liberalizao financeira e a desregulao do mercado atraem cada vez
mais bancos estrangeiros ao Pas, cujo poder no sistema bancrio
brasileiro cresce com intensidade. Sob a mesma lgica, o desenvolvimento
de programas de privatizao de empresas estatais atinge violentamente
os bancos pblicos, constituindo-se um real movimento de desmonte dessas
instituies. Reduz de modo drstico suas estruturas administrativas e
estabelece para eles novas diretrizes de atuao que esvaziam seu
contedo social, objetivando sua privatizao ou liquidao.
Analisando o impacto dos movimentos recentes de centralizao e
concentrao de capital no sistema financeiro, Ari Minella16 ressalta a
importncia dos grupos financeiros e econmicos de grande porte na
dinmica capitalista de nossos dias como "agentes privilegiados das
operaes econmicas em esfera global" e pela "sua influncia ou
potencial de influncia direta e indireta nas polticas governamentais".
Tratando dos mecanismos de poder da burguesia financeira do Pas,
assinala a crescente participao destes grandes grupos em cargos
diretivos das suas entidades de representao de classe e sua vinculao
com "rgos de articulao interburgus de carter poltico-ideolgico":
Tais rgos contam com a participao ou esto organicamente vinculados
a integrantes das elites intelectuais e polticas, e sua abrangncia 
nacional e internacional. Estabelecem uma rede complexa de relaes com
organismos diversos de assessoria, consultoria, de apoio tcnico - em
mbito privado, universitrio -, rgos da grande imprensa e aparatos
estatais de deciso, o que lhes garante um enorme potencial de
influncia sobre as definies das polticas que afetam o setor. 17 Os
interesses setoriais de classe da burguesia financeira tm estado
perfeitamente contemplados nas atuais polticas governamentais. Diversas
medidas, desti- --- 16. MINELLA, A. Elites financeiras, sistema
financeiro e governo FHC. In: RAMPINELLI, W.; OURIQUES, N. (Org.). No
fio da navalha: crtica das reformas neoliberais de FHC. 2 ed. So
Paulo: Xam, 1998. 17. MINELLA, A. Elites financeiras, sistema
financeiro e governo FHC. In: RAMPINELLI, W.; OURIQUES, N. (Org.).
No,fio da navalha: crtica das reformas neoliberais de FHC. 2 ed. So
Paulo: Xam, 1998, p. 71. 157 nadas a proteger os mecanismos de
rentabilidade das instituies bancrias em conjuntura de estabilizao
da moeda18, tm favorecido o grande capital financeiro nacional e
internacional. Minella relaciona as seguintes: medidas de socorro ao
sistema financeiro e de subsdios para fuso e incorporao de bancos;
desregulamentao do sistema financeiro; manuteno de altas taxas de
juros; liberao de tarifas bancrias; reduo da carga tributria sobre
os bancos; fundos de investimento com alta rentabilidade.         Em
concomitncia com as polticas neoliberais que promovem mudanas
expressivas na configurao do sistema financeiro nacional, um movimento
de racionalizao do processo de trabalho e de ajuste de estrutura
operacional, destinado a reduzir custos, vai se desencadeando com
intensidade nos bancos. De fato, as instituies financeiras perseguem a
elevao de seus lucros e dos seus padres de "competitividade", em
cenrio de estabilizao monetria e intensificao da concorrncia no
mercado interno e externo. Adotam os pressupostos da "qualidade total"
de que produzir com qualidade significa produzir com maior
produtividade, a custos reduzidos.         A partir dessa diretriz, os
dirigentes do setor sugerem uma redefinio do perfil operacional dos
bancos - priorizando o atendimento a clientes potencialmente
investidores e a venda de produtos financeiros -, alm de uma drstica
reduo de seu quadro funcional.19 Nesta perspectiva, os procedimentos
que reorganizam o sistema financeiro nacional restringem crescentemente
os servios e produtos bancrios mais sofisticados s camadas sociais de
rendas elevadas, considerados clientes preferenciais dos bancos. Um novo
perfil do sistema vai se consolidando, caracterizando-se por uma densa
concentrao do capital privado nacional e internacional, por ser
altamente informatizado e seletivo na oferta de servios  populao e
por empregar fora de trabalho cada vez mais reduzida.         Os
impactos desses processos de reestruturao do setor financeiro sobre a
vida social tendem a se tornar mais significativos  medida que se
aprofundam. Quanto aos trabalhadores bancrios, vo sendo agudamente
atingidos pelas mudanas do seu trabalho, fundamentadas, principalmente,
nas tecnologias de base microeletr- --- 18. Isso porque uma relao
necessria de causalidade se estabelecera entre rentabilidade bancria e
ritmo inflacionrio, ao longo das ltimas duas dcadas. Naquela
contextualidade, ditada pela chamada "ciranda financeira", os lucros dos
bancos dependiam, principalmente, do circuito de valorizao dos ativos
bancrios. Segundo dados do Banco Central, em toda a dcada de 80, at o
ano de 1993, o ganho inflacionrio anual do sistema bancrio situou-se
numa mdia de aproximadamente US$ 9 bilhes. Em contrapartida, em 1995
ele caa drasticamente para US$ 499 milhes, aps a implantao das
diversas polticas de ajuste monetrio que compuseram o Plano Real.
Revista If-Informao Financeira, ano I, n. 5, abril/maio 1996, So
Paulo. 19. DIEESE - Linha Bancrios. Os programas de qualidade total e o
setor bancrio. Esprito Santo, 1994 (Mimeo.). 158 nica e em inovaes
organizacionais e gerenciais inspiradas no modelo flexvel de
organizao produtiva. Automatizao e flexibilizao no trabalho
bancrio         Um novo sistema de relaes produtivas difunde-se
amplamente nos pases capitalistas centrais, desde os anos 70, como
alternativa  crise do regime de acumulao fordista. Incidindo
dinamicamente sobre a organizao e os mecanismos de controle do
trabalho, as novas formas produtivas caracterizam-se pela introduo de
processos e mercados de trabalho flexveis e versteis, dotados de
mobilidade para ajustar a produo e a fora de trabalho s exigncias
do mercado. Simultaneamente, criam mecanismos de controle e gesto do
trabalho que procuram obscurecer a determinao antagnica que funda a
apropriao do trabalho pelo capital. Assim, objetivando controlar as
aes de resistncia da classe trabalhadora e obter sua adeso ao
projeto contemporneo de acumulao capitalista, uma srie de
instrumentos de dominao vai sendo desenvolvida cotidianamente nas
empresas.         Nicole Aubert e Vincent de Gaulejac20 assinalam que as
novas formas de controle do trabalho baseiam-se na mobilizao absoluta
do trabalhador para as estratgias mercadolgicas das empresas, que se
convertem em centros de "canalizao energtica" para o capital. Segundo
os autores, " a mobilizao total do indivduo que se deseja obter; 
no somente sua energia fsica e afetiva, mas tambm sua energia
psquica que se procura captar".         Nos bancos, as atuais prticas
de poder organizacional mascaram ao mximo os instrumentos coercitivos
patronais e atuam diariamente para que seja assimilado pelos
trabalhadores, terica e praticamente, o iderio da classe dominante.
Algumas destas tticas de poder efetivam-se por meio do deslocamento,
para fora do banco, das origens de tenses nos ambientes de trabalho.
Imprimem, por exemplo, s presses dos clientes bancrios e aos
movimentos da concorrncia mercadolgica entre os conglomerados
financeiros as exigncias de aumento da produtividade do trabalho,
mediante a intensificao do seu ritmo.         Essas novas polticas
gerenciais, que buscam legitimar a sujeio do trabalho ao capital, vm
sendo institudas nos bancos, principalmente por seus programas de
"qualidade total" e de "remunerao varivel". A concesso de prmios de
produtividade aos bancrios que superarem metas de produo
estabelecidas, o desenvolvimento de um eficiente e sofisticado sistema
de comunicao empresa-trabalhador atravs de jornais, revistas ou
vdeos de ampla circulao nos ambientes de trabalho -, a criao de
grupos de "integrao funcional" nos locais de trabalho e a generali-
--- 20. AUBERT, N.; GAULEJAC, V. de. Le cot de l'excellence. Paris:
ditions du Seuil, 1991. 159 zao do trabalho em equipe so alguns dos
mecanismos que perseguem o aumento da produtividade do trabalho e a
adeso dos bancrios s estratgias de autovalorizao do capital
reproduzidas nas instituies financeiras.         Como elemento das
polticas que visam flexibilizar as relaes de trabalho, o governo
brasileiro vem procurando regulamentar um sistema flexvel de
remunerao da fora de trabalho, que contm enorme potencial
maximizador da lucratividade das empresas. Isto porque a chamada
remunerao varivel associa os rendimentos do trabalhador ao
cumprimento de metas de produtividade determinadas pelas empresas.
Paralelamente, permite expressiva reduo de custos operacionais, 
medida que viabiliza variaes dos valores das folhas de pagamento dos
empregados, conforme as flutuaes na demanda e na produo. Segundo
definio do Dieese:21 Do ponto de vista da empresa, flexibilizar a
remunerao dos trabalhadores significa: I) associar remunerao 
produtividade; e II) administrar os custos fixos da empresa ligados 
fora de trabalho. As formas de remunerao varivel esto normalmente
associadas  produtividade, programas de incentivo ao trabalho em
equipe, distribuio de lucros e participao dos trabalhadores por meio
do "pagamento" em aes da empresa. Dessa forma, a adoo de prmios
visa conformar o comportamento psquico e objetivo dos trabalhadores em
consonncia com as metas da organizao.         As prticas flexveis
de contratao da fora de trabalho nas instituies financeiras so
mais um mecanismo constitutivo da reestruturao produtiva no setor
bancrio. Seja na forma de subcontratao, trabalho por tarefas ou em
tempo parcial, este novo padro de relao salarial significa
precariedade do emprego e do salrio, desregulamentao das condies de
trabalho e perda de direitos sociais para os empregados sob tal regime.
Do ponto de vista do capital, essas formas de contratao adaptam-se
perfeitamente aos seus objetivos de autovalorizao,  medida que
permitem s empresas ganhos enormes de lucratividade, ao mesmo tempo em
que atingem fortemente a capacidade de resistncia da classe
trabalhadora, fragmentando-a e dificultando sua organizao sindical.
Estudando a especificidade dessas modernas formas de contratao no
setor financeiro, Manoel Blanco22 apontou os mecanismos mais
rotineiramente utilizados nos bancos para reduo de custos relativos 
fora de trabalho: a contratao tem- --- 21. DIEESE Subseo
SESF/SEEB-SP. O programa de remunerao varivel do Ita (Agir): Alguns
Comentrios. So Paulo, 1997, p. 4 (Mimeo.). 22. BLANO, M. O processo
de terceirizao nos bancos. In: SOUZA, H. MARTINS; RAMALHO, J.R.
(Org.). Terceirizao: diversidade e negociao no mundo do trabalho.
So Paulo: Hucitec, 1994. 160 porria de trabalhadores vinculados a
empresas prestadoras de servios; a transferncia de funcionrios do
banco para empresas participantes do seu conglomerado; a contratao de
estagirios; a terceirizao de atividades consideradas no estratgicas
 lucratividade da empresa.         Mudando em profundidade as condies
de existncia da fora de trabalho bancria, esse contraditrio e
intenso processo de transformaes incide agudamente sobre os nveis de
emprego do setor. Apoiados no desenvolvimento tecnolgico, os programas
de ajustes organizacionais reduzem ao mximo a estrutura administrativa
e os quadros funcionais das instituies financeiras. Vo sendo
desativados ou drasticamente reduzidos grandes centros de computao,
servios e compensao, ao mesmo tempo em que setores inteiros so
extintos nas agncias bancrias e centrais administrativas. Enquanto os
grandes conglomerados financeiros privados crescem em poderio econmico,
o nmero de bancrios no Pas caiu de aproximadamente 800 mil no final
dos anos 80 para cerca de 463 mil em dezembro de 1997, segundo dados do
Dieese.23         Na ltima dcada, o aprimoramento dos processos
automatizados permite a movimentao das agncias bancrias com
pouqussimos funcionrios. Elas tendem a se converter em grandes caixas
eletrnicos, face  generalizao dos servios de auto-atendimento,
tornando descartvel significativo contingente de trabalhadores. As
agncias vo sendo gradativamente substitudas por um maior nmero de
agncias de menor porte e por postos de servio. Muda o seu layout,
constituindo-se um espao maior reservado s reas de auto-atendimento e
ao contato seleto com clientes especiais. Neste novo espao, a grande
quantidade de escriturrios e caixas que ali desenvolviam suas
atividades vai dando lugar a um nmero restrito de gerentes e assessores
especializados em mercado financeiro.         Diversos estudos
relacionam momentos de crise econmica ou de transformaes intensas nos
processos de trabalho com problemas de sade. Edith SeligmannSilva24
assinala que doenas cardiovasculares, distrbios mentais, taxas de
suicdio e homicdio tendem a aumentar em situaes de recesso.
Tratando do que chama de psicopatologia da recesso, a autora analisa o
sofrimento dos trabalhadores que perderam seus empregos. Mas trata,
tambm, dos agravos  sade dos que mantm seus vnculos empregatcios
sob ameaa constante de demisso, diante de processos de dispensas em
massa. E que esto sujeitos  sobrecarga de tarefas, a jornadas de ---
23. Cadernos CNB - Publicao da Executiva da Confederao Nacional dos
Bancrios/Sindicato Nacional, n. 2, julho/agosto 1998, So Paulo. 24.
SELIGMANN-SILVA, E. Desgaste mental no trabalho dominado. Rio de
Janeiro: Editora UFRI; So Paulo: Cortez, 1994. 161 trabalho longas e
extenuantes e  intensa presso por produtividade nos seus locais de
trabalho, diariamente.         A situao de sofrimento fsico e mental
apontada por Seligmann-Silva tem atingido uma quantidade cada vez maior
de trabalhadores no mundo todo. Os processos de automatizao e de
flexibilizao do trabalho vo sendo implementados nos ambientes
produtivos em perfeita coerncia com o objetivo "determinante,
predominante e avassalador" de autovalorizao do capital, assinalado
por Marx.25 Ao permitir um aumento brutal da produtividade do trabalho,
ao mesmo tempo em que gera grandes excedentes de fora de trabalho, a
chamada "acumulao flexvel de capital" vai combinando de um modo
particular as duas estratgias de apropriao de valor que Marx definiu
como mais-valia absoluta e mais-valia relativa. Conforme analisa David
Harvey,26 A primeira, chamada de mais-valia absoluta, apia-se na
extenso da jornada de trabalho com relao ao salrio necessrio para
garantir a reproduo da classe trabalhadora num dado padro de vida. A
passagem para mais horas de trabalho associadas com uma reduo geral do
padro de vida atravs da eroso do salrio real ou da transferncia do
capital corporativo de regies de altos salrios para regies de baixos
salrios representa uma faceta da acumulao flexvel de capital. [...]
Nos termos da segunda estratgia, denominada mais-valia relativa, a
mudana organizacional e tecnolgica  posta em ao para gerar lucros
temporrios para firmas inovadoras e lucros mais generalizados com a
reduo dos custos dos bens que definem o padro de vida do trabalho.
Tambm aqui a violncia proliferante dos investimentos, que cortou o
emprego e os custos do trabalho em todas as indstrias - minerao de
carvo, produo de ao, bancos e servios financeiros -, foi um aspecto
deveras visvel da acumulao do capital nos anos 80.         O trabalho
bancrio  fonte de graves doenas profissionais. Na primeira metade do
sculo, os problemas de sade mais freqentemente diagnosticados entre
os trabalhadores eram a tuberculose e a chamada "psiconeurose bancria",
como informa Letcia Cando.27 Segundo a autora, 23% dos bancrios de
So Paulo eram portadores de tuberculose em 1938, enquanto a
"psiconeurose bancria" foi diagnosticada em 259 bancrios do Rio de
Janeiro em 1942, tendo seus sintomas assim descritos na poca: "afeta as
funes do crebro, dando fraqueza, dificuldade de concentrar a ateno,
dor de cabea e irritabilidade. Surgem insnias e fobias de vrias
espcies. [...] O sintoma que domina  a angstia ou excesso de
escrpulo". 28 --- 25. MARX, K. O capital: crtica da economia poltica.
Livro I, vol.I, 13 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. 26.
HARVEY, D. Condio ps-moderna. 2 ed. So Paulo: Loyola, 1993, p.
174-175. 27. CANDO, L. O sindicalismo bancrio em So Paulo. So Paulo:
Smbolo, 1978. 28. CANDO, L. op. cit., p. 43. 162         O processo de
racionalizao e automatizao do trabalho, que se desenvolve no setor
bancrio desde os anos 60, produziria novos riscos para a sade do
trabalhador. O ritmo intenso de trabalho, a presso por produtividade e
as formas de controle exercidas, a grande carga de responsabilidade (em
razo da manipulao de valores alheios, direta ou indiretamente), a
exigncia dos clientes em caso de atendimento ao pblico foram algumas
das causas de desgaste fsico e mental no trabalho bancrio apontadas em
pesquisa coordenada por Seligmann-Silva, nos anos 80.29
Altssimos nveis de ansiedade e depresso tm se verificado nos locais
de trabalho bancrio, diante dos programas de reorganizao produtiva
que disseminam o medo da demisso e tencionam os ambientes laborais. Em
especial nos bancos estatais, as polticas governamentais privatizantes
impem ajustes operacionais que ocasionam demisses e transferncias
arbitrrias de funcionrios, arrocho salarial e forte presso por
produtividade aos que permanecem empregados.30         A automao, na
produo capitalista, tende a produzir um aprofundamento do descontrole
do trabalhador sobre sua atividade. No somente seu ritmo e fluxo so
muitas vezes controlados e determinados pelos computadores, mas tambm o
prprio conhecimento do significado e das fases do processo de trabalho
na cadeia produtiva torna-se mais distante do trabalhador. Nos bancos,
os equipamentos vo sendo programados para suprir necessidades diversas,
regulamentadas por um grande nmero de normas que o bancrio deve
memorizar.31         Realizando sua atividade cotidiana sob a exigncia
de altos nveis de ateno e memorizao, submetidos a um ritmo intenso
de trabalho, os bancrios que utilizam computadores no decorrer de toda
a sua jornada esto sujeitos a novas formas de desgaste da sade. As
ltimas dcadas assistem a um aumento sem precedentes na incidncia das
chamadas LERs - Leses por Esforos Repetitivos -, dentre as quais se
destaca a tenossinovite, que consiste numa inflamao que reveste os
tendes. Seus sintomas mais freqentes so dores, dormncia e diminuio
da fora muscular. Dependendo do estgio em que se encontram, as LERs
comprometem a capacidade de realizar movimentos. Caixas, digitadores,
operadores de telemarketing, funcionrios da rea de compensao so os
trabalhadores mais afetados pela doena. --- 29. SELIGMANN-SILVA, E. et
al. Trabalho e sade mental dos bancrios. So Paulo: DIESAT, 1985
(Mimeo.). 30. Entre 1995 e 1996, quando se intensificaram os programas
de privatizao e desmonte das instituies estatais, ocorreram mais de
20 suicdios de funcionrios do Banco do Brasil. JINKINGS, N.
Reestruturao Produtiva e Qualidade de Vida. O espelho, Informativo da
Comisso de Empresa dos Funcionrios do Banco do Brasil, nov/detl96 - n.
157; jan/97 - n. 158. 31. SILVA FILHO, J.F. Subjetividade, sofrimento
psquico e trabalho bancrio. In: A sade no trabalhes bancrio. So
Paulo, Confederao Nacional dos Bancrios/CUT e Instituto Nacional de
Sade no Trabalho/CUT, 1993. 163 O bancrio dos anos 90: novas
exigncias de qualificao sob o culto da excelncia         Os
movimentos de precarizao do emprego nos bancos repercutem sobre os
traos constitutivos da fora de trabalho bancria enquanto segmento
profissional. As pesquisas mais recentes sobre o perfil da categoria
bancria 32 tm detectado um processo de reduo de escriturrios,
caixas e chefias intermedirias, a massa de trabalhadores envolvida nos
servios operacionais e administrativos dos bancos. Simultaneamente, vem
aumentando a participao de cargos tcnicos e de gerncias na estrutura
funcional dos bancos, principalmente aqueles especializados em
informtica e mercado financeiro.         De fato, pelas medidas
adotadas para reorganizar o sistema financeiro nacional vo sendo
demitidos prioritariamente aqueles trabalhadores considerados menos
qualificados ou que resistem a aderir incondicionalmente s finalidades
lucrativas das empresas. Gradativamente, delineiam-se mudanas
significativas na forma de ser da fora de trabalho empregada nos
bancos. Conforme pesquisa realizada no final dos anos 70, pelo Dieese,33
a categoria bancria do Estado de So Paulo era predominantemente
solteira e situava-se numa posio de relativa dependncia econmica na
famlia, tinha uma idade mdia de 26 anos, 64% de trabalhadores do sexo
masculino e um nvel de escolaridade razoavelmente alto, com 81 %
possuindo, no mnimo, o segundo grau e 13%, o superior completo.
Em contrapartida, a pesquisa elaborada em 1996 pelo Instituto
Datafolha,34 que abrangeu todas as regies do Pas, apresenta um perfil
bastante distinto de trabalhador. Mesmo se levando em considerao as
especificidades locais do setor, que dificultam a comparao entre os
resultados das duas pesquisas - uma restrita ao Estado de So Paulo,
outra de dimenso nacional -, as concluses dos estudos permitem apontar
algumas tendncias gerais de mudana nas caractersticas pessoais dos
bancrios.         Possuindo um nvel de escolaridade extremamente
elevado - 66% tm formao universitria e 3% cursaram ps-graduao -,
os bancrios dos anos 90 tm uma idade mdia mais alta, so
majoritariamente casados e principais responsveis pelas despesas
familiares. Ao mesmo tempo, enquanto no final dos anos 70 mais da metade
dos bancrios no possua sequer 4 anos de profisso, nesta dcada eles
tra- --- 32. IADES. Instituto de Anlise sobre o Desenvolvimento
Econmico Social, Perfil da Categoria: Bancrios de So Paulo. So
Paulo, 1992 (Mimeo.); SEADE-DIEESE, Pesquisa de Emprego e Desemprego,
.Estudo Especial, SPG-Convnio, Suplemento do Boletim da PED n. 114, So
Paulo, 1994; Instituto de Pesquisa DATAFOLHA. Perfil do Bancrio. So
Paulo, 1996 (Mimeo.). 33. DIEESE. Profisso: Bancrio-Perfil da
Categoria. Estudos Scio-Econmicos, n. 5, So Paulo, 1980. 34.
Instituto de Pesquisa DATAFOLHA. Perfil do Bancrio, op. cic 164 balham
em mdia h 11 anos no setor, e 66% tm inteno de seguir carreira nos
bancos aos quais esto vinculados. 35         Relativamente  diviso
sexual do trabalho, a categoria bancria veio seguindo um movimento de
feminizao,  medida que se desenvolviam os processos de automatizao
e flexibilizao do trabalho bancrio. Este fenmeno ocorreu no Brasil
em relativa concomitncia com o que se observava no sistema financeiro
mundial nas ltimas dcadas, quando aumentou continuamente a
participao das mulheres na fora de trabalho bancria. Entretanto, as
pesquisas mais recentes do perfil da categoria tm apresentado uma
tendncia de reduo na quantidade de mulheres trabalhadoras nos bancos:
no incio dos anos 90 a participao feminina atingia 46,8%, enquanto
atualmente representa em torno de 41% da fora de trabalho bancria.
 importante assinalar que no se tem verificado uma igualdade de
condies quanto a carreira e salrio entre homens e mulheres nos
bancos, como analisa Liliana Segnini.36 Segundo a autora, uma srie de
mecanismos sociais de discriminao - reproduzidos e intensificados nos
ambientes de trabalho - estabelecem relaes de dominao e de
explorao mais duras sobre o trabalho feminino, que vo se traduzindo
em desigualdades e segmentaes entre gneros. Baseando-se em pesquisa
sobre as relaes de gnero num banco estatal, Segnini observa que a
insero das mulheres no trabalho bancrio revela as seguintes
especificidades: 1. as mulheres ocupam sobretudo os cargos relacionados
s operaes simplificadas e repetitivas que os sistemas informatizados
passaram a demandar, no contexto de aumento do volume do trabalho
bancrio, a partir da dcada de 60; 2. as mulheres bancrias so
altamente escolarizadas, mais do que seus companheiros de trabalho;
desta forma, detm um significativo potencial para o desempenho das
tarefas que demandam mais responsabilidade e ateno. No entanto, esse
diferencial educacional no  remunerado pelo banco, j que no 
explicitada sua exigncia para exercer as funes apontadas. 37
A nfase dos bancos  "excelncia" do atendimento aos clientes como
forma de diferenciao mercadolgica e  venda de produtos e servios
como importante mecanismo de rentabilidade constitui-se em fator de
transformao no processo de tra- --- 35. JINKINGS, N. Automao e
subjetividade: a experincia dos trabalhadores bancrios. II Congresso
LatinoAmericano de Sociologia do Trabalho, guas de Lindia, 1996
(Mimeo.). 36. SEGNINI, L. Mulheres no trabalho bancrio: difuso
tecnolgica, qualificao e relaes de gnero. So Paulo: FAPESP/EDUSP,
1998. 37. SEGNINI, L. Mulheres no trabalho bancrio: difuso
tecnolgica, qualificao e relaes de gnero. So Paulo: FAPESP/EDUSP,
1998, p. 184. 165 balho bancrio. Os trabalhadores vinculados aos
setores de atendimento ao pblico convertem-se em bancrios-vendedores,
que devero estar capacitados a um atendimento integral ao cliente. Seja
compondo equipes, seja atuando individualmente, estes
bancrios-vendedores so compelidos a vender ttulos, seguros,
aplicaes e todos os demais produtos e servios tornados disponveis
nas agncias bancrias. De um modo geral, exercem sua atividade em
ambientes de trabalho tensos e competitivos, sob intensa presso para
cumprimento de metas de produtividade impostas pela administrao geral
do banco.         As mudanas apontadas nas caractersticas pessoais e
profissionais dos bancrios so expresses da reestruturao produtiva
em curso e de seus movimentos de tecnificao e racionalizao do
trabalho. As instituies financeiras, visando adequar sua fora de
trabalho s modalidades atuais do processo produtivo, exigem uma "nova
qualificao" para os trabalhadores do setor. Num contexto de crescente
desemprego e de aumento de formas precrias de contratao, os
assalariados bancrios so compelidos a desenvolver uma formao geral e
polivalente na tentativa de manter seu vnculo de trabalho e ascender na
carreira bancria.         No conjunto dos ramos produtivos da economia
mundial, as aes e discursos empresariais destacam a necessidade de
qualificao da fora de trabalho, de modo a torn-la apta a atuar na
nova base tcnica criada pela reestruturao produtiva. Fazendo a
apologia do conhecimento como "fator essencial de ascenso social num
mundo globalizado e informatizado", a demanda empresarial quanto 
formao do trabalhador adquire claro sentido poltico-prtico. Isto
porque os mecanismos capitalistas de excluso social, assim como a
natureza antagnica da relao entre capital e trabalho, ficam
encobertos no discurso e nas polticas patronais, que pretendem
construir uma aparente identidade de interesses entre capitalistas e
trabalhadores. Gaudncio Frigotto,38 analisando as concepes
contemporneas de educao e formao humana que fundamentam os
programas de treinamento da fora de trabalho nas empresas, adverte:
[...] os novos conceitos abundantemente utilizados pelos homens de
negcio e seus assessores - globalizao, integrao, flexibilidade,
competitividade, qualidade total, participao, pedagogia da qualidade e
a defesa da educao geral, formao polivalente e "valorizao do
trabalhador" - so uma imposio das novas formas de sociabilidade
capitalista, tanto para estabelecer um novo padro de acumulao, quanto
para definir as formas concretas de integrao dentro da nova
reorganizao da economia mundial. --- 38. FRIGOTTO, G. Educao e
formao humana: ajuste neoconservador e alternativa democrtica. In:
GEIVTILI, P.; SILVA, T.T. (Org.). Neoliberalismo, qualidade total e
educao: vises crticas. 4 ed. Petrpolis: Vozes, 1996, p. 40-41. 166
A sbita redescoberta e valorizao da dimenso humana do trabalhador
est muito mais afeta a sinais de limites, problemas e contradies do
capital na busca de redefinir um novo padro de acumulao com a crise
de organizao e regulao fordista do que a autonegao da forma
capitalista de relao humana.         O fundamento ideolgico das
propostas patronais relativas  qualificao da fora de trabalho
revela-se nas exigncias no somente de uma educao bsica geral e de
conhecimentos tcnicos, mas tambm da adeso plena do trabalhador s
imposies do atual modo de reproduo do capital. Nos programas de
treinamento desenvolvidos nos bancos, a busca da mobilizao total dos
bancrios s estratgias mercadolgicas das instituies financeiras
constitui-se em elemento fundamental do contedo pedaggico dos cursos
oferecidos.         Relacionando as aes de mudana organizacional das
instituies financeiras ao trabalhador "de novo tipo" que surge no
setor, Paulo Izumi39 desenvolve uma abordagem crtica do discurso de
"humanizao e valorizao do trabalhador" que ali se difunde
amplamente. O autor considera os movimentos de reestruturao produtiva
nos bancos reprodutores da diviso tcnica de trabalho sob o capitalismo
e nega a ocorrncia de uma efetiva elevao da qualificao dos
assalariados bancrios. A partir de pesquisa desenvolvida em um banco
estatal e uma instituio privada, conclui que, mesmo nas atividades
consideradas estratgicas para o lucro das empresas - relacionadas a
vendas e negcios -, pode-se identificar um conjunto de rotinas
simplificadas.         Ao pesquisar as especificidades do processo
contemporneo de racionalizao do trabalho nos bancos, Liliana
Segnini40 aproxima-se das concluses de Izumi, assinalando "o fetiche da
qualificao mais elevada dos bancrios". Segundo a autora, apesar de se
registrarem nveis mais altos de escolaridade entre os bancrios, nesta
dcada, tal fato no decorre de necessidades concretas dos processos de
trabalho. Isto porque, em face do avano tecnolgico, os procedimentos
de execuo das tarefas tendem a ser cada vez mais simplificados, quanto
ao seu contedo, e seguros, no que diz respeito a possibilidades de
erros. Ao mesmo tempo, o controle sobre o trabalho torna-se mais rgido
"tanto para os postos de trabalho passveis de alto grau de normatizao
(escriturrio, caixa, compensador), como para aqueles que vivenciam
forte tenso entre a norma e a particularidade, ou seja, aqueles que
estabelecem relao direta com o cliente". Segnini afirma que os
elevados nveis de --- 39. IZUMI, P. O bancrio.frente  exigncia de um
novo perfil de qualificao. Tese de Mestrado, Programa de Ps-Graduao
em Administrao, PUC, So Paulo, 1996. 40. SEGNINI, L. (Coord.).
Reestruturao nos bancos no Brasil: desemprego, subcontratao e
intensificao do trabalho. Programa de Pesquisa em Cincia e
Tecnologia, Qualificao e Produo. Relatrio Final. Departamento de
Cincias Sociais Aplicadas  Educao/Faculdade de
Educao-Unicamp/Centro de Estudos de Educao e Sociedade, 1998
(Mimeo.). 167 escolaridade entre os bancrios decorrem do imenso
exrcito de reserva de fora de trabalho criado no setor pela
reestruturao produtiva contempornea. Beneficiando-se do desemprego
intenso e da crescente precarizao das relaes de trabalho, as
instituies financeiras selecionam os trabalhadores mais escolarizados
para compor seu quadro funcional, dentre um grande contingente
disponvel no mercado de trabalho.         No discurso patronal, a
importncia da escolaridade elevada no emprego bancrio soma-se a
exigncias de um conjunto de habilidades e modos de comportamento
propagados como necessrios  "competitividade" dos servios bancrios
no mercado financeiro.41 Sob o culto da "excelncia" e da "qualidade
total", o trabalhador  coagido a alcanar a mxima produtividade e
eficcia na sua atividade diria, a partir de critrios e metas
determinados pela empresa. O significado da qualificao demandada nos
bancos , assim, questionado por Segnini: [...] em um contexto de
intensa concorrncia interbancria [...], qualificao, na perspectiva
dos bancos, expressa a capacidade de competir, com sucesso, tanto com
colegas de trabalho na execuo de servios internos, na busca de um
desempenho diferencial cada vez melhor, como no mercado financeiro,
vendendo produtos e servios bancrios. Isto quer dizer que, na tica
dos bancos, ser capaz e ter disposio para competir, ser capaz de ser
"um vencedor", marca e caracteriza competncias, compreendidas como
sendo qualificao. Desta forma, um conjunto de processos sociais,
econmicos, culturais, so mobilizados na construo da socializao
"para mercado"; alm, sem dvida, da grande importncia adquirida pelos
atributos pessoais. Observa-se tambm que a importncia do diploma, em
termos de contedo (qualidade)  relativizada, adquirindo muito mais um
carter legitimador do posto de trabalho ocupado do que mobilizador de
conhecimentos. 42         As desigualdades e contradies do modo
capitalista de produo no desaparecem, portanto, com as experincias
atuais de flexibilizao e automatizao do trabalho. Realizadas em um
regime de produo cujo objetivo predominante  a --- 41. L. Segnini
cita, entre outras, as seguintes habilidades e atitudes exigidas para os
gerentes em um banco privado estrangeiro: ter "jogo de cintura", saber
equilibrar os interesses do banco com os do cliente, ter percepo
aguada, ser ambicioso, polido, transmitir confiabilidade. J para os
caixas, alguns dos atributos ideais seriam: rapidez, eficincia,
equilbrio, amabilidade. SEGNINI, L. (Coord.). Reestruturao nos bancos
no Brasil: desemprego, subcontratao e intensificao do trabalho.
Programa de Pesquisa em Cincia e Tecnologia, Qualificao e Produo.
Relatrio Final. Departamento de Cincias Sociais Aplicadas 
Educao/Faculdade de Educao-Unicamp/Centro de Estudos de Educao e
Sociedade, 1998 (Mimeo.), p. 242-244. 42. SEGNINI, L. (Coord.).
Reestruturao nos bancos no Brasil: desemprego, subcontratao e
intensificao do trabalho. Programa de Pesquisa em Cincia e
Tecnologia, Qualificao e Produo. Relatrio Final. Departamento de
Cincias Sociais Aplicadas  Educao/Faculdade de
Educao-Unicamp/Centro de Estudos de Educao e Sociedade, 1998
(Mimeo.), p. 484 (Grifos meus). 168 criao do valor, estas novas formas
de acumulao capitalista no se constituem em possibilidade concreta de
desenvolvimento das capacidades humanas. Ao contrrio, visam
essencialmente eliminar obstculos ao domnio absoluto do capital sobre
o trabalho, mantendo e aguando as relaes sociais de antagonismo e
dominao que fundam o capitalismo. Dominao e resistncia no trabalho
bancrio         Os atuais padres de racionalizao do trabalho revelam
dimenses econmicas enquanto processos de reorganizao produtiva para
maior valorizao do capital -, mas tambm polticas e ideolgicas. As
estratgias de poder que objetivam a submisso e a disciplina nos locais
de trabalho, assim como os mecanismos empresariais e institucionais
destinados a quebrar a resistncia dos trabalhadores, so expresses da
mundializao do capital e de suas formas de dominao polticas e
sociais.         Os novos modelos de organizao produtiva, fundados em
densa inovao tecnolgica e na flexibilidade de processos e mercados de
trabalho, introduzem formas de racionalizao e tecnificao do trabalho
que agudizam as fragmentaes e desigualdades no interior da classe
trabalhadora, deterioram suas condies de vida e trabalho e contribuem
para um aumento dramtico dos nveis de desemprego. Longe de solucionar
as tradicionais cises que discriminam sexo, etnia, cor, e privilegiam a
fora de trabalho masculina e branca no mercado de trabalho, os atuais
mtodos de racionalizao produtiva criam novas formas de fragmentao.
Diferenas marcantes nas condies de emprego, carreira e remunerao
separam os trabalhadores contratados formalmente daqueles com precrio
vnculo empregatcio, subcontratados pelos processos flexveis.
A capacidade de organizao poltica e sindical da classe trabalhadora
tem sido fortemente atingida pelos movimentos de reestruturao
produtiva, que disseminam o desemprego e o subemprego pelo mundo. Como
assinala Ricardo Antunes,43 tais movimentos engendraram uma classe mais
complexa e fragmentada, constituda de uma fora de trabalho apta a
operar equipamentos microeletrnicos, mas tambm de uma grande massa de
trabalhadores sub-remunerados e em condies precrias de emprego,
desvinculados dos sindicatos. As tendncias de queda dos nveis de
sindicalizao e de reduo do nmero de greves na maioria dos pases
capitalistas centrais e perifricos so significativas da crise
contempornea do movimento sindical dos trabalhadores, em escala
mundial. --- 43. ANTUNES, R. Trabalho, Reestruturao Produtiva e
Algumas Repercusses no Sindicalismo Brasileiro. In: ANTUNES, R. (Org.).
Neoliberalismo, trabalho e sindicatos - Reestruturao Produtiva no
Brasil e na Inglaterra, op. cir. 169         As transformaes que
agitam o mundo produtivo compem um contexto poltico, social e
econmico dominado pelos programas de ao neoliberais e seus mecanismos
de ataque a quaisquer limites s determinaes do mercado. Neste cenrio
de liberdade extremada para o capital, potencializa-se como nunca a
explorao de mais-valia e aprofunda-se, de modo intenso, a concentrao
da riqueza privada. Os altos ndices de desemprego e subemprego criam um
imenso exrcito de reserva de trabalho, que se constitui em instrumento
importante de controle do capital sobre o nvel dos salrios.
Sob essa contextualidade de desestruturao do mercado de trabalho, os
bancrios sofrem visvel deteriorao de suas condies de emprego e
salrio. As transformaes no seu processo de trabalho - automatizao,
flexibilizao, novas formas de gesto e de controle - aumentam
brutalmente os nveis de produtividade e recriam condies para um maior
domnio do seu trabalho pelo capital. Nos locais de trabalho bancrio
predomina a sobrecarga de trabalho, mediante a intensificao do seu
ritmo e a constante imposio de extenso da jornada laboral.
Simultaneamente, a intensidade da mudana tecnolgica e organizacional
modifica rapidamente exigncias e conceitos de qualificao, excluindo
do mercado de trabalho aqueles tidos como desqualificados ou
"inadaptveis" aos atuais padres de produtividade e qualidade das
empresas. Os programas de "qualidade total" e de "remunerao varivel"
desenvolvem um conjunto de estratgias de dominao que perseguem o
envolvimento e a submisso totais de cada trabalhador ao iderio
patronal, acrescentando um forte componente ideolgico aos critrios
seletivos e promocionais nos ambientes de trabalho.         A
modernizao tecnolgica, constitutiva dos movimentos de reestruturao
produtiva do capital, possibilita s instituies financeiras grande
reduo de seus custos operacionais e aumento proporcional de suas taxas
de lucro. Em contrapartida, torna a grande maioria dos assalariados
bancrios cada vez mais alheia s finalidades e ao sentido de sua
atividade. Com a automatizao do seu trabalho, os bancrios manipulam
smbolos de valor ainda mais fantasmagricos: a tradicional
matria-prima de sua atividade - o papel - vai sendo rapidamente
substituda por impulsos eletrnicos derivados das memrias dos
computadores. E o produto do trabalho bancrio disfara-se nos dados
informatizados que representam as cifras e os valores da
mercadoria-dinheiro em circulao.         Os mecanismos de resistncia
praticados pelos bancrios nos seus sindicatos e locais de trabalho no
tm sido capazes de impedir os efeitos lesivos dos movimentos de
transformao produtiva dos bancos para seus assalariados. Os atuais
mtodos de racionalizao do trabalho e as estratgias de poder
recriadas nas empresas para mascarar a explorao capitalista do
trabalho debilitam a organizao e a mobilizao dos bancrios em
direo a seus interesses de classe. Em nvel mais totalizante, a
contextualidade poltica e social de hegemonia do neoliberalismo, com
suas 170 polticas de desregulamentao do mercado de trabalho e de
ataque aos direitos e conquistas dos trabalhadores, soma-se aos
obstculos postos pela reestruturao produtiva ao desenvolvimento das
prticas de resistncia dos bancrios.         Num movimento
contraditrio, aes de rebeldia, que se expressam na luta sindical e
emergem muitas vezes espontnea e silenciosamente nos locais de
trabalho, mesclam-se a manifestaes de subordinao ou resignao dos
trabalhadores bancrios ao capital.         Essas so algumas das
determinaes fundamentais que particularizam o modo de ser da fora de
trabalho bancria, na conjuntura crtica que marca o capitalismo
mundial. RESUMO A reestruturao capitalista no setor bancrio
Um intenso processo de reestruturao produtiva desencadeia-se no setor
bancrio brasileiro, a partir das medidas institucionais implementadas
desde o programa de estabilizao monetria que se convencionou chamar
de "Plano Real". A poltica econmica e financeira, inspirada nos
princpios tericos do neoliberalismo, adota aes de liberalizao
monetria e desregulao do mercado, de privatizao e de estmulo a
fuses e incorporaes entre empresas, que favorecem o grande capital
privado nacional e estrangeiro. Sob a presso da concorrncia
internacional e do contexto de estabilizao da moeda, as instituies
financeiras adotam medidas de reduo de custos operacionais e investem
maciamente em sistemas de atendimento eletrnico. Tais medidas imprimem
ao sistema financeiro do pas um perfil concentrador de capital,
altamente informatizado, seletivo e elitizado quanto  oferta de
servios  populao e extremamente restrito no que concerne ao emprego
de fora de trabalho. Automatizao e flexibilizao no trabalho
bancrio         No interior das instituies bancrias, os movimentos
de automatizao e de reorganizao produtiva mudam contedo, condies
e relaes do trabalho. Os bancrios realizam tarefas simplificadas
pelos processos automatizados e se encontram submetidos a novas prticas
de controle e gerenciamento que intensificam e disciplinam mais seu
trabalho. Sob um contexto de crescente desemprego e de difuso de formas
precrias de contratao, que excluem enorme parcela de trabalhadores do
mercado de trabalho formal, os bancrios esto sujeitos  sobrecarga de
tarefas e a jornadas de trabalho extenuantes, na sua atividade
cotidiana. Agravam-se os problemas de sade destes trabalhadores nas
ltimas dcadas, e observa-se um aumento sem precedentes das Leses por
Esforos Repetitivos - LERs, que redu- 171 zem a fora muscular e
comprometem os movimentos do portador da doena. Em contrapartida, os
programas de "qualidade total" e de remunerao varivel, amplamente
difundidos no setor, recriam estratgias de dominao do trabalho que
mistificam e obscurecem a explorao capitalista. O bancrio dos anos
90: novas exigncias de qualificao sob o culto da excelncia
Modificaes significativas nos traos constitutivos da fora de
trabalho bancria tm sido detectadas nos estudos realizados sobre o
perfil da categoria desde o incio dos anos 80. Observa-se uma reduo
dos trabalhadores envolvidos nos servios operacionais e
administrativos, enquanto aumenta relativamente a participao de
gerentes e assessores tcnicos - em informtica ou mercado financeiro -
na estrutura funcional dos bancos. Os bancrios dos anos 90 so mais
escolarizados, tm uma idade mdia mais alta, esto h mais tempo na
profisso e pretendem seguir na carreira bancria, em sua maioria.
Tais mudanas so expresses da reestruturao produtiva em curso e das
novas exigncias das instituies financeiras quanto  qualificao dos
bancrios. Sob o culto da excelncia, a demanda por uma formao geral e
polivalente, ao lado da busca pela adeso plena do trabalhador s
estratgias mercadolgicas dos bancos, revela o contedo poltico das
atuais propostas patronais quanto ao perfil de sua fora de trabalho.
QUESTES PARA DISCUSSO 1. Qual a lgica que fundamenta a reestruturao
produtiva em curso no setor bancrio brasileiro? 2. Em sua opinio, por
que a automatizao e a flexibilizao do trabalho bancrio no tm
beneficiado amplos contingentes de trabalhadores? 3. Qual a relao
entre o novo perfil do trabalhador bancrio e as polticas de
reestruturao produtiva dos bancos? PARA LER MAIS JINKINGS, N. O mister
de fazer dinheiro: automatizao e subjetividade no trabalho bancrio.
So Paulo: Boitempo, 1995. ANTUNES, R. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre
as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. So Paulo:
Cortez/Editora da Unicamp, 1995. 172 LOJKINE, J. A revoluo
informacional. So Paulo: Cortez, 1995. TEIXEIRA, F. e OLIVEIRA, M.
(Org.). Neoliberalismo e reestruturao produtiva: as novas
determinaes do mundo do trabalho. So Paulo: Cortez, 1996. CHESNAIS,
F. A mundializao do capital. So Paulo: Xam, 1996. TAVARES, M.C.;
FIORI, J.L. (Org.). Poder e dinheiro: uma economia poltica da
globalizao. 3 ed. Petrpolis: Vozes, 1997. 173 Formao profissional
e formao humana: os (des)caminhos da relao homem-trabalho na
modernidade Roberto Moraes Cruz Temas A modernidade e a dimenso do
trabalho na vida das pessoas Formao profissional e desenvolvimento
humano A formao dos trabalhadores na sociedade Formao de Recursos
Humanos e a ideologia da racionalidade tcnica Introduo         O
fundamento da formao profissional est intimamente relacionado 
prpria estruturao da organizao do trabalho a partir do modelo de
produo capitalista e s bases da concepo do homem como um "recurso".
Desenvolver uma crtica a esse respeito implica desvendar o percurso
histrico-social, sua relao com a organizao do trabalho humano,
assim como o carter ideolgico de sua dominao.         As mudanas
sociais operadas durante os ltimos dois sculos de industrializao
permanecem pautando as discusses atuais acerca dos fatores
intervenientes  formao profissional dos trabalhadores, em razo dos
impasses gerados entre as competncias e habilidades requeridas pela
modernizao do processo produtivo e a qualidade da formao
profissional do indivduo.         O imperativo moderno da inovao nos
processos produtivos e do aumento da capacitao tcnica dos
trabalhadores encontra limites conjunturais claros entre a realidade
mercadolgica e a possibilidade de realizao profissional das pessoas.
O descompasso que acentua a insatisfao dos trabalhadores em programas
de formao profissional gerados ou promovidos pelas organizaes e pelo
Estado, ainda que no se discuta sobre seus vieses ideolgicos,
demonstra estratgias pouco coerentes para lidar com a dimenso da
formao humana.         Quais seriam os principais aspectos a serem
considerados na discusso acerca da formao profissional dos
trabalhadores? Quais os (des)caminhos da formao humana diante do
processo produtivo? 175 A modernidade1 e a dimenso do trabalho na vida
das pessoas         A modernidade tem sido caracterizada, ao longo do
tempo, como um conjunto de experincias humanas historicamente
conjugadas ao desejo de transformar o mundo, por meio do avano
cientfico-tecnolgico, da incessante produo de bens materiais, do
ritmo frentico das trocas sociais.         Esse processo que se iniciou
em fins do sculo XVIII e que resultou numa mudana radical na cultura
material da sociedade ocidental - caracterizada como a Revoluo
Industrial - desencadeou alteraes significativas na relao
homem-trabalho.         O desenvolvimento tecnolgico resultante das
grandes invenes e descobertas cientficas, aliado ao esprito
cientfico de carter positivista, fez com que a Revoluo Industrial se
apoiasse fortemente numa concepo ideolgica racional-pragmtica que
respondesse linearmente ao crescimento do industrialismo. E este
fascnio cientfico pelo desenvolvimento tecnolgico, considerado mola
propulsora da Revoluo Industrial, ampliou a capacidade de
interpretao das leis da natureza por parte do positivismo, advogando
para si o estatuto do conhecimento da relao homem-mquina, suporte e
novo parmetro de organizao da sociedade industrial.         O
processo produtivo capitalista, ao se tornar o motor principal dessas
transformaes, modificou o cotidiano das pessoas, colocando o
desenvolvimento da sociedade sob o lastro das necessidades geradas pelo
prprio processo produtivo. O convvio dirio com os avanos
tecnolgicos, o cruzamento efetivo entre a vida pblica e a privada, a
diferenciao social dos indivduos pelo trabalho, tudo isso aponta para
um redimensionamento da pesquisa acerca dos eventos psicossociais
associados  dinmica do trabalho.         Vrios indicadores tericos e
empricos, tais como os apontados por Tittoni2 e Codo3 demonstram que o
circuito do trabalho (a conscincia de realiz-lo e a obteno de algum
grau de satisfao pessoal) se mantm essencialmente determinado pelo
significado social do trabalho que se reflete na conscincia humana.
As cincias humanas, no bojo desse processo, tm produzido uma
diversificao e aprofundamento de abordagens no sentido de captar, de
forma cada vez mais intensiva, o significado da ao transformadora do
homem sobre o seu universo social. --- 1. Estamos nos referindo ao
conceito de modernidade originalmente presente no Manifesto Comunista,
em Marx, e discutido por Mashall Berman em seu livro Tudo o que  slido
desmancha no ar: a aventura da modernidade. So Paulo: Companhia das
Letras, 1986. 2. TITTONI, J. Subjetividade e trabalho: a experincia no
trabalho e sua expresso na vida do trabalhador fora da fbrica. Porto
Alegre: Ortiz, 1994. 3. CORO, W. (org.) Indivduo, trabalho e
sofrimento. So Paulo: Vozes, 1996. 176         A modernidade tem se
mostrado um cenrio performtico, onde o mundo produtivo recria com
excelncia, atravs da organizao do trabalho, o universo da
sobrevivncia humana a partir das exigncias do consumo.         O
processo produtivo trouxe o planejamento, a organizao, o controle do
trabalho, mas s encontra a sua energia na gerao incontrolvel de
mercadorias. O mundo se tornou o mundo das mercadorias, onde todas as
esferas da vida se vem penetradas pela necessidade de gerar
necessidades, "provenham elas do estmago ou da mente", tal como
percebia Marx4. O indivduo moderno se v num mundo logicamente
planejado e programado para faz-lo funcionar, independentemente de seus
desejos e motivos pessoais.         E, para o mundo sob as exigncias da
performance, o trabalho passa a ser o ponto de conexo principal com a
realidade.  nele que se desenvolve o significado de pertencimento nas
pessoas, uma conscincia prtica de se representar individualmente
naquilo que se faz.         Reconhecemos tacitamente as relaes
intrnsecas entre a lgica produtivista e o processo de
despersonalizao dos indivduos. O mundo do trabalho  o mundo onde nos
organizamos, planejamos o nosso presente e o nosso futuro, adquirimos
experincia prtica e nos reafirmamos socialmente, porque fazemos. O
sentido de ser est intimamente ligado ao sentido de ter. A menor
incompatibilidade entre esses dois sentidos gera o estresse, a
desmotivao, o desinteresse, a insatisfao consigo mesmo, a loucura.
A urgncia em ser algum na sociedade tem produzido uma ciso entre o
indivduo e a sua prpria expresso social, exatamente porque revela a
ciso do sujeito com ele mesmo (entre ele e o significado daquilo que 
socialmente), o que podemos definir como um processo de
despersonalizao.         Despersonalizao implica, portanto,
desumanizar-se aos poucos, exaurindo-se na tentativa de suprir essas
necessidades e de usufruir das benesses geradas pelo sistema
produo-consumo. O indivduo recorre a um embotamento da afetividade,
da espontaneidade e da criatividade como forma de se adequar ao ciclo
mercadolgico.         O processo de identidade, forjado nas relaes
concretas entre as pessoas, passa a representar, no trabalho, o
resultado daquilo que se faz e no o resultado daquilo que se faz para
si mesmo. E a temos profissionais desgastados pelo trabalho, fazendo
aquilo que no gostam, obrigados a suportar boa parte de suas vidas em
situaes estressantes, em nome da lgica das necessidades. E  por isso
que as pessoas, depois de um dia de trabalho, querem "desligar-se" de
tudo aquilo que diz respeito ao trabalho que fazem, em busca de um
cotidiano mais prazeroso. Porm, o trabalho  --- 4. MARX, K. O capital:
crtica da economia poltica. 2 ed. So Paulo: Nova Cultural, 1985.
Livro Primeiro, Seo I, cap. I. 177 "indesligvel", mesmo porque o
mundo produtivo no est representado apenas pela empresa em que
trabalhamos, mas pelas demais dimenses da vida social: o lugar onde se
estuda, onde se faz lazer. Formao profissional e desenvolvimento
humano         Formao profissional e desenvolvimento humano
tornaram-se eixos estratgicos das polticas de qualificao dos
trabalhadores diante das transformaes operadas no processo produtivo.
A crescente busca pelo conhecimento, pela rapidez de informaes, pela
inovao tecnolgica e por novos modelos de gesto da fora de trabalho
tem cada vez mais ampliado o grau da competitividade social e
profissional, colocando esses eixos estratgicos sob dois parmetros de
discusso:         1. Inovaes no processo produtivo significam novos
conhecimentos sobre o trabalho, e, por conseguinte, uma formao
profissional deve se adequar s demandas mercadolgicas.         2. A
emergncia do trabalhador competente e instrumentalizado s inovaes no
mundo do trabalho est diretamente relacionada a mudanas no eixo da
formao bsica, depositando-se na educao, onde quer que ela se d, o
desafio da formao cientfico-tecnolgica e poltica.         Ambos os
parmetros apontam para uma dicotomia conhecida: a temtica
Educao-Trabalho. No primeiro plano, uma viso mais otimista
correlaciona o aprimoramento do conhecimento humano ao aprimoramento da
tecnologia do trabalho, o que implica dizer que educao deve acompanhar
a realidade mercadolgica. No segundo plano, numa viso mais pessimista
quanto  capacidade mercadolgica, apesar de ter como eixo de estudo o
processo de trabalho, atribui-se ao processo educativo em si o papel de
instrumentalizador do conhecimento e democratizador de oportunidades de
formao profissional, visto que o determinismo econmico e tecnolgico
somente tem acentuado a desqualificao do trabalhador, via menor
capacidade de reao cognitiva e reduo da oferta de emprego. 5
Desta polarizao, ganha cada vez mais espao a tendncia de se discutir
a formao profissional do trabalhador diretamente associada 
emergncia de novos modelos de gesto empresarial, diferenciando-se da
tendncia verificada nos anos 70, no Brasil, quando o debate priorizava
o papel poltico-ideolgico da educao no cenrio nacional.6 --- 5.
Estamos, evidentemente, sintetizando as inmeras contribuies dos
autores dessa rea temtica. 6. A esse respeito, ver o artigo de Lcia
Maria W. Neves, Educao e desenvolvimento - uma velha discusso?, em
que a autora procura resgatar o conceito de cidadania a partir da
discusso sobre a especificidade e os determinantes da educao enquanto
poltica social do Estado capitalista. 178 No mbito desse processo de
discusso e pesquisa sistemtica, contabiliza-se alguns horizontes
fundamentais de anlise:         1. Reconhece-se a importncia em
analisar o nexo entre formao profissional e formao humana, em razo
das exigncias operacionais alavancadas pelas mudanas tecnolgicas e
pelos novos programas de formao e desenvolvimento no e para o trabalho
geridos pelas organizaes. Operam-se conceitos como profissionalizao
e qualificao profissional no sentido de satisfazer s exigncias da
competitividade e s tentativas de integrao entre o conhecimento que o
trabalhador detm sobre sua atividade profissional e a realidade do
processo de trabalho.         2. Procura-se desenvolver programas de
capacitao profissional atrelados aos atuais modelos de busca da
qualidade e produtividade, atravs dos sistemas e programas de Controle
de Qualidade, de origem japonesa e norte-americana, na tentativa de
valorizar a chamada "dimenso social" nas relaes de trabalho.
Incorporam-se conceitos de rpida absoro mercadolgica, tais como
autonomia, participao, desenvolvimento de equipes, integrao de
tarefas, qualidade de vida no trabalho, que operam como elementos
promocionais, por parte das organizaes, das chamadas polticas de
Recursos Humanos.         Com tudo isso, percebe-se, no fundo, a
necessidade de confluir os interesses gerados pela absoro do
instrumental tcnico (domnio cientfico e tecnolgico) e o compromisso
com a motivao humana, na tentativa de conciliar a qualidade formal (a
competncia tcnica) com a qualidade subjetiva (a identificao com o
trabalho e seus aspectos motivacionais).         A formao profissional
do trabalhador, ao se mostrar ideologicamente configurada ora em
programas de capacitao tcnica, ora em programas de valorizao do
humano, se v atropelada pelas condies econmicas, polticas e
culturais da sociedade e das prprias organizaes, o que permanece como
um desafio  construo de alternativas reais ao processo de formao
profissional, visto que implicaria assumir que a formao e o
desenvolvimento do trabalhador deveria se configurar numa
instrumentalizao da realidade do trabalho, isto , a aprendizagem de
conceitos e mtodos a partir das qualidades formais e subjetivas
construdas e vividas nas relaes de trabalho.         O trabalho no
implica uma atividade eminentemente tcnica, mas as condies do sujeito
que trabalha. Assim, no trabalho esto implcitas, alm do produto do
trabalho, as reaes subjetivas do trabalhador, sua capacidade de
incorporao de novos conhecimentos, suas formas de relacionamento
interpessoal, os motivos que o --- 7. BASTOS, A.v.B. A psicologia no
contexto das organizaes: tendncias inovadoras no espao de atuao do
psiclogo. In: CFP.Psiclogo brasileiro: construo de novos espaos.
Campinas: tomo, 1992, p. 55-124. 179 levam a trabalhar. Todos esses
elementos, embora se processem individualmente, esto submetidos s
relaes de trabalho que se estabelecem no cotidiano profissional e que
repercutem na conscincia do trabalhador.         Nesse contexto, o
tempo dispendido na empresa, as regras, as formas de controle, as
relaes de trocas sociais desenvolvidas, tudo isso acaba por vincular
inteiramente o trabalhador  sua condio de trabalho. Quanto mais
intensa for a sua vivncia no processo produtivo, mais se revelar para
o sujeito a sua condio de trabalhador e, em ltima instncia, a sua
condio de sujeito social. A formao dos trabalhadores na sociedade
Em toda reflexo cientfica e, particularmente, nas reflexes pautadas
nas cincias humanas, subjaz uma concepo de sujeito, muitas vezes
implcita no objeto de investigao. As hipteses sobre a especificidade
do humano atravessaram sculos de estudos, em meio aos processos
histricos e sociais, deduzindo que o mundo em que vivemos tem se
construdo no interjogo entre a realidade e o conhecimento obtido pela
transformao operada naquela.         Ao se constituir como elemento
transformador da realidade, o ser humano se investe de uma relao
daquela cujo motor modificante  a necessidade surgida exatamente por
essa capacidade produtiva. Segundo Foucault,8 at o final do sculo
XVIII, o homem no existia como objeto de conhecimento; a instaurao do
objeto "homem" se delineia no espao da consolidao das necessidades
materiais engendradas na sociedade moderna, pela necessidade de
instrumentalizar corpos e mentes para o trabalho.         O corpo
adquire liberdade de intercmbio na relao de compra e venda da fora
de trabalho, e a mente assume o papel de abstrair as possibilidades de
ascenso social. O binmio corpo-mente coloca o desenvolvimento da
sociedade sobre o lastro do desenvolvimento da produo e das
necessidades, ao mesmo tempo em que estabelece a igualdade e a
independncia formal entre os indivduos, na busca por insero no
mercado de trabalho e na vida social.         Portanto, o ponto de
partida para a formao do indivduo  a produo social, com suas
regras de organizao, com seus instrumentos e padres de convivncia.
Para Marx,9 a produo social realizada por indivduos - ao moldar a
realidade de acordo com suas regras tcnicas e sociais - determina, em
ltima instncia, a confi- --- 8. FOUCAULT, M. As palavras e as coisas:
uma arqueologia das cincias humanas. 5 ed. Rio de Janeiro: Graal,
1990. 9. FOUCAULT, M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das
cincias humanas. 5 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1990. 180 gurao
genrica de homem, expressa empiricamente em cada indivduo em
particular. Isso significa que o desenvolvimento humano est intimamente
relacionado com o desenvolvimento sociomaterial, o que implica dizer que
os limites da autonomia humana passam a se circunscrever aos limites do
mundo produtivo.         Nesta condio, a vida dos indivduos passa a
depender no somente de sua insero no mundo do trabalho, mas,
particularmente, da identificao com a atividade desenvolvida
profissionalmente. Se o trabalho e sua importncia concreta de
atendimento das necessidades so comuns a todos os indivduos, a
qualidade na instrumentalizao do fazer profissional  que ir
diferenciar uns dos outros. Esta condio revela o carter formador do
contedo do trabalho sobre o indivduo.         Mattos (1990) e Motta
(1990)10 afirmam que, desde os primrdios da sociologia, tem sido
privilegiada a relao entre trabalho, sociedade e formao do homem. A
organizao do trabalho humano, at mesmo por representar historicamente
a organizao dos sistemas sociais (Estado, Sociedade, Escola, etc.),
constituiu-se em locus de desenvolvimento de um princpio definidor do
comportamento humano, qual seja, a formao de um homem dotado de
qualidades para a sua completa utilizao no mundo do trabalho. Tomando
este ponto de vista, a atividade profissional passou a representar um
fim ltimo, onde o que no pudesse ter sido "ajustado" anteriormente (o
papel da Escola, da Famlia) passaria pelo "ajuste" da organizao do
trabalho (o controle do fator humano preconizado pelo modelo dos
Recursos Humanos).         Pira Offe,11 ao criticar o marxismo, que
coloca a questo do trabalho humano como princpio fundamental de
entendimento da dinmica social, pode-se considerar que o trabalho no
permanece como categoria fundamental de entendimento da dinmica, da
estrutura e das relaes entre os sujeitos humanos, considerando que a
racionalidade da produo industrial atingiu seu limite de exausto com
o surgimento do trabalho em servios e com as modificaes dos critrios
de qualificao profissional e dos contratos de trabalho. Para o autor,
a racionalidade decorrente da automao, a diminuio do tempo de
trabalho socialmente necessrio, o subemprego e o desemprego estrutural,
bem como "as crises de identificao" da chamada classe trabalhadora,
submeteram as teorias da sociologia clssica a uma discusso sobre o
conceito de trabalho enquanto categoria estrutural de explicao da
sociedade. --- 10. MATTOS, R. de A. A ao humana nas organizaes.
Boletim Tcnico do SENAC. Rio de Janeiro, 1990, v. 16, n. 2, p. 151-182
e MOTTA, F.C.P. Organizao e poder: empresa, Estado, escola. So Paulo:
Atlas, 1990. 11. OFFE, C. Capitalismo desorganizado: transformaes
contemporneas do trabalho e da poltica. So Paulo: Brasilierse, 1989.
181         Autores alemes contemporneos, como Martin Baethge, Helmut
Konig e Werner Market,12 questionam Offe e a sua argumentao de no ser
mais o trabalho uma categoria fundamental para a interpretao das
atuais estruturas socioeconmico-culturais. Consideram os autores que,
apesar do aumento do tempo livre e da expanso das possibilidades de
comunicao, continuamos vivendo uma "sociedade do trabalho", dado que a
posio social do indivduo, bem como sua participao poltica na
sociedade permanecem, ainda, essencialmente determinadas pela qualidade
de sua insero no sistema produtivo.         Reconhecem, contudo, que
as mudanas decorrentes da mobilidade do capital e dos avanos
tecnolgicos delinearam novas estruturas na organizao do trabalho, com
modificaes nas tcnicas tayloristas, embora sem substitu-las em sua
racionalidade implcita. A tendncia a novos esquemas de racionalizao
do trabalho dever se voltar  qualificao do trabalhador, dentro de
uma perspectiva educacional e cultural humanista, na qual a exigncia
ser por competncia nos conhecimentos sobre o produto e o processo de
trabalho, alm de um saber emprico, proveniente de sua experincia
direta com o maquinrio.         Para Deluiz e Trein,13 a formao da
conscincia, inerente ao processo de trabalho, se constitui na
pea-chave para a discusso sobre as mudanas operadas, hoje, no mundo
do trabalho. Para as autoras, ao reconhecer apenas a crise, e no o fim
da sociedade do trabalho, no se pode concordar com as teses de Habermas
e Offe, que vem em outros espaos do "mundo vivido" o local para o
desenvolvimento da ao comunicativa, da construo da conscincia
coletiva para alm dos limites da coero do trabalho: Se na produo,
por exigncia da prpria dinmica do capital, novos espaos so criados
para a atuao dos trabalhadores de forma mais solidria, tambm
dialeticamente podemos considerar esses espaos como espaos de luta,
formao poltica, unidade de interesses, apesar das diversidades de
ocupaes. 14         Se o conceito de trabalho sempre esteve
relacionado  satisfao de necessidades, isto ,  necessidade de
sobrevivncia do trabalhador, sua natureza social tem se condicionado
aos limites da "empregabilidade", entendida como a capacidade de obter
lugar relativamente permanente no mercado de trabalho. Seu significado
transformador, do homem e da natureza, tal como apontado pela literatura
marxia- --- 12. Ver os artigos dos autores em MARKERT, W. (Org.).
Teorias de educao do iluminismo: conceitos de trabalho e sujeito.
Trad. Cludia Cavalcanti. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994. 13.
DELUIZ, N.; TREIN, E.S. O trabalho e a qualificao profissional na
viso de autores alemes. Boletim Tcnico do SENAC. Rio de Janeiro,
1991, v. 17, n. 1, p. 3-21. 14. DELUIZ, N.; TREIN, E.S. O trabalho e a
qualificao profissional na viso de autores alemes. Boletim Tcnico
do SENAC. Rio de Janeiro, 1991, v. 17, n. 1, p. 18. 182 na, perde-se num
emaranhado de situaes prticas, onde o exerccio pela sobrevivncia
embota maiores elucubraes sobre sua importncia capital para o
entendimento da formao e do desenvolvimento humano. Marques15 assim
entende essa afirmao: O trabalho, ento, para o homem como para a
mulher, tem um sentido muito mais alm do simples dinheiro para a
sobrevivncia. Nas atuais condies das estruturas sociais, ele  mais
que 'aprender um ofcio', ele  capaz de se transformar no ser daquele
que o exerce. Ele  capaz de determinar a qualidade das relaes
sociais. Assim sendo, pode a Educao, como sistema, deixar de investir
recursos humanos e financeiros na investigao profunda de seus
significados? 16         A discusso desse imperativo moderno - o
significado social do trabalho para a formao e para o desenvolvimento
humano -, tem levantado inmeras interrogaes sobre a capacidade do
atual modelo produtivo, caracterizado pela acelerao dos sistemas de
informaes tcnicas, pela automao e por suas tecnologias de absoro
da fora de trabalho. Mais ainda, coloca em xeque as polticas de
formao dos trabalhadores, capitaneadas pelos programas de modernizao
e capacitao de Recursos Humanos, construdos em torno das competncias
e das habilidades requeridas pelo atual processo produtivo. Formao de
Recursos Humanos e a ideologia da nacionalidade tcnica         Numa
perspectiva socioeconmica, a expresso "formao de Recursos Humanos"
tem sido representada como o ponto de equilbrio entre desenvolvimento
econmico e desenvolvimento do bem-estar do indivduo. Lewis, Schultz,
Beeby, entre outros,17 so considerados os influenciadores nos estudos
sobre a importncia econmica atribuda ao processo educacional (formal
e no-formal), bem como na afirmao de que o aprimoramento do potencial
humano, fundamental para o processo econmico de qualquer pas, se d
pela via educativa, assim como a melhoria das demais condies de vida
implicaro um aumento da produtividade. Entretanto, segundo Verhine,18
essa relao direta entre o aprimoramento educacional e o sucesso
econmico do indivduo e da sociedade vem sendo contestada --- 15.
MARQUES, J.C.A educao e o mundo do trabalho. Rev. Educao e
Realidade. Porto Alegre, 1984, v. 9, n. 1, p. 101-107. 16. MARQUES,
J.C.A educao e o mundo do trabalho. Rev. Educao e Realidade. Porto
Alegre, 1984, v. 9, n. 1, p. 107. 17. Citados por DANERMANN, R.N. Atos e
fatos da formao profissional. Boletim Tcnico do SENAC, Rio de
Janeiro, v. 11, n. 13, p. 229-231, ouddez. 1985. 18. VERHINE, R.E.
Realizao ocupacional e educao formal, no-formal e informal:
resultados de uma linha de pesquisa sobre o trabalhador em Salvador,
Bahia. In: Educao e trabalho. Salvador: Fator, 1988, p. 75-94. 183
ideologicamente nos ltimos vinte anos pelas crticas introduzidas pela
Teoria da Reproduo (que v no processo educacional a manuteno do
pensamento ideolgico dominante e percebe a instituio escolar como um
aparelho ideolgico do Estado), e na prtica, pelos resultados
verificados no eixo mercadolgico, particularmente nas oportunidades de
emprego e no desemprego.         Ainda segundo o autor, a relao entre
educao e sucesso ocupacional (oriunda em ltima instncia do
pensamento econmico neoclssico, que postula ser o processo educacional
 gerador de talentos e habilidades produtivas) apresentou controvrsias
tericas e empricas com os novos enfoques e pesquisas sobre "educao
no formal", enquanto atividade organizada, desenvolvida e sistematizada
fora do sistema escolar formal, e "educao informal", relacionada a
aprendizagens produzidas no cotidiano social. Os novos dados
apresentados demonstram que os efeitos das polticas sociais e
educacionais, bem como o contexto do mercado de trabalho, longe de
produzirem o aprimoramento dos recursos humanos e, conseqentemente, do
sucesso ocupacional, derivam para correlaes generalizadas de educao,
esta confundida genericamente ou com escola, ou com treinamento
profissional.          fato que, sob a perspectiva do desenvolvimento e
da realizao humana, as organizaes significariam uma etapa de
"condensao" de foras coletivas, expressas na manuteno do statu quo
de determinados momentos civilizatrios. Dessa forma, qualquer proposta
de entendimento dos processos coletivos fundados sob a gide do modelo
de produo capitalista recuperaria, em sua essncia, as condicionantes
ideolgicas procedentes do movimento das foras sociais, corporificadas
nas instncias jurdico-culturais da sociedade. A organizao do
trabalho, portanto, representaria a materialidade dessas foras sociais.
Porm, se as organizaes tm sido objeto de diversas disciplinas no
contexto das cincias humanas, em cada uma delas as condies
metodolgicas tm privilegiado diversas dimenses de anlise: o processo
produtivo e os avanos tecnolgicos, as condies histrico-sociais de
seu desenvolvimento, as questes de ordem antropolgico-culturais, as
variveis da ao humana e suas expresses simblicas. Na verdade, as
diversas teorias sobre a natureza e a dinmica das organizaes
expressam a complexidade em haver uma concepo uniforme, tendo em vista
as questes ideolgicas decorrentes dos modelos de anlise.         De
uma forma ou de outra, a profuso de modelos explicativos sobre o
propsito das organizaes tem gerado uma srie de articulaes tericas
na tentativa de produzir uma avaliao mais totalizadora das variveis
internas e externas determinantes da perpetuao e sobrevivncia das
organizaes. Livros so escritos mostrando como a organizao  um
fenmeno moderno, e o fato de passarmos a maior parte de nossas vidas em
organizaes revela a nossa dependncia a estas, bem como sua influncia
sobre o nosso comportamento de uma forma geral. A nacionalidade da
sociedade estaria condicionada  lgica das prprias organizaes. Assim
 apontado o cenrio por Etzioni19: "A sociedade moderna  uma sociedade
de organizaes. Nascemos em organizaes, somos educados em
organizaes, e quase todos ns passamos a vida a trabalhar para
organizaes. Passamos muitas horas de lazer a pagar, jogar e a rezar em
organizaes. [...] Neste sentido, a sociedade moderna valoriza a
nacionalidade, a eficincia e a competncia,virtudes essas que so
alcanadas pelas organizaes"         As organizaes, nesse sentido,
seriam fundamentalmente a mola propulsora do desenvolvimento econmico,
poltico e social dos grupos humanos. A eficincia delas seria avaliada
direta e proporcionalmente  sua condio de existncia e sobrevivncia
material.         Para Chanlat,20 em um mundo essencialmente dominado
pelo economicismo e pelo determinismo tecnolgico, os homens e mulheres
que povoam as organizaes so considerados, na maioria das vezes,
apenas quantidades materiais, "recursos [...], cujo rendimento deve ser
satisfatrio do mesmo modo que as ferramentas, os equipamentos e a
matria-prima".21 Para o autor, a sociedade moderna inverteu, ao longo
do tempo, a importncia e a valorizao das relaes entre as pessoas, 
primazia da relao entre pessoas e coisas. A principal causa dessa
primazia, segundo Chanlat, pode ser atribuda  subordinao das
relaes sociais ao universo dos objetos-mercadorias e  nacionalidade
econmica.         Essa primazia do universo das mercadorias sobre as
relaes entre as pessoas possui localizadores histricos precisos e
conseqncias definitivas para o modo de ser da sociedade moderna. O
controle do comportamento humano adquire padres cada vez mais
sofisticados, e o projeto de ser algum na sociedade passa a se
concretizar nos resultados obtidos a partir de seu desempenho no
trabalho.         Esse processo, caracterizado como a ideologia da
nacionalidade tcnica, representa uma camuflagem das contradies das
condies sociopolticas em que vive a sociedade, pois o que se prega 
o aperfeioamento da sociedade (e no a sua mudana) atravs de
tecnologias apropriadas, tal como se apresenta no iderio positivista: o
cotidiano  compreendido por meio de uma racionalizao constante, em
que as respostas --- 19. ETIZIONI, A. Organizaes modernas. 8 ed. So
Paulo: Pioneira, 1989, p. 1. 20. CHANLAT, J-F. Por uma antropologia da
condio humana nas organizaes. In: CHANLAT, J-F. (Org.). O indivduo
na organizao: dimenses esquecidas. So Paulo: Atlas, 1992, v. 1, p.
21-45. 21. CHANLAT, J-F. Por uma antropologia da condio humana nas
organizaes. In: CHANLAT, J-F. (Org.). O indivduo na organizao:
dimenses esquecidas. So Paulo: Atlas, 1992, v. 1, p. 25. 185 para os
problemas de adaptao do homem  natureza (a sociedade, as mquinas)
estariam no desenvolvimento da tecnologia do comportamento humano.
Para Enguita,22 o fetichismo tecnolgico atingiu ideologicamente todas
as concepes de educao e de desenvolvimento humano. Segundo o autor,
o fetichismo "otimista" relaciona, diretamente, progresso tecnolgico
com bem-estar de todos, decorrendo a idia de uma fora de trabalho cada
vez mais qualificada, a partir das necessidades verificadas na produo.
Nesse sentido, o ensino se orientaria para as cincias experimentais, a
especializao seria voltada apenas  demanda do mercado de trabalho, e,
portanto, "a escola deve selecionar de maneira eficiente os melhores
talentos e a sociedade deve dar-lhes o lugar que merecem para poder
beneficiar-se de suas capacidades". 23         De forma contrria, o
fetichismo " pessimista" advoga que, se a tecnologia se tornou um
atributo competitivo inevitvel, seus efeitos sobre o trabalho tm sido
negativos; os trabalhadores, efetivamente, vem suas tarefas serem
progressivamente desqualificadas, montonas e rotineiras, implicando uma
perda de controle e autonomia sobre o processo de trabalho,
desumanizando as relaes sociais: [...] uma vez que os trabalhos exigem
cada vez menos qualificaes reais, a escola desempenha, cada vez mais,
o simples papel de uma imensa creche na qual se mantm reclusas e
ocupadas as crianas e os jovens; sua funo de socializao substitui
de forma crescente a funo de transmisso de conhecimentos. 24
Porm, apesar de a tecnologia aparecer como a causadora da
desqualificao do trabalho humano, ela, em si, no teria motivos para
isso. Para Enguita (1988), os motivos podem ser encontrados naqueles que
se beneficiam direta ou indiretamente com a desqualificao do trabalho.
A tecnologia serviria, assim, como um instrumento manipulvel (na
verdade, uma inteligibilidade sobre o progresso tecnolgico), resultado
de opes polticas e ideolgicas de grupos sociais: No existe uma
tecnologia, produto inigualvel da cincia, que se imponha a toda a
sociedade com a fora do inevitvel, existem, pelo contrrio, grupos
sociais que tm o poder suficiente para determinar as opes
tecnolgicas e grupos que no podem seno adaptar-se a elas ou
combat-las. Entre os grupos que contam --- 22. ENGUITA, M. Tecnologia e
sociedade: a ideologia da racionalidade tcnica, a organizao do
trabalho e a educao. Rev. Educao e Realidade. Porto Alegre, 1988, v.
13, n. I, p. 39-52. 23. ENGUITA, M. Tecnologia e sociedade: a ideologia
da racionalidade tcnica, a organizao do trabalho e a educao. Rev.
Educao e Realidade. Porto Alegre, 1988, v. 13, n. 1, p. 39-52. 24.
ENGUITA, M. Tecnologia e sociedade: a ideologia da racionalidade
tcnica, a organizao do trabalho e a educao. Rev. Educao e
Realidade. Porto Alegre, 1988, v. 13, n. 1, p. 39-52. 186 com esse poder
esto, em primeiro lugar, os empresrios e os tcnicos e,
secundariamente, os investigadores e o Estado. Entre aqueles que o
sofrem esto a maioria dos trabalhadores.25         Na verdade, para
Marcuse,26 a inteligibilidade presente nas relaes entre tecnologia e
comportamento humano, base sob a qual a racionalidade do modelo
produtivo se beneficia ideologicamente, traduz todas as dimenses da
efetividade do trabalho em torno dos limites de sua organizao tcnica.
Por trabalhar com conceitos prprios do positivismo, esta ideologia, no
entender do autor, fortalece o pensamento e o comportamento
padronizados, que tm como critrio a eficcia sobre o meio: o que
importa so os resultados. O que decorre desse tipo de afirmao  que,
se o fim justifica os meios, qualquer aspecto processual de aplicao
imediata dessa afirmao tambm se torna padronizado, ou seja, em
essncia, no se pode falarem processo.         No lugar da conscincia
poltica tem-se a conscincia tecnolgica, um comportamento que reduz a
si mesmo e os outros a objetos tcnicos, nos moldes das relaes
objetais desenvolvidas pela cincia de base eminentemente experimental.
Como o desenvolvimento tecnolgico converte-se num fim em si mesmo, o
tempo, a histria so dominados imaginariamente; vive-se somente o
presente, pois o futuro se torna o presente sofisticado e o passado
converte-se em obscurantismo. O presente instantneo reduz o tempo e a
histria, transformando-os em utopias, em mesmice. A conscincia
tecnolgica obscurece a conscincia poltica, preconizando a separao
entre o sujeito que pensa e os instrumentos que este utiliza para se
instrumentalizar na realidade.         Assim, sujeito e objeto se tornam
separveis, impossibilitando a subjetividade como processo de construo
das relaes entre o sujeito e o objeto, ou seja, impossibilita a
constituio do prprio "eu". O mundo externo torna-se para o sujeito,
tal como eleito pela Psicologia Desenvolvimentista e pela Pedagogia de
mesma base, um mundo de satisfaes de desejos e necessidades pessoais,
pois sua funo  preencher o "eu" e, assim, constituir o sujeito.
A ideologia da racionalidade tcnica, por se constituir num todo
explicativo, constri um modelo coerente, e pragmaticamente possvel, de
entendimento da realidade. Ela traduz o desenvolvimento da cultura
tecnolgica como se dando por meio do controle da natureza, que envolve
o controle da "natureza humana". --- 25. ENGUITA, M. Tecnologia e
sociedade: a ideologia da racionalidade tcnica, a organizao do
trabalho e a educao. Rev. Educao e Realidade. Porto Alegre, 1988, v.
13, n. 1, p. 42. 26. MARCUSE, H. A ideologia da sociedade industrial: o
homem unidimensional. 5 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. 187
Sob uma postura racional tcnica, a possibilidade de controle
tecnolgico da natureza deduziria o controle do comportamento humano,
exatamente por no perceber a especificidade da relao sujeito-objeto;
as conseqncias disso seriam as atitudes manipulatrias seja do
sujeito, seja do objeto (o que implica, de partida, controle do
conhecimento). O particular deve ser subsumido ao todo, retornando 
sociedade de forma indiferenciada, ou na forma traduzida como
individualismo. A palavra-chave  administrar ou gerenciar as
oportunidades que a vida oferece, caracterizando-as como as
possibilidades de acesso ao mundo social.         A racionalidade
tcnica, ao considerar o modelo capitalista como o sistema mais adequado
 natureza humana, cultiva o iderio conservador ao evitar os
radicalismos, os confrontos sociais, dando nfase ao consenso, 
administrao racional da vida. Se, para Marcuse, o avano econmico
progressivamente levou a uma correlao imediata entre tecnologia e
administrao da vida social, para Habermas27, de forma particular, a
introjeo de valores morais e ticos submeteu-se  esfera das
possibilidades de ser na sociedade, convertidos em aperfeioamento
tcnico de um sistema social que, em si mesmo, traz suas possibilidades
de existncia, atravs dos seus produtos sociais.  assim que, dessa
forma, violncia e injustia social podem ser traduzidas como "problemas
tcnicos", e a cultura se torna "indstria cultural".         No mbito
das organizaes, o circuito produtivo determinou a evoluo das
tcnicas produtivas e sua correspondncia imediata, que foi a perda do
controle humano sobre o trabalho. Porm, para Marcuse, na construo da
realidade tecnolgica, no se pode vislumbrar uma ordem cientfica
puramente racional; o processo da racionalidade tecnolgica,
historicamente, se tornou um processo poltico: Somente no medium da
tecnologia, o homem e a natureza se tornam objetos fungveis de
organizao. A eficcia e a produtividade universais s quais so
subordinados velam os interesses particulares que organizam o aparato.
[...] A posio social do indivduo e sua relao com os demais no
apenas parecem determinadas por qualidades e leis objetivas, mas tambm
essas leis e qualidades parecem perder seu carter misterioso e
incontrolvel; aparecem como manifestaes calculveis da racionalidade.
O mundo tende a tornar-se o material da administrao total, que absorve
at os administradores. A teia da dominao tornou-se a teia da prpria
Razo, e esta sociedade est fatalmente emaranhada nela. 28 --- 27.
HABERMAS, J. Cincia e tcnica enquanto ideologia. In: BENJAMIN et al.
Textos escolhidos (Col. Os Pensadores). 2 ed. So Paulo: Abril
Cultural, 1983. 28. HABERMAS, J. Cincia e tcnica enquanto ideologia.
In: BENJAMIN et al. Textos escolhidos (Col. Os Pensadores). 2 ed. So
Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 162. 188         Os caminhos da formao
profissional, do ponto de vista moderno, e em todas as suas perspectivas
atuais, permanecem atrelados ao circuito de capacitao do conhecimento
formal. Mesmo nele, os programas de aperfeioamento profissional
desenvolvidos pelas instncias produtivas e pelas instituies que atuam
no mundo do trabalho reconhecem as dificuldades em ancorar estratgias
de conhecimentos traduzveis no desempenho das atividades.         A
problemtica da formao profissional permanece na ordem do dia. Traduz
as diferentes vises e estratgias de instrumentalizao do saber do
trabalho e suas repercusses sobre a qualidade das relaes entre as
pessoas. Para ns, importa continuar avaliando, criticando e apontando
os (des)caminhos das polticas de formao profissional e quais as novas
perspectivas de redimensionamento da relao homem trabalho, a partir
das atuais constataes acerca da produo de necessidades humanas.
RESUMO         Desvendar o percurso e os problemas relacionados s
concepes de formao profissional implica explicitar o carter
estruturante da ideologia da racionalidade tcnica no cenrio da
organizao do trabalho humano. Os diversos fatores intervenientes na
formao profissional - o cenrio das mudanas sociais operadas no
desenvolvimento da sociedade do trabalho - permanecem pautando as
discusses atuais acerca das competncias e habilidades requeridas aos
trabalhadores diante da modernizao do processo produtivo.         O
trabalho, enquanto categoria fundamental de organizao da dinmica
social, construiu a necessidade concreta da instituio do ser social.
Pelo trabalho, inferimos as dimenses atravs das quais se tem
constitudo o carter poltico da conscincia de si mesmo na sociedade.
Desvendar os aspectos ideolgicos inerentes s propostas de
instrumentalizao do trabalhador s condies da realidade do trabalho,
base pela qual se sustentam as propostas de formao profissional,
permite-nos diagnosticar os limites e os problemas inerentes s atuais
polticas de formao profissional. QUESTES PARA DISCUSSO 1. Como
podemos relacionar as atuais necessidades da vida moderna com a
estrutura da relao homem-trabalho? 2. De que forma a ideologia da
racionalidade tcnica tem se constitudo no principal modo de
organizao da sociedade? 3. Quais os parmetros tericos e estratgicos
que nos auxiliam a analisar os (des)caminhos da formao profissional,
hoje? 189 PARA LER MAIS BERMAN, M. Tudo o que  slido desmancha no ar:
a aventura da modernidade. So Paulo: Companhia das Letras, 1986.
FERRETTI, C.J. et al. (Org.). Novas tecnologias, trabalho e educao: um
debate multidisciplinar. Petrpolis: Vozes, 1994. FIDALGO, F.S et al.
(Org.). Gesto do trabalho e formao do trabalhador. Belo Horizonte:
Movimento de Cultura Marxista, 1996. PERRET, B. ROUSTANG, G. L'conomie
contre la socit: affronter la crise de l'integratin sociale et
culturelle. Paris: ditions du Seuil, 1994. 190 Fim do livro
